sábado, 31 de agosto de 2013

2º SONETO À MINHA SENHORA

Por nada que me digas deterei
O amor que por ti tanto cultivo;
Estando em seu ensejo já cativo,
Em tua doce boca me alumbrei.

E na distância que construo, sei,
É tua lembrança que me mantém vivo;
Os traços de um sentir altivo
Que, em tantos tempos, precisei.

Mas ouça, cá, o que lhe mando
Através deste tão vão poema:
Serás sempre, tu, meu maior tema.

E mesmo na distância construída,
Nas brigas infantis de nossa vida,
Seguirei além dos versos te amando.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

QUESTIONAMENTOS SOBRE OS RUMOS DA EDUCAÇÃO DE COREAÚ

Os números devem servir às nossas práticas pedagógicas ou nossas práticas pedagógicas devem ser escravas dos números? Eis uma questão fundamental nesse momento que Coreaú vive, de mudança no modelo gerencial. 

Procuro o lugar aonde se encontra a magia da educação na frieza e inércia dos gráficos, em ações policialescas de fiscalização das escolas, em ver gestores e educadores lotados no trabalho com papéis com “x” marcados e não com o olho no olho dos alunos e professores, não por quererem, evidentemente, mas por ser essa a demanda, a ordem, por resultado a qualquer custo; não vejo a magia aí. Escravizados pelos números, vive-se em função deles, a coisa mais temida por uma escola são eles, e o foco de todas as ações é a consecução da expectativa acerca deles. Onde está a atitude reflexiva no meio de toda essa torrente?

Não quero ser leviano na crítica, se é que isso é realmente uma crítica, mas me preocupo, seriamente. Conseguiremos realmente fazer da educação algo libertador em nossa região, reduzindo-nos a práticas de visão estreita? Nossos professores se sentirão motivados a dar o melhor de si através da punição e rigidez ou através do verdadeiro incentivo e suporte? Onde estará o meio termo? Viveremos em função de gabaritos? O seguimento irrestrito a um modelo massificador e capitalista de educação comporta mudança? Que mudança? Alguns questionamentos, humildes, de alguém que passou a vida estudantil toda na escola pública, e que quer bem mais para ela. Faço das perguntas sugestões, com todo respeito.

QUANDO O TEMPO FOR INSIGNIFICANTE

Mais adiante haverá uma porta
Rumo a qual tu deverás seguir
Tateia à luz que inebria o sentir
Daquelas da manhã que reconforta.

Absorto involto absolutamente
Farás por fim mais uma caminhada
Alma pobre e por fim já acabada
Sem o invólucro deprimente.

Haverá nesse dia profundo calar
Haverá nesse dia o que não houve
Haverá nesse dia o choro mais solto.

Tal alma ali soubera o que lhe aprouve
Livre ao abraçar o ar mais revolto
Sem que as palavras vissem a bastar.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

TERRA DAS POESIAS PERDIDAS

Há um lugar secreto,
Recôndito e indiscriminado,
Para onde vão todas as poesias
Feitas e perdidas.

Lá estão misturadas,
Dispostas ao longo de suas grandes colinas
As poesias melosas repletas de rimas com “ão”
Paixão, coração, e tantas outras.

Dispostas ao redor do seu firmamento,
As poesias de sonho e de lamento,
Repletas do pessimismo humano,
Mas também aquelas que extrapolam,
E como extrapolam!
A imaginação para inventar loucuras
De mundos possíveis em razão
E de mundos possíveis em ação!

Também nesse mundo, há poesias infantis
Os tracejados tremidos dos primeiros poetas
Ou dos poetas principiantes,
Quando inda afinavam as pontas dos lápis,
Há as poesias cheias de métrica e de zelo,
Há as poesias desleixadas, feitas de qualquer jeito
E sem qualquer perícia,
Há as poesias nobres,
Há vidas em poesias,
Há pessoas naquelas letras
E pessoas naquela terra em suas poesias.

Essa terra perdida que não existe para além desse poema
É uma terra de saudosos,
De saudade e de perda,
Quantos poemas não vimos?
Que, embora existindo, não estão nessa terra?
Quantos poetas não conhecemos?
Quantos gênios estão por detrás de suas colinas?
Quantos perderam a poesia por julgá-la loucura ou coisa banal?
Não sei, só nesse poema.
Um poema que fala de uma terra que não existe,
Mas que bem poderia existir para guardar tantas gentes,
Em tantos poemas
E tantos sentimentos,
Em tantas letras
E tanto momentos,
Em vão.

CONTANDO

A canção passada
Cantava causos
Que esqueci.

A canção da estrada
Calcava histórias
Que cometi.

A perdida vida
De um andante
Sem destino.

A mordida vida
De um amante
Em desatino.

Cantei
Cansei
Contei
Andei
Vivi!

domingo, 25 de agosto de 2013

LIVRE COMO UM ABRAÇO AO AR

Livre como um abraço ao ar
Quero me sentir assim
Uma vez mais
Teimar.

Arbitrário como uma comparação
Serei meu verso
Serei grito
Canção.

Tudo num só nó
Que se entrança em palavras
Serei aquilo que escrevo
Serei aquilo que temo
E aquilo, claro, que me esqueci.

Tudo num só nó
Serei o que pedistes que fosse
E nem serei tanto o que quis
Mas serei, serei algo
Mesmo quando nada me consumi.

