segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

SE TE QUERES MATAR - FERNANDO PESSOA

A poesia, em tom de prosa, que aflige almas de mortais como todos nós.

PRECE CRIANÇA

A criança que, ajoelhada,
Faz sua prece ao Céu-Derradeiro,
Mesmo estando sobre o chão prostrada,
Cresce à altura do sol de janeiro.

SONETO DE ATORDOAMENTO


Caiam, estrelas, sobre minha rede
Na noite calma que me atordoa!
Consuma a casa, fira-me e doa
A pele, a carne. Mate-me a sede
De guerra e grito, e de que a parede
Leve com a queda a paz que não mais soa 
Nas telhas minhas; que o vento moa
Temores tantos, que te peço: - Crede!

São bem maiores do que aparentam
Ao externo observador.
Não sou bom moço, eis um sofredor

Destes comuns que aí se aguentam:
Engolem choro e sublimam dor;
Com risos falsos engatam o furor.

domingo, 29 de dezembro de 2013

3º SONETO À MINHA SENHORA


Que eu te quero - bem-te-quero sei;
Ao lado meu - aconchego e abrigo.
Somente a nós - eu, você - contigo,
O amor terreno que aqui procurei.

Faço-te versos, com os quais já sonhei;
Se os escrevo é por lhes ser amigo,
Jamais um dono, porque não consigo
Cantar do peito a flor que plantei.

E o romantismo que n’ora me enlaço
Clama por ti e se esbalda no traço
Que escorre ao rio deste meu papel.

Em cor blasfema, a paixão que faço,
Esquenta o frio, do inverno renasço.
Quero-te amante e eu seu menestrel!

sábado, 28 de dezembro de 2013

O ACHADO DO MÊS

O achado do mês
foi um resto de sorriso
no fundo do pote -
o mais doce e concentrado
e um tanto amargo
que provei.
Raspei-o todo
e comi
e vomitei depois...

SE POR ORA JÁ PASSOU

Não adianta
a fuga tanta
do dia enfim
em que dois
de nós a sós
fizeram mais
do que hoje,
e se amaram
como que se
nada daqui
pesasse;
foi-se além,
e não importa
se por ora
já passou.
Vivi.

A CAIXA PRETA CELESTE

A caixa preta celeste
Abre-se no arco-íris
E revela
Quiçá
A aura tênue
De colorir
E de minguar
Que corta a vida
Em pedaços miúdos
E rega com choro
A semente
De um amanhã
Colcha de retalhos.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

INDECISÃO

Carrego
Um teimoso luto
Do que não perdi
Ainda

Que se aprofunda
Na ocasião
De escolher

É a parte amarga
Do doce extremo
Da liberdade

Nem sempre soube
O que minha vontade
Iria querer

Mas segui...

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

ESTRANHA EXCENTRICIDADE

Estranha excentricidade
A do que sonha acordado
Vê no real o possível
Em sabê-lo inacabado
Não se limita ao agora
Nem à dor que o apavora
Nem ao medo de errar
O excêntrico desvairado
Este que se põe a andar
No trilhar de seu amor
Pelo que quer vir-fazer
É um poeta de si mesmo
Que se põe em seu querer
A lutar...

ONDE ESTÁ O MENINO JESUS?

Neste Natal,
o menino Jesus
cheira cola na rua!
Sim!
Ele está todo sujo e maltrapilho.
Os transeuntes o olham,
cospem nele,
ou simplesmente ignoram -
isto nos poucos nos quais falta coragem para cuspir.

Neste Natal,
o menino Jesus,
aquele que nasceu numa manjedoura,
nasceu de novo na rua,
no submundo mais pútrido,
onde se desumaniza os filhos da Criação,
veio em meio às injustiças...
E viu nelas o seu lugar de estar-e-agir.

E o menino Jesus chora,
agora mais do que nunca,
chora pela mãe que apanha do pai,
pelo irmão que perdeu para o tráfico,
chora pelo primo aprisionado,
chora pelo lago que mataram com o esgoto,
e pelo pássaro engaiolado.
Chora, o menino Jesus, pelas injustiças,
chora pelo que fizeram
sem saber que era ele
O Filho de Deus que ali estava...
e agora, no Natal,
pensam, coitados,
que ele está na mesa farta de ambição,
mas não...
Não é lá que ele está,
Cristo fez opção pelos rejeitados.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O VÁCUO

Nada mais incompreensível
Que o vácuo
E sua inexistência
Em cujo vórtice
O sentido se extermina
E a dor nos estraçalha
O ar escapa

O vácuo
O silêncio mais perfeito
Muito mais que rarefeito
É a sublime criação
Que destrói
E junta os pedaços
Para renovar

Pena que nos apeguemos
À passageira matéria
E prendamos nossos pés ao chão

Pena que o silêncio seja renegado
Mas invada quando surge a solidão

O desespero é a tônica indigesta
De um homem que quer se entender
Mas no final de tudo
O começo do avesso
O mundo diz: te ofereço,
Viva a tua condição!
...de finitude, pobreza e mortalidade.

Aí depois
Depois do vácuo
Depois do fechar das vistas
Não-sei.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

SIGNIFICAR

Significar -
Puro ato humano
Que se dá nas coisas,
Que se dá no plano
De nós mesmos
Com nosso corpo
E além dele.

