domingo, 17 de novembro de 2013

A MORTE DO POETA

Morre o poeta na cama tranquilo,
Com o livro ao colo e a vela ao lado.
O papel escrito e inacabado...
Viram a morte e não leram aquilo.

Sumiu-se ali o derradeiro verso
Que escrevera em sua solidão.
A vida finda, marca a alusão
Ao home em nada totalmente imerso.

O que ficara no papel marcado
Foi-se, com tinta e suor escrito:
O esforço mister de traçar bendito.

E o poeta, do tempo enfadado,
Declarou-se assim em uma das linhas:
- Esta é só uma das agruras minhas!

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O COLORIDO DA ROUPA DE AGORA


Joguei aos baldes tinta colorida
No preto e branco que me encobria
Um novo homem se assim fazia
Do chão de cinzas que surgiu a vida.

Larguei a velha roupa carcomida
Que sujeitava toda a alegria
Desesperança que me consumia
E enfim agora se deu por vencida.

Que partas sem deixar saudade
Leves, ó cinza de mediocridade
O infértil solo que contaminou.

O escuro foge ao ver a claridade
O bom se impõe sobre a maldade
E o tempo ainda não me apagou.

SONETO DO AMANHÃ

Cantes agora o que amanhã virá
O fogo forte que o futuro enseja
E lutes firme pelo que deseja
Mais vale a face do que inda será.

Ante a aurora que está por raiar
O novo grita por sua peleja
Abra teus olhos e acorde e veja
Que nada muda se o sonho acabar.

E soltes toda a tua energia
Contra a corrente da vil tirania
Que cala a vida e te faz parar.

E saibas tu do maior inimigo
É o pobre medo que anda contigo
Ele é o primeiro que vais enfrentar.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

AFIRMA-TE, NEGAÇÃO

a terra que me recobriu à noite,
eu já a sou desde o amanhecer.
o trecho já vencido faz doer.
a tua história é teu pior açoite.

e nada que mostres te conta mais
que as cicatrizes que ora carrega.
teu externar sorriso não te nega
o que não te permanece atrás.

nega o que tu foste? tu o serás!
nega o que tu queres? vais querer!
e quanto mais negares mais vais ter.

afirma-te e tenhas qualquer paz!
afirma-te, ó vã contradição!
afirma-te constante sim e não!

Sobral, 12.11.13

UM QUALQUER

José, um tipo qualquer
Dos que estão por aí
Em esquinas e bares
Morreu noite dessas

Morreu José, morreu
Morreu José, já foi
Morreu José, faria falta
Não fosse um mero
Um simples e qualquer

Nem disse adeus
Nem ninguém sabe
Se mesmo morreu

A quem interessa?
Nem mais a José.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

SONETO DOS CÉUS (E) DE TUA BOCA

tocarei em ti em meus poemas
e estarás no sonho mais feliz
o tracejar disforme que prediz
dor, distância, amor, dilemas.

e tocarei, enfim, além, a pele
e de nós, o suor escorrerá
com teu gosto, o rosto sorrirá
nosso amor à dor repele.

poemas que vêm dos céus de Lá
amares, há mares a velejar
venha-me, ó inspiração pungente!

poemas dos céus de tua boca
de velejar à vontade rouca
nas ondas de um mar tão quente.

08.11.13

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

N'ARTE

versos perdidos
falsos pedidos
que fiz
em palavras
que joguei
como poeira
aos céus

blasfêmia n’arte

À SOMBRA DA MANGUEIRA

Sentei-me à sombra da mangueira
Lá podia a vida inteira
Ver passar por minha frente
O rumor vindo do vento
Soando entre as folhagens
Miragens de um tempo ido
O frescor que me encobria
Fazia-me esquecer
A dor que por tanto doer
Fez sumir em quem doía
O marejar de meus olhares
O sobraçar de minh’aura
Era eu, o vento, as folhas
O cheiro, o claro, ninguém.

