segunda-feira, 10 de novembro de 2014

CEMITÉRIO

No cemitério, erguido em pleno mato, tudo seco: as juremas, pés de sabiá, ervas rasteiras… Nenhum canto de pássaro por perto. Coroas de flores empoeiradas e velas mortas, apagadas, escorrendo por sobre os túmulos. Fotos desbotadas. Crucifixos tombados. Solidão eterna, estéril, vingativa, ácida, silente.

Na terra de gentes idas - crua e ressequida - jazem histórias e o sal de mil lágrimas perdidas, de centenas de partidas e algumas dívidas. Um turbilhão de nada, de cinza, de morte. E a morte… ela, essa temida… essa velha feia e insistente, certeira e irremediável, aparentou-se também ridícula. É sem graça. Esteve lá à mostra, à minha fronte, em meio ao pó, aos ossos e à dor passada, lavada e penitente.  Eu, encarando a sua face, como antes tantas vezes e como, infelizmente, num depois que ainda não veio, por certo, embora contra minha vontade e rindo-me por dentro… calei meus adjetivos e só observei.

terça-feira, 28 de outubro de 2014

O TREM DE PASSAGEM



O choro é passageiro, meu amor
E a condução deste infortúnio
Tem linha e parada marcada
Tem final para a sua estrada
Entenda
Vai passar
Este trem de angústia no ar
Vai amassar, sucatear
As coisas sem valor
E só as que realmente importam
Resistirão à viagem
Estas não são de passagem
Tem cadeiras cativas
São naturais, são nativas
Do coração da gente

E quanto tudo parar
E houver silêncio
Veremos que a estrada foi breve

Por isso, importa aproveitar a paisagem
E sua importante companhia!

segunda-feira, 13 de outubro de 2014

PERSPECTIVAS

Quanto tempo a gente tem para perder?
Quando a gente se anuncia sem saída,
Quando a vida, estrada crua e perdida,
Recua, nua, e não aponta o que fazer?!

Quanto tempo a gente tem para crescer?
Quando a infância nos persegue incutida,
E a travessia, insistente, é dura lida,
É o tempo eterno de mudança no viver!

E contradigo, hoje mais do que fiz antes,
O tédio incerto que nos ronda, incessante,
Chutando-o longe em cada vã demonstração

De desapego ao que é dado como certo:
E na dúvida, eu me vejo um deserto
De espera, angústia, mas não de decepção!

domingo, 3 de agosto de 2014

ENIGMA N.º 1

A beleza de fora reflete a de dentro
Somente se encontra o que já se sabia
Tirando-se a capa que, ilesa, encobria
A porta possível de um descobrimento.

O mundo revela: velando de novo
Escondendo, esquecendo, o que era da gente
E um dia, quem sabe, num encontro envolvente
Cairá a casca que sela este ovo.

quarta-feira, 30 de julho de 2014

NOSSA prisão

Pois quantos dias te restam?

É de Talvez e de Quem Sabe
O governo da bússola humana
Que orienta o cego em cativeiro
Perambulando sem direção
No escuro do mistério da prisão
Em que a ignorância e a finitude
São as barras.

terça-feira, 1 de julho de 2014

SEGUNDO CANTO DE UNIÃO

A fonte jorrou.
Jorrará!
A flor não murchou.
Florirá!
E nossa marcha seguirá
Em frente.
E toda força que há
Na gente

Terá por fim um mundo bem melhor.

domingo, 29 de junho de 2014

O TRILHO

O trilho, andarilho
É perdido
É um sopro no ar
É um cuspir no mar
É um sonho sozinho
O trilho, se bem que existe
Consiste em trilhar
Insiste em escapar
O trilho, o rumo, a reta
Este que se arreda
Quando pensas encontrar
O trilho, a meta, o mito
Tanto mentes se queres
Sincero
Dizer que com ele
Ao fim chegará!

domingo, 22 de junho de 2014

QUE VÁ

Larga essa saudade tola e vem me abraçar.
Se o dia escurece sempre, sempre vem raiar,
de manhã cedinho, o sol e o azul do céu...
e eu converso com você, riscando o branco deste meu papel...
e eu que sonho com você mil aventuras como as de um cordel.

Vai, que é hora!
Não há mais
O que temer
Se há porquê
Para o que faz.