O que seria dum sorriso
Não fosse o significado?
Um mero mostrar de dentes...

O que seria dum coração?
Tão somente carne...

O que seria das lágrimas?
Pobres água e sal derramados...

E assim se ia.

Não fosse o significado,
Nada no mundo
Teria sentido por si,
Nem nossa própria vida,
Que é feita de projeções,
Ilusões e sonhos.

Sem eles, estamos mortos.

Há tantos mortos por aí.

Por bem que significamos!
E nos imprimimos no mundo
A nosso bel-prazer.
E somos o sonho que temos!

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

TAL À CRIANÇA

Queria eu inocente
tal à criança:
em seu sorriso,
em sua plena condição
de incompletude
por estar-no-mundo.

Queria eu sincero
tal à criança:
no olhar poético 
por sobre as coisas
e irmão 
por sobre os homens.

Queria,
tanto queria,
que, por fim,
atrevi-me a tentar
ver um relâmpago 
como um grito,
a chuva como um choro,
o vento como um assobio,
a lua como uma irmã,
o rio como um espírito,
a morte como um caminho
e a vida como um sopro,
um sopro quente e ávido
por mudança.

CRONOS E A BOCARRA

Cronos, de Goya.
O sino toca à igreja.
O coração se debate.
Remói-se em digestão
o que se ama,
e morde-se 
à exaustação
a porcelana 
da pele jovial
de Ana Josefa –
a menina que se julgou santa.

E o tempo
corrói e quebra
com um abraço
e um beijo frio,
ácido,
os dentes do sorriso
franco e meigo
da beleza pura
da caveira.

ABRAÇO DE DESPEDIDA


Foi bom tê-lo conosco
Por estas noites
Em que nos encontramos
E conversamos
E aprendemos
E (por que não dizer?)
Amamos
Sem saber
Que amamos
Somente pelo fato 
De nos ter aguentado
De rirmos uns dos outros
E ter nos permitido aqui estar.

Por que não dizer que amamos
Enquanto aqui estivemos?

Se não tivéssemos nos amado
Nada disso significaria 
A amizade que nasceu.

Prefiro pensar que amamos
E guardar no âmago de minhas lembranças
Que aqui estive
E que estar aqui
E partir
Foi bom.

domingo, 15 de dezembro de 2013

ORAÇÃO NA RUA

Nasce sol
e traz a paz,
que quero atrás
de ti correr.
Morre medo,
corre já!
Daqui pra lá,
de onde não sei.

Frases soltas
de oração,
silenciosa,
lamentosa,
que temi
proferir
na cama -
onde se ama
muito mais
que aqui,
na rua
e no ocaso
de olhares
neutros.

sábado, 14 de dezembro de 2013

MEIO SONETO DE ANGÚSTIA

Fitei os meus pés e nada vi
Que não o negror da fria bonança
Dos pesadelos de frágil criança,
Que tanto tentei e não esqueci.

As pernas tremeram; a fala fugiu.
Nem sei sequer como o descrevo:
Silêncio faminto e o seu relevo,
Que fere a alma como um fuzil.

CONTRA-MIM

Arredonda o verbo que proferiu
No início calmo de teus amores
Corta os espinhos que são das flores
A faca fina de um medo febril.

Nada, rasteja no musgo tão fresco
Do bosque escuro da meia maldade
Do esquecer-se da tua verdade
Viver sem rumo um canto burlesco.

E o novo começo que sai do discurso
Faz-se a via, dobra em contramão
Gira em torno de um redemoinho.

E tonto peleja na forma em curso
Por entender o que faz coração
E aprisiona-se em seu próprio ninho.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Vi(r)Vemos?

Há dias que a gente senta e conversa
E em roda repensa o que a vida tem
O que traz de novo neste vaivém
Que com risos conta, escreve e versa.

E dos instantes que cá dividimos
Resta a pergunta: o que vai ficar?
Se algo há que dure neste caminhar
O que me importa é saber que rimos.

E o tempo e o vento não podem soprar
Para tão longe que não o alcancemos
O amor fraterno que juntos vivemos.

Pois este mesmo vive em seu lugar
O peito, a fala e o que esquecemos
E a saudade do que ora não temos.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

HEROÍSMO E COVARDIA

por que o aplaudiram em sua cruz?
por que anseiam por heróis que se matam?
enquanto observam
e se admiram de sua coragem

a covardia povoa tantos corações
e se espalha feito verme
disfarçada

a covardia semeia tantas omissões
à espera de um herói
e à espreita do que sabe não vir
senão com sua ação

a covardia é torcedora
sabe ela bem o que lhe impede
e pede às ilusões por mártires
que lhe livrem da responsabilidade

aplaudem
rezam
torcem
quedam-se em seus receios
e se esquecem de ser humanos.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

ENQUANTO PUDER FALAR QUE TE AMO

rogo aos dias
e agonias que tenho
longe de ti
que não me afastem mais

rogo ao nada
que em mim se entranha
ante a distância
que diga adeus
ao tê-la visto

rogo a mim
nas tristezas cotidianas
que pensar em ti apague
uma tantinho qualquer
de minha pequenez

rogo
profunda e insistentemente
num clamor tão mais clemente
ao tempo e seu passar
que a tenha comigo
enquanto aqui estiver
enquanto aqui passear
enquanto puder falar que te amo.