terça-feira, 27 de maio de 2014

A TRISTEZA DO PALHAÇO

Por detrás de tanto riso
Aparente paraíso
Algo está por desabar

O homem, menino
A peça, o povo
Que vem assistir
O palhaço tolo
No chão se partir
O choro contido
A mancha na tinta
Que suja seu rosto
Não é mês de agosto
É pleno abril
E chove lá fora
Sorri já febril
Quando se apresenta
O pobre palhaço
Por lá se partiu
Sorrindo e chorando
No chão se espojando
E foi-se, sem mais
Não fez-se capaz
De ver a si mesmo
Assim preferiu.

domingo, 25 de maio de 2014

TERCEIRA ORAÇÃO

Deus-do-nada, Deus-irmão,
teu calar, minha oração.
Tu que cantas pelo vento,
no voar dos passarinhos,
que proteja meus caminhos
mesmo sem poder lhe ver.
Deus-destino, Deus-dos-nus,
desatino inconteste
luz do sol, fogo celeste,
dor que escorre no olhar
do que sofre a injustiça,
fé que insiste insubmissa,
sempre que se vai lutar!

quarta-feira, 21 de maio de 2014

UM SÓ FÔLEGO NÃO BASTA

A Coisa consiste
no olho que vê.
A Fala que insiste,
querela de ter.
A faca cortante:
real de você.
A foice do instante...
Sem réu, há o que?
A Coisa calada,
Que dela saber?
A verdade nua,
quer ela deter?
A Voz que insinua:

Sua fala, poeta,
não pinça o mundo.
Seu jeito esteta...
Se cala, se grita...

Um só fôlego não basta!

terça-feira, 20 de maio de 2014

CONFUSÃO SILENCIOSA

Queda José... e nasce Ana.
Na cama, concebe-se Miguel;
na água, batiza-se João;
no leito, em casa,
olha Pedro para o teto,
contando os segundos.
O menino joga a pedra numa lata...
e a luta segue morna e normal.
Entre lágrimas de chegada e saída,
o poeta, simplesmente, alma perdida,
nem diz sim e nem diz não.
Só fica pasmo, o coitado,
com a tamanha confusão
que é o trilho deste mundo.

domingo, 4 de maio de 2014

QUEDAMOS

Queda o boi e queda o pasto,
Queda o galo no quintal,
Queda o homem neste vasto
Universo (bom & mau!).

Queda o dia, queda a morte,
Queda a vida, queda a noite
Queda o tempo, queda o corte,
Que do Nada é açoite!

Quedo-me, quero-me, só...
Quem dói mais que a ignorância?
Que dantesca extravagância!
Quer ser mais do que o pó?!

quinta-feira, 1 de maio de 2014

AO FIM


Se o Fim, este evidente inevitável
Sem aviso, sem medida, sem limite
Vem conciso, breve e palatável
De amargor, insaciável de apetite
Paradoxo, não-sentido, não-poema
Corta, parte, alquebra e algema
O homem findo, envolto no dilema
De poetas que não sabem traduzir
O que há antes e após este porvir
O vazio inconcebível do Só-Nada
Na sonata infinita do Universo
Musicada em notas intransigíveis
Que revelam, reles, o aquém dos níveis
Mais iniciais do seu primeiro verso
Do Alguém perdido da Alvorada
Concebido por nós ilusoriamente
Ao fazer o movimento insistente
De cantar a Morte (o Fim) e o Começo!