sexta-feira, 21 de março de 2014

DESPOJADO

Uma peça, magistral e improvisada,
Da qual cresce o roto enredo desta vida:
De autores de existência carcomida,
De atores que se lançam à alvorada.

Uma peça, breve peça, que me vem
De um além que desconheço e procuro
E descubro, estupefato, no escuro,
Que, por certo, desvendá-la, não convém.

Mas por que esta minha intuição?
Se a vida por si só é uma questão
De que fujo, quando penso procurar.

Mas de que tanto me vale a espera?
Se o tempo que se passa não tolera
Aprender sem ter de que se despojar.

terça-feira, 18 de março de 2014

NAVEGO-ME

O corpo em que habito sente fome.
As partes que me formam se acomodam
Nos gozos de outrora - que me podam
As forças e asperezas do ser-home.

Lágrimas que jorram sem-um-rumo;
Os partos não ocorrem sem a dor.
Se nasço e se morro, perco o prumo;
Sou o desequilíbrio e o torpor.

Mas, morte-minha, mestra, carinhosa
Acalante-me e embale na frieza,
No eu-frio, que renego, a torpeza.

Sou a carne, sou a casa e sou mais,
Se perco ou se saio, tanto faz:
Navego-me somente em verso e glosa.

sábado, 15 de março de 2014

DE PASSAGEM

Passaremos, que bom! Passaremos
E nas idas que nos reencontremos
Passaremos, enfim! Passaremos
Chorarei, chorará, choraremos
Sorrirei, sorrirá, sorriremos
Findarei, fim-dará, findaremos
E por nada do que nós fizemos
E por tudo o que nós tememos
Por algo que sempre esquecemos
Passaremos, que bom! Passaremos!

DESPIDO

Dote_mote, forte_morte
Corte_gemo, agarro_sai
Gente_preso, grito_ai
Passo_fico, finda_cai
Calo_corro, espio_volto
vou-me, venho e revolvo
sou revolver de um só tiro
se erro, azar
melhor eu miro
se me retiro
a presa cai
e se, acaso
eu me despir
ou me despido
todo verso se refaz.

quinta-feira, 13 de março de 2014

TÃO-SOMENTE

Tão-somente, ó irmão, tão de repente,
Veio a nova das mais inesperadas.
Trouxe junto emoções exasperadas.
Insuflou e fez subir o sangue quente.

Tão-somente, é o que digo por agora,
Neste ensejo, nesta fala, neste verso.
Falo pouco, pois me nego, sou transverso
Numa dúvida que muito me apavora.

Justamente não sei bem o que lhe quero:
Se lhe peço, se insisto, se espero.
É o desespero por não ter aonde ir.

Se lhe cobro um minuto de atenção,
Se lhe falo, se lhe choro, de antemão,
Só buscando a desculpa pra seguir.

quarta-feira, 12 de março de 2014

VOZES ALHEIAS

De quando em quando, há apartação
Do que se diz para o que se quer;
Saem palavras sem laço qualquer;
Foge o sinal que faz a ligação.

Joga-se letras que soam estranhas,
Como se nunca as tivesse pensado;
E doem fundo, ao ser renegado
Este restolho das próprias entranhas.

Eu os sou mesmo: estes falatórios!
Por mais que negue e que deles fuja,
Nem que em mim haja inquisitórios

Renegadores da verdade suja.
No paradoxo, no rosto avesso,
Faço-me homem desde meu começo.

domingo, 9 de março de 2014

MOÇA, MINHA

Moça, minha
Moça, terna
sussurre-me
um punhado
de doçura
Moça, amante
Moça, pura
mova-me deste lugar
leve-me para o longe
fantasio te beijar
Moça
Ouça
o que tenho
não se escreve
não se cabe
só se sofre
só se sopre
a liberdade
de te amar
Eu pedinte
de joelhos
só te peço
sou-te imerso
sou-te verso
versejo-te
e só.

LIQUIDAÇÃO

PROMOÇÃO
vende-se a liberdade
o sintoma mais estranho
PREÇO
que as entranhas
estrangulem-se
indecisas de porvir
GARANTIA
a única que dispomos
é o fim.

quinta-feira, 6 de março de 2014

VIDAS SECAS

O filho o pai o irmão
O discurso de consolação
O chão rachado
Homem calado
Faz oração
Choraminga no terreiro
A menina em berreiro
De fome
De medo
Vê a carniça da rês
Pútrida
Anunciação
Da miséria
Da pequenez
Mas se há de resistir.

domingo, 2 de março de 2014

LA NUEVA BUENA

Viene la unión
En la nueva noche
Para cantar
El cielo y el mar
La fe en la gente
Y la coraje
Y la voluntad
De bailar
Las manos juntas
Siempre en la rueda
Nuestra oración
Es lo puro amor
Libre
Revolucionario
Que nos desata
Del torpor.

ASSOCIAÇÃO LIVRE

I.
Primeiro me ocorreu
Entre névoas
Entretanto
Que aquelas lembranças
Encobertas
Revelavam
O que não quis
De mim
E pensei daquilo ser
Do demônio
E o demônio
Já não mais tão vermelho
Mostrou-nos somente
Uma caricatura
De uma das tão distintas
E encravadas
Facetas da gente.

II.
E os demônios
Sem asas
Senão desejos
Viraram-se em anjos
Nesta teogonia
Em que os deuses-homens
Gozavam da morte
Na brancura de falta de sentido
No ofuscar dos sonhos ideários
E nas preces mais desorientadas
E de línguas tão desconhecidas
Tudo se misturava
E ao mesmo tempo se revelava
Em harmonia
Tudo se esbanjava de risos
Perante nossa ignorância.

III.
E no terceiro ato
O derradeiro
O desespero
Despido das mágoas
Vestido de choro inteiro
Sem mais tanta força para resistir
O pobre homem
Revelado ao não-saber
Entregou-se ao vácuo
E abandonou-se no vento
De uma constante e renascida vida
Entre-morte e entre-vidas.