domingo, 3 de setembro de 2017

ÓRFÃO DE SONHOS

No silêncio da noite
O cobertor é meu confessionário
E os olhos fechados
As portas de um mundo aberto
Escuro e só meu
Repleto de fantasmas do passado
Os sonhos abandonados
Os desejos frustrados
A lição de casa de um amanhã que não veio.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Desencanto e morte

Autorretrato com a Morte Tocando Violino, de Arnold Böcklin.
Um canto novo não veio
Uma esperança que morreu
Foi-se o nobre devaneio
Para longe se perdeu
Foi-se um eu em meio ao tempo
Foi-se o ídolo e o templo
Acabou-se a ilusão
Foi-se o rumo, foi-se o chão
Veio a morte como foice
E podou meu coração.  

sábado, 29 de julho de 2017

EU MANDACARU

Pintura: Adriano Santori

A aridez do terreno em que brotei
Não logrou impedir meu crescimento.
Eu sou cacto verdoso e espinhento!

Mas além dos espinhos que forjei,
Sou por dentro a doçura apurada,
Sou poema que cresce pela estrada,
Sou o grito da vida que resiste,
Sou metáfora do povo que insiste
Em viver enfrentando o sofrimento.

Sou o sorriso teimoso do momento
Em que sonho ser mais do que agora!

Não é pouca a vileza do que enfrento.
E o mal deste mundo me devora...
É o amor que inexiste nas pessoas,
É a angústia que existe aqui dentro
Azedando o sabor das coisas boas...

Os meus versos atestam que estou vivo
E enquanto existir algum motivo
Para crer num amanhã ainda possível
Viverei. 

segunda-feira, 1 de maio de 2017

CANÇÃO DE UM ninguém

Eu sou um ninguém
No subúrbio do mundo
Cantando rouco
Desafinado
Pra outro ninguém ouvir
Esse discurso tolo
Mas afiado
Que corta a víscera
De quem sentir
Assim como eu
A ferida aberta
A porta fechada
A encruzilhada
A dor da partida
E a dor da chegada
Essa vontade de dizer não
Essa incerteza ao afirmar
O que desejo
A falta de jeito para sorrir
A vontade de soltar
O choro engasgado
De gritar algo que nem sei
Eu mesmo o que significa
Porque a angústia é a minha melhor amiga
E a solidão a certeza do fim.

SOBRE A MORTE DE BELCHIOR


Hoje o corpo não guarda mais a alma
De quem, vivo, transitou pela canção 
E se fez poema em carne e coração 
Como o pássaro que encanta sua prisão 
Fez a arte onde só havia trauma 
Semeou pergunta onde residia a calma 
E a sua dor veio como redenção 
Unindo o medo, a loucura e a razão 
Numa eterna e passageira contradição.