Serei mais que meu medo do nada.
Ao menos espero...

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

E AÍ, MIGUEL?

E aí, Miguel?
Não foi tu o menestrel
Que pensei ser
Não me guiastes
Não te vi
Tu não estiveste além
Do que não esperei
Tu não foste mais
Que um sonho
Numa noite de medo
Quando me escondi
Debaixo dos lençóis
Julgando fugir do mundo
Tu não foste Miguel
Definitivamente
Será mesmo que tu existes?
Ou deixas de existir quando preciso?
Onde estão os anjos
Que cantei em orações com minha mãe?
Tamanha assim é sua invisibilidade?
Ou tamanha assim é minha ignorância?
Por que a imaginação teima em querer-te?
Pouco sei
Mas continuo a recorrer a ti
Mais que ao lençol
Mais que ao choro
Mais que ao terror de ficar só
Se tu não existires, Miguel?
E aí, Miguel?
O que será de mim?

domingo, 18 de agosto de 2013

FALANDO DO QUE GOSTO

Não sei tocar acordes
Nem sei muito cantar
Sou um tanto desafinado
Mas ouso aqui versejar
E nos versos eu me mostro
Como nunca me mostrei
Retratando a nossa sina
Que em tal me atirei
Nesses versos
Que lhe digo
São singelos
Lhe expresso tudo o que
Quis lhe contar
Nesses versos
Mal traçados
Sem ter tanta coesão
Extravaso
Toda tanta emoção
Sincera
O que em gritos
Faltou-me a garganta
Adianta inda tentar
Expor cá nessas linhas
O que vida
Dom de quem vive
Sofrer de quem não quer
Medo de quem não percebe
Ilusão de quem ama
Desgosto de quem odeia
Minha sina
É viver e querer viver mais
Sempre do que a vida dá.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

IRRISÓRIO

O riso mais falso que já vi...
Não me contive e dele ri.
Ri de sua asneira e mísera arrogância.
Ri de vê-lo pensar-se como significante.
Ri de mim mesmo espelhado em seus olhos.
Ri disfarçando o chorar, porque não percebo:
A diferença entre comédia e drama.
Às vezes, nada é muito diferente.
Às vezes rio, e ignoro o alheio riso.
Mas ambos somos ridículos.
Fingindo.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

SIMPLESMENTE POESIA

Poesia é brincar com palavras
Por que não?
A maior poesia
É a história
Riscada no chão
E pegada do menino
Descalço e desnudo
De ambição
E pudor de ser gente!
Sabe aquelas poesias de banho de chuva?

CARNAUBAIS


Solto nos carnaubais
Fui sabiá
E também moleque
Feito índio
Corri
Estrepei-me
Sorri
Vivi com a alegria
Dos galos de campina
E soube do passar do tempo
Como a poeira que esconde
As carnaúbas
E mantém
Silenciosa
Aquele zoar saudoso
De palhas entre palhas
Frescor entre a sequidão
E a paz do sertanejo
Que tem na natureza
Seu abrigo
E nas carnaúbas
Irmãs.

Serei
Então morto
Um dia
Uma carnaúba anciã
Estalando por sobre o sol
Vermelho
Nas tardes do tempo que não virá.

domingo, 4 de agosto de 2013

SONETO DA BLASFEMA POESIA

Burburinha às noites n’ouvido o vento,
O me que as canções já predispuseram:
Ora, os teares d’inspiração zeram.
Ao que insisto posto a cantar, tento!

Jazendo a fonte, não há-la mais, invento.
É que a mordaça e que o “não!” laceram.
Vou com a língua, como brincar; disseram:
Que não te cales, que vai e tentes: tento!

De tal forma, ileso, venho aos poemas.
Busco num louco por correspondência.
E nego a essa vã vidinha muda.

Largo aos padres a minha decência.
E abarco a letra, que treme sisuda.
E sei que posso mais no papel: blasfemas!

PRIMEIRO SONETO À MINHA SENHORA

Quantas manhãs, ó senhora, terei
Para entregar-me, apascentado, a ti?
Outrora, na distância me abati.
Sem a tua formosura, chorei.

Eis que, hoje, tu estás ao meu lado,
Nova vida – vida juntos, nascente;
Tenho-te como do Acaso um presente,
E beijar-te me faz entusiasmado.

Inda que os dias nos venham a pesar,
Saiba que não será a pobre rotina
Que barrará ao sincero sentimento.

Lembres sempre, ó minha menina
Não te entregues, peço-te, ao lamento,
Curta comigo as dobras desse andar.

PATATIVA DO ASSARÉ

















O grande Patativa
Da poesia popular
Ao leitor qualquer cativa
Falando de seu lugar
Devo a ele o respeito
Bate vivo cá no peito
O sangue de um sertanejo
Que chega se emociona
Quando chega verso à tona
Desse mestre, um lampejo.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

PANDORA

São tantos outros
Dentro de mim
E tantos outros
No meio de fora
Muito embora
Tema-me mais
Que qualquer outro
Que me arvora
Na intimidade
Na verdade sei
É mais do outro
Do que pensei
E dou no outro
A dor que amei
Pandora.

ÀS VEZES


Às vezes assusto
Às vezes encanto
Às vezes sou riso
Às vezes sou pranto
Às vezes me dói
Às vezes a dor
Sou eu que dou
Pros outros.