terça-feira, 29 de abril de 2014

DO POEMA A TI, MENINA!


Só tu e mais ninguém sabe o que faz
De bem em mim, fecundo aconchego
Nos versos que a ti faço e no sossego
Em vê-la lê-los, sim, amo-a tão mais!

Contudo, se perdê-la, ó dama minha
Em vão risco, meu poema já definha
Não sai nada, a ausência me domina
E se tento, a letra cai, caduca a rima!

Não sou nada sem a tua inspiração!
Se a perco, perco o rumo da canção
Se a perco, o aperto vem me sufocar!

Menina, não fales, não rias, só quero
Olhar-te enquanto me ainda tolero
Cantar, sofrer, morrer no versejar!

FLORES SECAS

Descansa no vaso a flor ressequida,
Caída, calada, apagada e sem cor.
A morte lhe veio presente do amor,
Tirada da terra, podada e vendida!

Não fora somente um presente dado,
Por mero capricho de conquistador.
Menina, tu sabes qual é o valor
Do simples instante por ela marcado!

E morre mais uma em meio às tantas,
Jogadas em vasos, depois de guardadas,
No livro espremidas, no peito trancadas!

Pedaços cortados de restos de plantas
São mais e são menos do que se espera
Saudade da gente que ali persevera!

segunda-feira, 28 de abril de 2014

CONTADORES DE ESTÓRIAS


Contar estórias é fazer mundos. E fazer mundos, imitando Deus, é uma forma de se iludir perante nossa finitude. Pois cada estória, reinventada e distribuída... fincada na nossa língua, é uma passo além do bicho que tememos ser, o bicho do qual fugimos! Cada estória é uma História para nós, conosco e, doravante, para Ninguém - este monstro solitário que anda ao lado de todo poeta, de todo contador e de toda nossa cegueira saudosista; o monstro que consome tudo... e sempre! A estória é a marca humana que podemos imprimir, uma das poucas que pode durar mais que uma vida ou mais que a duração da frase! Que faz de nossas vidas uma só vida, contada, riscada na carne e passada de pai para filho, de filho para neto...! E mesmo a mais falaciosa, a mais infantil das fábulas, a mais mitológica das crenças carrega o peso da verdade desejada, da fantasia arquitetada, da defesa armada contra o tempo e suas correntes amaldiçoadas, contra o sem-sentido de nós, de fora de nós e do meio, que é essa estória!

SUOR DE PALAVRA NO PAPEL

Suor da palavra
Riscou no caderno
Poema eterno
De uma só lavra
De uma só vida
A minha comida
É poetizar
Correr e amar
Sem pé nem cabeça
Se você quiser
Peço que esqueça
Estórias quaisquer
Não há que mereça
O puro prazer
De simples fazer
O mundo que é
E sendo somente
Pequeno poema
Que a si mesmo entrega
Rastro de morfema
Peço que não tema
Esta multidão
Da mais vastidão
De um sentir perdido
Signo transcorrido
E NÓS ENFIADOS
NO SEU ENTREMEIO!

domingo, 27 de abril de 2014

ANSEIO

De uma ânsia nascente que em sonho assolou o sossego, veio-me este poema sem rumo definitivo!

Anseio
  Ir ao seio
Sedento
   Do vento
Suave
   Que Samba
Roupas
   No varal
E comer
   Das nuvens
E soprar
   Estrelas
E pular
   Planetas
E pontilhar
   Reticências
Falar
  “Etc. e tal”
E somente
   Continuar
Do nada
   A parada
Que alguém
   Deixou
   Inacabada
A história
   Cabal
Que atropela
   O céu
   Sub-animal
   Da gente!

quinta-feira, 24 de abril de 2014

MARCHA LONGARINA

O poema, em métrica de cordel de oito pés, tem este nome inspirado numa música do magnífico cearense Ednardo, e apresentada a mim pelo amigo Eliton Meneses, a quem digo ser mais dele do que meu!