07.11.13

terça-feira, 5 de novembro de 2013

SOU A POESIA NÃO ESCRITA

Sou a poesia que escrevo
E dedico à morte
Com a sorte
De um que, decerto
Não sabe a palavra que é.

Sou a mentira contada poesia
Os cantares de ufania
De alguém, qualquer
Um ninguém
Cantando o que não é.

Sou o verso de minhas notas
Faço-me ponto e linha
Conto causos e anedotas
Rio, choro e me debruço
Sobre meu desejo de ser.

Sou a voz que clama
O espelho na lama
O sopro na chama
O grito na cama
Sou o que ama
Mais do que diz
Mais do que quer.

Sou poesia não escrita
E o que já (d)escrevi
Desconstruo.

Sobral, 05.11.13

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

ROUXINOL


rouxinol
banhado de orvalho
chama à varanda
a brisa fria
que virá
pula, o rouxinol
de galho em galho
canta e se arrepia
espoja-se
é alegria
é ternura
é candura

sou rouxinol com ele
na maestria
de um dia simples
de uma morte tênue.

HORA ERRADA

A flor que murchou
A folha caiu
A água ondulou
O dia saiu
A vista mudou
O homem não viu
Que o dia se foi
Não deu, já partiu
E o tempo
Nem disse:
Adeus!
Nem se despediu
E foi sem deixar
Pra trás
Sinal qualquer
Que queira saber
O que o homem quer
Com tanto correr

Foi-se o tempo
Do dia que não nasceu
Foi-se o tempo
Do que já perdeu
O que virá
Não diz mais nada
Porque a hora errada
Passou por ti.

SEGUNDO SUSSURRO DESCOMPROMISSADO

Sussurrou Aurora no meu triste ouvido
Que a paz se nutre como na canção
Que a paz é plena se no coração
A esperança firma seu tinido.

Aurora, que dançou e foi-se ao vento
Aurora, que guia o meu caminhar
Rompe as entranhas desse sofrimento
Faz nova a roupa com o seu fiar.

De dia fresco que enfim se achega
Que espanta a vã, vil e pelega
Covardia de se aventurar.

Ao dia a noite vem e o completa
E minha alegria, a predileta
É sonhar, sonhar, sonhar.

domingo, 3 de novembro de 2013

CHOVE O SERTÃO...

a chuva que caiu lá fora
lavou-me por dentro
despiu-me do receio
de outrora
quando salpicava no telhado
e ao fazer subir seu aroma
no terreiro
eu, por inteiro
suspirei
despedi-me
ao horizonte acinzentado
ante carnaubais
que me levassem pra longe
estando aqui.

AMARRE-ME À CANÇÃO

faz canção pra mim
e me encanta
nos dedilhares
e nas palavras
nos agudos
e nos graves
e em cada pausa
e em cada nota

faz canção pra mim
canta pra mim o que tu sentes
sem medir
sem limitar
sem correr
sem parar
só cantes
envolva-me
com tua alma

faz canção pra mim
ó vida compositora!
faz canção pra mim
e me amarre com as cordas
de teu violão.

03.11.13

POESIA DE INTIMIDADE

Tão divino foi te ver por perto
Que as rolinhas que cantavam ao fundo
Pareciam bem mais vivas... e girava o mundo
Como que se agora eu o tivesse descoberto.

Tão divino foi o instante em que estivemos
Presos um ao outro, e um ao outro completos
Sendo o calor que nos unia, em instantes prediletos
Uma chama que se consumia sem contudo se acabar.

03.11.13

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

AMOR ETÉREO

em que me seja a medida do amor
em tal grau sincera
em tantos momentos repentina
em tal intento severa
que me devore a mim mesmo
mastigando as entranhas de cada sentir

à busca do que nos une
mais que a pele

em que me seja a medida do amor
que contigo partilho
que, contigo, inteiro
um simples parafrasear
do ritmo de todas as coisas
e da harmonia que não vejo
mas há

e que nos consuma
num amor etéreo
para o qual medida
não pode bastar

01.11.13