quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

LIVRO-NÓS

Se cada morto fosse um poema
e cada livro um pequeno céu
se cada frase fosse um suspiro
e cada pausa um fino véu
que desvelasse a via tênue
que nos separa do já-não-ser
aí eu seria o silêncio
e minha esperança a rima
e a melodia só teria sentido
na decifração de alguns loucos.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

PALMATÓRIA DA REALIDADE

abra alas
abra asas
para o vento
que
abrasa a dor
do abrasador
desejo de dar
um fim
desdenhoso
à brasa
do amor
que me negaste -
vida
de fantasias
delírios
ilusões
e afins
-
palmatória
da realidade.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

VENTO (II)

vento de guarda-chuvas
de folhas secas
de sussurros
confessor
cura a dor
da mágoa minha
dá-me rumo
dá-me força
dá-me ser
o mais-de-mim
dá-me ser
o que sonhei melhor
e o que arquitei
de mais bonito
tu que não vejo
mas que desejo
sempre comigo
vento quente
da coragem
e do sonhar.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

GRATIDÃO PELOS AMIGOS

Não estamos sós
definitivamente
quando nos dias
se nos apresentam
tais espíritos livres
como um amigo
que um fortuito
Desencontro
me legou.

Ah, Desencontro e Acaso
quanto tens jogado
a nós de aprendizado
e a fiel desventura de viver
se torna mais afável
menos embrutecida
mais esperançosa
mais ávida por ser vivida
com a ternura
das amizades
das companhias
que nos trazes.

Desencontro
já descobri
tuas entrelinhas
a tua forma de conduzir
sutilmente
nossa lida no livro
que se nos mostra
em cada página
amassada pelo vento
do tempo destemido
cuja interpretação
se dá nos gestos
mais simplórios
de afeição.

Não sei fazer coisas
elogiosas
só posso ser sincero
dizendo de minha gratidão
ó vida
por me ter legado
tão boas companhias!
E por nos ter legado
lutas nossas
e esperanças comuns!

Adiante!

AS ERVAS DANINHAS DAS FALHAS NÃO NOS PODEM IMPEDIR DE PLANTAR

No dia
em que a mudança
sonhada
falhar
que aperfeiçoemo-la!
ao contrário
do conselho
dos pessimistas
que bradarão por
desistência!
aqueles que desistiram
antes de tentar
os castradores de si mesmos
os homens dominados
pela própria indolência
e pela complacência
com os erros
os que se confundem
pensando ser a vida dada
- coitados! -
A vida é conquistada
e as ervas daninhas
das falhas
não nos podem impedir
de plantar!

sábado, 8 de fevereiro de 2014

CONTANDO ÀS ESTRELAS

Conto
às estrelas
as falácias
que fiz verdades
as juras
que comprei por tolas
as esperanças
que joguei ao léu
Conto
às estrelas
à lua
às galáxias
a minha resignação
por ser pequeno
passageiro
numa condução
que não sei
para onde leva.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

MAIS QUE PALAVRAS DE AMOR



Tanto-enquanto
as mãos se unirem
exprimirem união
no-contanto
de contatos
entre irmãos
neste intermeio
em que o freio
egóico não age
cri que criei
minha mais
feliz certeza
a de que
o abraço
cria
conflita
e renova
mais que
palavras de amor.

MEDO VISCERAL

Vi
meu sangue
escorrer pelo chão
meus dentes secarem
minha face descorada
e minha energia
dizimada
pagando o dízimo
pelo ázimo
dos dias
paguei-te, tempo
dei-te tudo que tinha aqui
deite-me agora no repouso
no intervalo
entre tu e o real
que bem poderia ser fantasia
dos minutos agonizantes
em que te queria
como sempre antes
povoando o pulular
de vísceras
existindo
e me eximindo
desta aberração
que está ao teu lado
e que numa atitude
arbitrariamente tola
nomeamos
como Nada.

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

SEM-PRUMO

Sem-rumo
sem-prumo
sem-horizonte
o deserto
incerto
desandar
cem anos
não bastam
explodem
repletos
do vazio
de
não-sonhar
não-se-abismar
em brincar
com as coisas
fúteis
e as futilidades
que achamos
sérias.

FALANDO SEM CESSAR

Se falasse só
e somente
pra tratar
da falácia
audaciosa
que se cria
em torno
do nosso pó
falaria
amiúde
e sem notar
das coisas
engasgadas
noutro plano
do falar
noutra dimensão
do amar
noutro lado
da morte-vida
ou vida-morta
que não conforta
meu sentido
poético
falaria
não por mim
estético fugaz
falaria
pelo extra-estético
o que está
bem por detrás
do meu medo
escondido
nestas certezas
de strass
enfeitadas demais
um medo
do que não conheço
e falo sem cessar
que nego.

