segunda-feira, 1 de maio de 2017

CANÇÃO DE UM ninguém

Eu sou um ninguém
No subúrbio do mundo
Cantando rouco
Desafinado
Pra outro ninguém ouvir
Esse discurso tolo
Mas afiado
Que corta a víscera
De quem sentir
Assim como eu
A ferida aberta
A porta fechada
A encruzilhada
A dor da partida
E a dor da chegada
Essa vontade de dizer não
Essa incerteza ao afirmar
O que desejo
A falta de jeito para sorrir
A vontade de soltar
O choro engasgado
De gritar algo que nem sei
Eu mesmo o que significa
Porque a angústia é a minha melhor amiga
E a solidão a certeza do fim.

SOBRE A MORTE DE BELCHIOR


Hoje o corpo não guarda mais a alma
De quem, vivo, transitou pela canção 
E se fez poema em carne e coração 
Como o pássaro que encanta sua prisão 
Fez a arte onde só havia trauma 
Semeou pergunta onde residia a calma 
E a sua dor veio como redenção 
Unindo o medo, a loucura e a razão 
Numa eterna e passageira contradição.