terça-feira, 30 de julho de 2013

MASCARADO

Pintura de Mário Gruber.
Quantas máscaras lhe restam?

Ao passar pelo espelho, cubra-se
Pra não ver o que não é
Pra não temer ser o que não pode.

Olhe-se e note
Máscaras o encobrem...

Ou queres encobrir-se de si?
Já não basta escapar dos outros?
Não escapas nem de ti mesmo!
Perdes tempo!
Perdes vida!
Resta nada atrás
Das máscaras
Fuja das máscaras 
Que o encobrem
Do que há em ti
De menos mal.

PERDERA A HONRA E O QUE NÃO TEVE

Palhaço bêbado, de Francisco Eduardo.
Nada demais
Nem de menos
Somente o que não veio
E nem virá, pelo que sei
Mas esperei por ela
E não me correspondera
Sem eira, beira, dane-se!
Revoltei-me pela negação
Ao que tanto orei pedindo
Mendigo de Deus!
Ajoelhei-me, então, ao álcool
Até o brega me agradou
Ridicularizei-me nas calçadas
A lama podre me afundou
Perdi-me 
Com a perda do que não tive
E, já agora, nunca mais terei
Pois quis ter mais
Medindo-me pelo menos
Pelo mais me desequilibrei
Só a lama em que jazo
É onde me equilibro
Com a ausência de ar
Nem mais
Nem menos.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

NÃO TE NEGUES!

Pintura de Almada Negreiros.
Não te afogues!
Salva-vidas são poucos;
E não sei se consigo mergulhar.

Não te enfades!
Que a dura jornada só fez começar;
Tempestades hão de vir.

Sobretudo, não te negues!
Quero-te afirmação, indolente!
Quero-te um furacão, envolvente!
Nada mais que um “não” negado.
E um “sim” reforçado pela coragem!
Quer mais?
Não te negues!
Só negue a quem faz o medo
E ao que o medo te fez.

sábado, 27 de julho de 2013

RIMAS POBRES, MAS SINCERAS

como poetizar o amor sem ser clichê?
porque clichês pra ti não queria dar
quis procurar algo incomum de nós
que só nós a sós poderíamos falar
entretanto tal poesia não bastaria
vez que tudo que falaria faltaria
pra expressar...

pobre língua
que me limita
sem parar
a restrição
sempre corrói
como me dói
deus-mudo!

e mesmo essa angústia já é clichê
cheguei até a desistir de me meter
a falar de amor em rimas pobres
uma poesia é tão pouco pra ti.

FALA MATA

Matou-me
a palavra proferida
matou-me
um dedo na ferida
matou-me 
o que não se fez
perdeu-se a vez
de somente calar
matei-me
ao ouvi-la
a palavra
não dita
matei-me
querendo-a
perdida
matei-me
matando-me
por dentro
sem falar.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

QUERER CRIAR

A fonte da inspiração 
Não é de mundo paralelo
A manjedoura do que é belo
Não vem de qualquer nascente
Essa força mui envolvente
Que nos mexe a emoção
Tem em toda sua extensão
O que a conduz sutilmente.

Um impulso de criação
O homem que o alimenta
Quanto mais cria, aumenta
Um rio se amplia em jorrar
Parte e escorre sem parar
Rumo à temporal perfeição
Não se esvai em sua ação
Eterno é o querer criar.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

TEIMOSOS

por querer-te
tanto hoje quanto ontem
ou mais
expresso nestes versos
a saudade que
mesmo perto
você me faz...

e sou sincero
ao dizer assim
queria mais de ti
de nós, enfim
companheiros.

mas saiba também
com os erros
crescemos tanto
só porque a teimosia
quase quebrou
o nosso encanto.

eu não admito
de jeito ou maneira
permitir à asneira
de temer findar
que nos guie
o que liberto é o grito:
vem comigo!
quero-te comigo!
até não poder mais
teimar.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

AMOR DOÍDO

Pintura de Jorron.
“olá!” inesperado 
ao pé d’ouvido
arrepio contido
frio na barriga
primeira conversa
trocas de olhar
ah, bem que será
mais que simples
amizade.

pra falar verdade
eu nem queria mais
enfim, aconteceu
e hoje...
só colho os frutos
desse amor que doeu.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

MARIA BELA, DÁ TRELA E REZA

Igreja bate o sino
É hora de rezar
Vai Maria Bela
Corre para lá
Que tem Joca
Na esquina
E ele vai te olhar
Vai, minha menina
Parte sem pensar
Mesmo que não queiras
Algo vai ganhar
Faz promessa
Ao Santo Antônio.