Vai, que é hora!
Não pára, não chora
Em vão carpir...
Se for de ir,
Que vá!

domingo, 8 de junho de 2014

sábado, 7 de junho de 2014

AOS MÁRTIRES DO POVO


Meu irmão, tu já fostes tão cedo.
Dá-me um medo de ver se acabar
Tudo o que nesta terra fizeste.
Resumiste tua vida em lutar.

E se hoje seguimos rumando
Estes sonhos que vimos nascendo,
É porque, saiba, cremos num mundo
De esperança e de paz florescendo.

Não morreste. O exemplo nos segue,
Sempre que nossas forças unimos.
E cantamos um canto insistente:
Nosso amor é do que nos munimos!

Esteja conosco, ó mártir e companheiro!

quarta-feira, 4 de junho de 2014

ENSAIANDO CANTAR AS ÁRVORES


Pensando nas tantas árvores, a importância e a história que elas demarcam, em nossos caminhos, no campo ou na cidade, veio-me uma simples estrofe de um poema ainda incompleto. Compartilho-a aqui:

Frondoso pereiro na beira da estrada
Refresco da sombra de um benjamim
No pé de acácia põe-se a rede armada
Na frente de casa perfuma o jasmim...

segunda-feira, 2 de junho de 2014

POEMOPERAÇÃO 2


POEMOPERAÇÃO 3

À operação de poetizar chamei de poemoperação, título de alguns poemas em imagem que irei fazendo de agora em diante. Quem sabe o que dará o conjunto...

terça-feira, 27 de maio de 2014

A TRISTEZA DO PALHAÇO

Por detrás de tanto riso
Aparente paraíso
Algo está por desabar

O homem, menino
A peça, o povo
Que vem assistir
O palhaço tolo
No chão se partir
O choro contido
A mancha na tinta
Que suja seu rosto
Não é mês de agosto
É pleno abril
E chove lá fora
Sorri já febril
Quando se apresenta
O pobre palhaço
Por lá se partiu
Sorrindo e chorando
No chão se espojando
E foi-se, sem mais
Não fez-se capaz
De ver a si mesmo
Assim preferiu.

domingo, 25 de maio de 2014

TERCEIRA ORAÇÃO

Deus-do-nada, Deus-irmão,
teu calar, minha oração.
Tu que cantas pelo vento,
no voar dos passarinhos,
que proteja meus caminhos
mesmo sem poder lhe ver.
Deus-destino, Deus-dos-nus,
desatino inconteste
luz do sol, fogo celeste,
dor que escorre no olhar
do que sofre a injustiça,
fé que insiste insubmissa,
sempre que se vai lutar!

quarta-feira, 21 de maio de 2014

UM SÓ FÔLEGO NÃO BASTA

A Coisa consiste
no olho que vê.
A Fala que insiste,
querela de ter.
A faca cortante:
real de você.
A foice do instante...
Sem réu, há o que?
A Coisa calada,
Que dela saber?
A verdade nua,
quer ela deter?
A Voz que insinua:

Sua fala, poeta,
não pinça o mundo.
Seu jeito esteta...
Se cala, se grita...

Um só fôlego não basta!

terça-feira, 20 de maio de 2014

CONFUSÃO SILENCIOSA

Queda José... e nasce Ana.
Na cama, concebe-se Miguel;
na água, batiza-se João;
no leito, em casa,
olha Pedro para o teto,
contando os segundos.
O menino joga a pedra numa lata...
e a luta segue morna e normal.
Entre lágrimas de chegada e saída,
o poeta, simplesmente, alma perdida,
nem diz sim e nem diz não.
Só fica pasmo, o coitado,
com a tamanha confusão
que é o trilho deste mundo.

domingo, 4 de maio de 2014

QUEDAMOS

Queda o boi e queda o pasto,
Queda o galo no quintal,
Queda o homem neste vasto
Universo (bom & mau!).

Queda o dia, queda a morte,
Queda a vida, queda a noite
Queda o tempo, queda o corte,
Que do Nada é açoite!

Quedo-me, quero-me, só...
Quem dói mais que a ignorância?
Que dantesca extravagância!
Quer ser mais do que o pó?!

quinta-feira, 1 de maio de 2014

AO FIM


Se o Fim, este evidente inevitável
Sem aviso, sem medida, sem limite
Vem conciso, breve e palatável
De amargor, insaciável de apetite
Paradoxo, não-sentido, não-poema
Corta, parte, alquebra e algema
O homem findo, envolto no dilema
De poetas que não sabem traduzir
O que há antes e após este porvir
O vazio inconcebível do Só-Nada
Na sonata infinita do Universo
Musicada em notas intransigíveis
Que revelam, reles, o aquém dos níveis
Mais iniciais do seu primeiro verso
Do Alguém perdido da Alvorada
Concebido por nós ilusoriamente
Ao fazer o movimento insistente
De cantar a Morte (o Fim) e o Começo!

terça-feira, 29 de abril de 2014

DO POEMA A TI, MENINA!