Marcha rumo o gradiente
Do sol despontando quente
Uma multidão fremente
Com passadas ritmadas
Suas faces vão voltadas
Para o céu e para o mar
E o cantado caminhar
Abre-se a novas estradas!

A toada que conduz
Este povo para a luz
No arranjo nos aduz
Ao amor e à esperança
Ao fazer-se a aliança
Com o suspirar do vento
E com o alumbramento
De uma sincera criança!

E o fio que amarra
Que dá força, que dá marra
Não é banda nem fanfarra
É de fluir natural
Canta o povo em coral
Versos simples de união
Veia aberta em contramão
À barreira temporal!

quarta-feira, 23 de abril de 2014

OITO PÉS DE QUADRÃO (CORDEL)

No estilo do cordel, há a estrofe com oito versos heptassílabos (ou seja, com sete sílabas poéticas em cada) e quando feita no arranjo que abaixo demonstro é nomeada como oito pés de quadrão. Eis um trecho de um folheto, dedicado à minha esposa:

Meu amor, flor verdadeira
Tomou-me a dianteira
Sua pancada certeira
Floriu a minha visão
E se dói meu coração
É por tê-la, ora, distante
E se choro nesse instante
É que fico sem ação!

NOSSA CULTURA EM MARTELO AGALOPADO


Partilho a primeira estrofe em martelo agalopado (saiba mais sobre esse estilo aqui) de um dos folhetos que compõem o material por mim produzido para trabalhar poesia e cordel com os meninos de Araquém e região:

Aos que negam o valor da nossa terra
Dou recado seguro e assino embaixo
Que se enganam ao fazerem esculacho
Esquecendo a cultura que se encerra
Neste chão estendido em pé de serra
De caboclo e mulher trabalhadora
Que com fé e insistência lutadora
Todo dia se acordam bem cedinho
E inda vão com alegria ao forrozinho
Quando a noite se achega encantadora.

terça-feira, 22 de abril de 2014

POEMA SEM TÍTULO

Regurgitei um poema
noite passada
estava inclinada
a letra traçada
e manchada
De sangue e lágrimas
a tosse brava
desbaratada
caiu no papel
Minhas últimas energias
ali findadas
retratadas
maltrapilhas
Adjetivei tudo que pude
e depois calei
como morto
e desiludido
derrotado
sucumbido
E rimei o último verso
sem saber porquê.

domingo, 20 de abril de 2014

"?"

Estre as aspas, tão tuas
coube-me inserir uma interrogação:
mas por que teu sintático coração
aquebrantou-se sozinho outra noite?
por que sozinho o cortaste de faca?
por que sozinho o remendaste com cuspe?
por que, ora, porque...!?
se te pergunto, e me encho de pontos
costurando sei lá o que
com a agulha da tua mordida
que dói na ferida sempre!
por que, ora, porque...!?

seria meu poema uma auto-acusação?

ENIGMA PALAVREADO

Escrevendo na pele (recortada),
cujo sangue se extingue (renascido):
do instante lançado (ora perdido)
pela mão do espaço (encantada),
pelo sopro do tempo (amarrada),
na palavra me envolvo (desatino!)
e me perco no livro (libertino)
dos mais dias das horas e de tudo...
e se faço cantar, eu fico mudo...
e se faço calar, jogo meu tino.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

HAICAIS / DESEJO

i.
Dissipai, ó treva
O desejo inconformado
Do fruto de Eva!

ii.
Encubra-me, mar
Corroa-me, maresia
Quero ser-te par.

iii.
Partiu-se o peito
Por uma paixão sedenta
Acalanto ao leito.

iv.
O que já foi, fim
O que não é, nunca mais
Estará por mim.

v.
Você, o que olha?
Ainda não caíram os frutos
Vá lá e colha!

vi.
Não-assim, sim-não
Paradoxo e sem-sentido
Minha condição.

sábado, 12 de abril de 2014