O POETA E O CHORO

o poeta
contou-me em verso
que o universo
inteiro está
no olhar da criança
no riso de amor
contou-me que a morte
não é só a dor
não há
por que chorar.

o poeta
enxerido que só
pôs num pergaminho
o preceito-mor
de um cafuné
e escreveu finamente
as curvas de uma mulher.

o poeta
me ousou falar
o que o Arquiteto escondeu
obrou o firmamento
e o sentimento
a nós concedeu
eis que na brincadeira
se faz verdadeira
a nossa esperança
o poeta traduz
com todo seu jeito
a criança
que há
por que chorar?
não! não!

o poeta
que chora
só chora em versos
e nem se vê chorar
o poeta
mais chora
que canta
o poeta
mais vive
a lamentar
é que a dor seja tanta
a vida o espanta
e o riso é pouco
faz-se de louco
e vai versejar
o verso é mais forte
que o simples chorar.

e só o poeta
que sabe
que a graça
está em chorar
e canta e louva
a arte de amar
e a dor de perder
aquilo que amou
tendo consigo
o chão onde andou
não chores mais!
e se chorar
que seja em versos!

AS CALÇADAS

Se as calçadas do interior falassem...
As histórias que por ali passam
As famílias que por ali se reúnem...
Um templo da temporalidade.

A calçada da casa de meus avós
Que já mudou tanto
Tem livros e livros ditados
Ela sabe de cor contar todos
Sabe de quando Manuel traiu Zeferina
Da queda que Joaquim levou da moto
Até das antigas paródias de eleição.

Naquela calçada
Já me sentei
Deitei
Armaram tucuns
Brincamos de carrinho
Amolou-se foice
Secou-se o feijão
Caiu Nonato bêbado
Sentou Netinho com a namorada.

Naquela calçada
De cimento frio
E quente aos meios-dias
Já chorou Mariana pela morte de João
E já chacotearam com os vizinhos
Mas também colocaram a imagem de devoção.

Recordo-me
Quando mais pequeno era
Que a calçada foi reformada
E vi seus pedaços antigos
Ao chão jogados
Tingidos de vermelho
Desgastados
Era como ler um livro
Contaram-me aqueles pedaços
Histórias mil.

Quantos livros mais não estão em tantas calçadas?
... A procura de alguém que os leia.

ALGO FICOU

Galo cantou na janela
Anunciou o irmão-sol
Olhei bem os olhos dela
A minha amada donzela
Enrolada em lençol.

E cada manhã daquelas novas
Parecia rodeada de um quê novo
Eterno e precioso momento absorto
Eu e ela, um só, a olhar a brisa passar...

Passaram-se os dias
Nossa jovialidade foi-se com eles
Contudo, algo ficou...

domingo, 21 de julho de 2013

CONTRADITO

Bem dizia um velho que achei jogado na calçada da igreja duma sé qualquer:
Morrerei com a dignidade dos pés descalços e da longa barba branca.
Não me adianta, ora mais, viver para o que os outros vão pensar.
Sendo louco, alienado, pouco importa dar esclarecimentos à vaidade.

Mas meu amigo não concreto tinha uma única vaidade, embora não admitisse:
A de olhar seus próprios pés incessantemente, sujos e rachados.
O que nos outros gerava asco, dele era orgulho, símbolo da abnegação da vida perdida.
Queria ser tão diferente e tão melhor, que sair da lógica alheia era o caminho certo.

Loucos negam as ilusões dessa vida.

PEDIDO AO FILHO

Filho meu
Não serás hebreu em terra alheia
Posto que em tua veia
Escorre o sangue de resistência
Daqueles que deram a vida pela vida
E viveram intensamente a dura partida
Dos seus.

DEDILHADOS

Rosto enrugado,
Velha rede de tucum,
Olho cego,
Corpo adoentado,
Passo o dia na varanda,
Tão entediado;
Intruso chega
Vira e revira a bagunça
Dessa vida só resta o cansaço
E uma viola
(Des)afinada a meu jeito.
Adentro-me em acordes.
Notas que minhas notas são ritmadas?
É o ritmo que me mantém vivo
Até quando os dedos pontilharem...