Só tu e mais ninguém sabe o que faz
De bem em mim, fecundo aconchego
Nos versos que a ti faço e no sossego
Em vê-la lê-los, sim, amo-a tão mais!

Contudo, se perdê-la, ó dama minha
Em vão risco, meu poema já definha
Não sai nada, a ausência me domina
E se tento, a letra cai, caduca a rima!

Não sou nada sem a tua inspiração!
Se a perco, perco o rumo da canção
Se a perco, o aperto vem me sufocar!

Menina, não fales, não rias, só quero
Olhar-te enquanto me ainda tolero
Cantar, sofrer, morrer no versejar!

FLORES SECAS

Descansa no vaso a flor ressequida,
Caída, calada, apagada e sem cor.
A morte lhe veio presente do amor,
Tirada da terra, podada e vendida!

Não fora somente um presente dado,
Por mero capricho de conquistador.
Menina, tu sabes qual é o valor
Do simples instante por ela marcado!

E morre mais uma em meio às tantas,
Jogadas em vasos, depois de guardadas,
No livro espremidas, no peito trancadas!

Pedaços cortados de restos de plantas
São mais e são menos do que se espera
Saudade da gente que ali persevera!

segunda-feira, 28 de abril de 2014

CONTADORES DE ESTÓRIAS


Contar estórias é fazer mundos. E fazer mundos, imitando Deus, é uma forma de se iludir perante nossa finitude. Pois cada estória, reinventada e distribuída... fincada na nossa língua, é uma passo além do bicho que tememos ser, o bicho do qual fugimos! Cada estória é uma História para nós, conosco e, doravante, para Ninguém - este monstro solitário que anda ao lado de todo poeta, de todo contador e de toda nossa cegueira saudosista; o monstro que consome tudo... e sempre! A estória é a marca humana que podemos imprimir, uma das poucas que pode durar mais que uma vida ou mais que a duração da frase! Que faz de nossas vidas uma só vida, contada, riscada na carne e passada de pai para filho, de filho para neto...! E mesmo a mais falaciosa, a mais infantil das fábulas, a mais mitológica das crenças carrega o peso da verdade desejada, da fantasia arquitetada, da defesa armada contra o tempo e suas correntes amaldiçoadas, contra o sem-sentido de nós, de fora de nós e do meio, que é essa estória!

SUOR DE PALAVRA NO PAPEL

Suor da palavra
Riscou no caderno
Poema eterno
De uma só lavra
De uma só vida
A minha comida
É poetizar
Correr e amar
Sem pé nem cabeça
Se você quiser
Peço que esqueça
Estórias quaisquer
Não há que mereça
O puro prazer
De simples fazer
O mundo que é
E sendo somente
Pequeno poema
Que a si mesmo entrega
Rastro de morfema
Peço que não tema
Esta multidão
Da mais vastidão
De um sentir perdido
Signo transcorrido
E NÓS ENFIADOS
NO SEU ENTREMEIO!

domingo, 27 de abril de 2014

ANSEIO

De uma ânsia nascente que em sonho assolou o sossego, veio-me este poema sem rumo definitivo!

Anseio
  Ir ao seio
Sedento
   Do vento
Suave
   Que Samba
Roupas
   No varal
E comer
   Das nuvens
E soprar
   Estrelas
E pular
   Planetas
E pontilhar
   Reticências
Falar
  “Etc. e tal”
E somente
   Continuar
Do nada
   A parada
Que alguém
   Deixou
   Inacabada
A história
   Cabal
Que atropela
   O céu
   Sub-animal
   Da gente!

quinta-feira, 24 de abril de 2014

MARCHA LONGARINA

O poema, em métrica de cordel de oito pés, tem este nome inspirado numa música do magnífico cearense Ednardo, e apresentada a mim pelo amigo Eliton Meneses, a quem digo ser mais dele do que meu!