CORTANTE

Conquisto
o mais agudo
corte
na carne
que estraçalha
tudo
que afina
desafina
a fina
humanidade
à sina
de vontade
devotada
à casta
de desejos
“perniciosos”
estes gozosos
que se ligam
à carne
cortada
na palavra
negada
na moral
inventada
que dita
o mal
e o cruel
e inverte
os polos
no papel
de maldade
intrincada
e se perde
em toneis
envelhecidos
por verdades
enfermidades
governadas
nas correntes
amarradas
de vertentes
não citadas
e obscuras
demais
corto-as
ao falar
de amor
e da pura
pureza
de seu
sabor.

MEU SUMO

Um brinde
à brincadeira
ao tom
rosa-festivo
da estação
afaga
o cancioneiro
que tece
versa
e fere
o coração
anime-se
no embalo
do vento
no telhado
do verso
que lhe falo
do humor
inacabado
me fale
me cante
me drible
me espante
me some
meu sumo
é isto.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

QUANDO SE OUVIREM

Intersticial
notícia
de que
amanhã
não haverá
regimento
interno
que barre
o aglomerado
de resistentes
não fardados
e insipientes
homens novos
em velhas cascas
e que as mordaças
rasgarão
em plenas praças
de solidão
a voz premente
de uma gente
que quis falar
e não se ouvia
a si mesma.

PROMÍSCUO DESAMOR

Reze
preze
a fé
que nasce
do afeto
e da face
ferida
na medida
em que
se entrega
e se prega
o viver
demasiadamente
repleto
de querer
amar
o outro
que não se tem
que está próximo
portanto, além
do amor dito
universal
de discursos
soltos
cultos
fieis
ocultados
de pobres coitados
que vivem a fé
de crerem
ser deles
a verdade
e esquecem
da promiscuidade
que é
não amar.

FERIDA LAVADA

Sabia
o sabão
que lava
a mão
de quem
bateu
que mancha
vermelha
não se lava
trava-se
no pano
e não há ano
que passe
que limpe
não há plano
que nasce
que tampe
não há choro
que salgue
que cicatrize
fica
não passa
e se esfregar
e se teimar
amassa
ou rasga
arrasa.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

SOL-REI

Sol-rei
dite-se
no chão rachado
deite-se
no horizonte
ditoso sol de diamante
dístico máximo
de fogo e luz.

DOS ESPÍRITOS TEIMOSOS

Dois dias depois da morte
inda desanuviado
viu-se preto, viu-se branco
não viu-se
viu-se duplamente
e esquecia toda vez do que via
viu-se de outro jeito
viu-se com outro corpo
e a vileza daquele instante
absorto
não lhe trouxe o conforto que esperava
Já no terceiro dia
não se via mais
também não quis nem saber
já bastava de confusão!
já morrera mesmo
para que se abater?
para que algo pior?
O pior sono já tinha passado
e o passado parecia mais claro
e o presente tinha sido apagado
assim como as vestimentas
de seu extenso guarda-roupas
Agora estava nu
esquecido
largado
ao recôndito mar
que conduz ao nada
e sua barca, o corpo
fez-o descer e encarar a nado
a longa travessia, que já se vencia
ainda bem que sem o corpo
fica tudo mais leve e flutua
e o destino não importa
ficaram para trás as escolhas
e que seguisse agora
para sempre
no instante-último
jazendo
e mantendo a teimosia
de voltar
sem entender jamais!

UTOPICAMENTE DEPOIS

A ruína
a queda
o fundo
o mundo
enfiado
no escuro
de frustrações
O muro
a barreira
a fronteira
Tudo num salto
se desfez
ao ver-se
adiante
o ofuscar
radiante
de uma esperança
e a aliança
novamente
teve vez -
u-to-pi-ca-men-te.

sábado, 1 de fevereiro de 2014

SAUDADE

A saudade
que me toma
e invade
que me faz
querer-te mais
pra mim
A saudade
esta dor no peito
tem o efeito
de me reduzir
Se bem
que em tê-la
não morreste
não me largaste
andas comigo
por onde for
bem cá guardada
nos meus desejos
no meu amor
A saudade
termo obtuso
confuso de se traduzir
tua presença
sempre viva
em meu seguir.