Marcha rumo o gradiente
Do sol despontando quente
Uma multidão fremente
Com passadas ritmadas
Suas faces vão voltadas
Para o céu e para o mar
E o cantado caminhar
Abre-se a novas estradas!

A toada que conduz
Este povo para a luz
No arranjo nos aduz
Ao amor e à esperança
Ao fazer-se a aliança
Com o suspirar do vento
E com o alumbramento
De uma sincera criança!

E o fio que amarra
Que dá força, que dá marra
Não é banda nem fanfarra
É de fluir natural
Canta o povo em coral
Versos simples de união
Veia aberta em contramão
À barreira temporal!

quarta-feira, 23 de abril de 2014

OITO PÉS DE QUADRÃO (CORDEL)

No estilo do cordel, há a estrofe com oito versos heptassílabos (ou seja, com sete sílabas poéticas em cada) e quando feita no arranjo que abaixo demonstro é nomeada como oito pés de quadrão. Eis um trecho de um folheto, dedicado à minha esposa:

Meu amor, flor verdadeira
Tomou-me a dianteira
Sua pancada certeira
Floriu a minha visão
E se dói meu coração
É por tê-la, ora, distante
E se choro nesse instante
É que fico sem ação!

NOSSA CULTURA EM MARTELO AGALOPADO


Partilho a primeira estrofe em martelo agalopado (saiba mais sobre esse estilo aqui) de um dos folhetos que compõem o material por mim produzido para trabalhar poesia e cordel com os meninos de Araquém e região:

Aos que negam o valor da nossa terra
Dou recado seguro e assino embaixo
Que se enganam ao fazerem esculacho
Esquecendo a cultura que se encerra
Neste chão estendido em pé de serra
De caboclo e mulher trabalhadora
Que com fé e insistência lutadora
Todo dia se acordam bem cedinho
E inda vão com alegria ao forrozinho
Quando a noite se achega encantadora.

terça-feira, 22 de abril de 2014

POEMA SEM TÍTULO

Regurgitei um poema
noite passada
estava inclinada
a letra traçada
e manchada
De sangue e lágrimas
a tosse brava
desbaratada
caiu no papel
Minhas últimas energias
ali findadas
retratadas
maltrapilhas
Adjetivei tudo que pude
e depois calei
como morto
e desiludido
derrotado
sucumbido
E rimei o último verso
sem saber porquê.

domingo, 20 de abril de 2014

"?"

Estre as aspas, tão tuas
coube-me inserir uma interrogação:
mas por que teu sintático coração
aquebrantou-se sozinho outra noite?
por que sozinho o cortaste de faca?
por que sozinho o remendaste com cuspe?
por que, ora, porque...!?
se te pergunto, e me encho de pontos
costurando sei lá o que
com a agulha da tua mordida
que dói na ferida sempre!
por que, ora, porque...!?

seria meu poema uma auto-acusação?

ENIGMA PALAVREADO

Escrevendo na pele (recortada),
cujo sangue se extingue (renascido):
do instante lançado (ora perdido)
pela mão do espaço (encantada),
pelo sopro do tempo (amarrada),
na palavra me envolvo (desatino!)
e me perco no livro (libertino)
dos mais dias das horas e de tudo...
e se faço cantar, eu fico mudo...
e se faço calar, jogo meu tino.

segunda-feira, 14 de abril de 2014

HAICAIS / DESEJO

i.
Dissipai, ó treva
O desejo inconformado
Do fruto de Eva!

ii.
Encubra-me, mar
Corroa-me, maresia
Quero ser-te par.

iii.
Partiu-se o peito
Por uma paixão sedenta
Acalanto ao leito.

iv.
O que já foi, fim
O que não é, nunca mais
Estará por mim.

v.
Você, o que olha?
Ainda não caíram os frutos
Vá lá e colha!

vi.
Não-assim, sim-não
Paradoxo e sem-sentido
Minha condição.

sábado, 12 de abril de 2014

sexta-feira, 21 de março de 2014

DESPOJADO

Uma peça, magistral e improvisada,
Da qual cresce o roto enredo desta vida:
De autores de existência carcomida,
De atores que se lançam à alvorada.

Uma peça, breve peça, que me vem
De um além que desconheço e procuro
E descubro, estupefato, no escuro,
Que, por certo, desvendá-la, não convém.

Mas por que esta minha intuição?
Se a vida por si só é uma questão
De que fujo, quando penso procurar.

Mas de que tanto me vale a espera?
Se o tempo que se passa não tolera
Aprender sem ter de que se despojar.

terça-feira, 18 de março de 2014

NAVEGO-ME

O corpo em que habito sente fome.
As partes que me formam se acomodam
Nos gozos de outrora - que me podam
As forças e asperezas do ser-home.

Lágrimas que jorram sem-um-rumo;
Os partos não ocorrem sem a dor.
Se nasço e se morro, perco o prumo;
Sou o desequilíbrio e o torpor.

Mas, morte-minha, mestra, carinhosa
Acalante-me e embale na frieza,
No eu-frio, que renego, a torpeza.

Sou a carne, sou a casa e sou mais,
Se perco ou se saio, tanto faz:
Navego-me somente em verso e glosa.

sábado, 15 de março de 2014

DE PASSAGEM

Passaremos, que bom! Passaremos
E nas idas que nos reencontremos
Passaremos, enfim! Passaremos
Chorarei, chorará, choraremos
Sorrirei, sorrirá, sorriremos
Findarei, fim-dará, findaremos
E por nada do que nós fizemos
E por tudo o que nós tememos
Por algo que sempre esquecemos
Passaremos, que bom! Passaremos!

DESPIDO

Dote_mote, forte_morte
Corte_gemo, agarro_sai
Gente_preso, grito_ai
Passo_fico, finda_cai
Calo_corro, espio_volto
vou-me, venho e revolvo
sou revolver de um só tiro
se erro, azar
melhor eu miro
se me retiro
a presa cai
e se, acaso
eu me despir
ou me despido
todo verso se refaz.

quinta-feira, 13 de março de 2014

TÃO-SOMENTE

Tão-somente, ó irmão, tão de repente,
Veio a nova das mais inesperadas.
Trouxe junto emoções exasperadas.
Insuflou e fez subir o sangue quente.

Tão-somente, é o que digo por agora,
Neste ensejo, nesta fala, neste verso.
Falo pouco, pois me nego, sou transverso
Numa dúvida que muito me apavora.

Justamente não sei bem o que lhe quero:
Se lhe peço, se insisto, se espero.
É o desespero por não ter aonde ir.

Se lhe cobro um minuto de atenção,
Se lhe falo, se lhe choro, de antemão,
Só buscando a desculpa pra seguir.

quarta-feira, 12 de março de 2014

VOZES ALHEIAS

De quando em quando, há apartação
Do que se diz para o que se quer;
Saem palavras sem laço qualquer;
Foge o sinal que faz a ligação.

Joga-se letras que soam estranhas,
Como se nunca as tivesse pensado;
E doem fundo, ao ser renegado
Este restolho das próprias entranhas.

Eu os sou mesmo: estes falatórios!
Por mais que negue e que deles fuja,
Nem que em mim haja inquisitórios

Renegadores da verdade suja.
No paradoxo, no rosto avesso,
Faço-me homem desde meu começo.

domingo, 9 de março de 2014

MOÇA, MINHA

Moça, minha
Moça, terna
sussurre-me
um punhado
de doçura
Moça, amante
Moça, pura
mova-me deste lugar
leve-me para o longe
fantasio te beijar
Moça
Ouça
o que tenho
não se escreve
não se cabe
só se sofre
só se sopre
a liberdade
de te amar
Eu pedinte
de joelhos
só te peço
sou-te imerso
sou-te verso
versejo-te
e só.

LIQUIDAÇÃO

PROMOÇÃO
vende-se a liberdade
o sintoma mais estranho
PREÇO
que as entranhas
estrangulem-se
indecisas de porvir
GARANTIA
a única que dispomos
é o fim.

quinta-feira, 6 de março de 2014

VIDAS SECAS

O filho o pai o irmão
O discurso de consolação
O chão rachado
Homem calado
Faz oração
Choraminga no terreiro
A menina em berreiro
De fome
De medo
Vê a carniça da rês
Pútrida
Anunciação
Da miséria
Da pequenez
Mas se há de resistir.

domingo, 2 de março de 2014

LA NUEVA BUENA

Viene la unión
En la nueva noche
Para cantar
El cielo y el mar
La fe en la gente
Y la coraje
Y la voluntad
De bailar
Las manos juntas
Siempre en la rueda
Nuestra oración
Es lo puro amor
Libre
Revolucionario
Que nos desata
Del torpor.

ASSOCIAÇÃO LIVRE

I.
Primeiro me ocorreu
Entre névoas
Entretanto
Que aquelas lembranças
Encobertas
Revelavam
O que não quis
De mim
E pensei daquilo ser
Do demônio
E o demônio
Já não mais tão vermelho
Mostrou-nos somente
Uma caricatura
De uma das tão distintas
E encravadas
Facetas da gente.

II.
E os demônios
Sem asas
Senão desejos
Viraram-se em anjos
Nesta teogonia
Em que os deuses-homens
Gozavam da morte
Na brancura de falta de sentido
No ofuscar dos sonhos ideários
E nas preces mais desorientadas
E de línguas tão desconhecidas
Tudo se misturava
E ao mesmo tempo se revelava
Em harmonia
Tudo se esbanjava de risos
Perante nossa ignorância.

III.
E no terceiro ato
O derradeiro
O desespero
Despido das mágoas
Vestido de choro inteiro
Sem mais tanta força para resistir
O pobre homem
Revelado ao não-saber
Entregou-se ao vácuo
E abandonou-se no vento
De uma constante e renascida vida
Entre-morte e entre-vidas.

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

LIVRO-NÓS

Se cada morto fosse um poema
e cada livro um pequeno céu
se cada frase fosse um suspiro
e cada pausa um fino véu
que desvelasse a via tênue
que nos separa do já-não-ser
aí eu seria o silêncio
e minha esperança a rima
e a melodia só teria sentido
na decifração de alguns loucos.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

PALMATÓRIA DA REALIDADE

abra alas
abra asas
para o vento
que
abrasa a dor
do abrasador
desejo de dar
um fim
desdenhoso
à brasa
do amor
que me negaste -
vida
de fantasias
delírios
ilusões
e afins
-
palmatória
da realidade.

terça-feira, 11 de fevereiro de 2014

VENTO (II)

vento de guarda-chuvas
de folhas secas
de sussurros
confessor
cura a dor
da mágoa minha
dá-me rumo
dá-me força
dá-me ser
o mais-de-mim
dá-me ser
o que sonhei melhor
e o que arquitei
de mais bonito
tu que não vejo
mas que desejo
sempre comigo
vento quente
da coragem
e do sonhar.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

GRATIDÃO PELOS AMIGOS

Não estamos sós
definitivamente
quando nos dias
se nos apresentam
tais espíritos livres
como um amigo
que um fortuito
Desencontro
me legou.

Ah, Desencontro e Acaso
quanto tens jogado
a nós de aprendizado
e a fiel desventura de viver
se torna mais afável
menos embrutecida
mais esperançosa
mais ávida por ser vivida
com a ternura
das amizades
das companhias
que nos trazes.

Desencontro
já descobri
tuas entrelinhas
a tua forma de conduzir
sutilmente
nossa lida no livro
que se nos mostra
em cada página
amassada pelo vento
do tempo destemido
cuja interpretação
se dá nos gestos
mais simplórios
de afeição.

Não sei fazer coisas
elogiosas
só posso ser sincero
dizendo de minha gratidão
ó vida
por me ter legado
tão boas companhias!
E por nos ter legado
lutas nossas
e esperanças comuns!

Adiante!

AS ERVAS DANINHAS DAS FALHAS NÃO NOS PODEM IMPEDIR DE PLANTAR

No dia
em que a mudança
sonhada
falhar
que aperfeiçoemo-la!
ao contrário
do conselho
dos pessimistas
que bradarão por
desistência!
aqueles que desistiram
antes de tentar
os castradores de si mesmos
os homens dominados
pela própria indolência
e pela complacência
com os erros
os que se confundem
pensando ser a vida dada
- coitados! -
A vida é conquistada
e as ervas daninhas
das falhas
não nos podem impedir
de plantar!

sábado, 8 de fevereiro de 2014

CONTANDO ÀS ESTRELAS

Conto
às estrelas
as falácias
que fiz verdades
as juras
que comprei por tolas
as esperanças
que joguei ao léu
Conto
às estrelas
à lua
às galáxias
a minha resignação
por ser pequeno
passageiro
numa condução
que não sei
para onde leva.

quarta-feira, 5 de fevereiro de 2014

MAIS QUE PALAVRAS DE AMOR



Tanto-enquanto
as mãos se unirem
exprimirem união
no-contanto
de contatos
entre irmãos
neste intermeio
em que o freio
egóico não age
cri que criei
minha mais
feliz certeza
a de que
o abraço
cria
conflita
e renova
mais que
palavras de amor.