PRENUNCIO

Exponho-me na melodia
E que a minha alegria lhe contagie
Porque quero viver.
Venha e de braços abertos
Cante um novo hino
Que se faça saber:
Eis que agora,
Uma nova aurora se anuncia;
Onde em cada dia
A paz vai haver
Na esperança
Que guia a andança
Junto ao bom querer.

Prenuncio...
O tempo dirá
Ou as pedras.

sábado, 20 de julho de 2013

AMIGOS, IRMÃOS DE SINA

Iremos brindar inda quantos reencontros?
Se soubesse, essa pergunta não me abateria.
Nas noites de insônia, consumi-me em receios:
Até quando a vida generosa me seria?
Não obstante tal constatação da finitude,
Abri-me para amar-te, amar-te mais que o fim.
Pois que de tua amizade há de ficar,
Tesa, a candura que resiste ao cupim.
Grato ao tempo que a ti me deste.

Amigos, irmãos de sina.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

POBRES VERSOS DE INSÔNIA

Insistir em descrições é vão
Quando o fluir passa por entre as narinas
E se esvai tão forte e ininterruptamente
É o vento ébrio que apaga as lamparinas
Obriga-me, tal impostor, a ceder e curvar
Minhas ambições às limitações temporais
As mesmas que me consomem sem sentir.

Mas insisto, insisto sem pensar
Que a vida, essa curva sinuosa de uma fita
Não avilta o nadador que em abraçadas avança
O teimoso algo alcança, nem que a morte ao final
E se a irmã-última vier fria, tragando alma e penar
Pensarei mais no raio que alumia esse nobre pelejar
E terei sentido, qualquer, para viver e sorver verbos
Sem medo, sem receio de me desamarrar.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

PERGUNTAS AO NADA

Por que toda poesia me faz lembrar a morte?
Por que toda canção agora tem um repetido mote?
Por que me escondo do nada, mas ele não me larga?
Por que no largo de meus medos, amedronto-me comigo mesmo?
Por que, olhando em seus olhos, vejo o espelho de minhas angústias?
Por que, pisando em abrolhos, a caminhada morre com os passos?
Por que a respiração susta o choro reprimido?
Por que meu corpo não entende, estando agora eu estendido?
Por que minhas mãos não alcançam a imensidão do Céu?
Por que as palavras não bastam nesse limitado papel?
Por que o malgrado dos gestos alheios me prende?
Por que me surpreende a traição de Abel?
Por que caio e o chão não me dá sustento para levantar?
Por que pergunto, pergunto e pergunto, mas há pouco para encontrar?
Por que não sei, mas insisto tanto, exitoso, em teimar?

IGNOMÍNIA

Pensava-me tão sábio.
Sequer sabia, contudo,
Que o absoluto me furava,
Trespassava ferinamente
Minha alma de andante.

Pensava-me tão sábio.
Julgava-me livre;
Que as escolhas dadas
Eram todas, quase, minhas;
Mas não escolhi viver.

Pensava-me tão sábio.
E não pensava
Nalgum dia vir sofrer;
E que a dor ensinaria,
Mais que tudo, que não sei.

Pensava-me tão sábio.
E fui tolo ao me enganar...
Todos os dias passaram
E julguei que iriam durar.
Foi tão pouco e eu também.

CONFIDÊNCIA DIVINAL

Quero lhe falar
De todo o meu grito
Das coisas que vivi
No nosso vão conflito
Quero lhe contar
Os segredos que guardei
Quero espalhar
Toda flor que eu pisei.

E quero muito mais
Muito mais que tudo
Calar-me e fazer-me
Um pobre, um mudo
Daqueles que andam perdidos
Sem voz pelas calçadas
Os poetas verdadeiros
Que vivem as madrugadas.

Quero lhe pedir
Desesperadamente
Guia o meu devir
N’alvorada envolvente
Dos passos do medroso
Que ousou cantar
Um dia sim
Na passarela das Andradas
Ao sino de marfim
E olhou a lua
Ergueu as mãos
Curvou-se ao chão
E ali caiu
Não soube
Não soube
Que destino lhe partiu.

E eu mesmo quero partir
Para não sei bem aonde
Só sei, quero pedir
Retira-me a um monte
E que lá ore
Pelos que não quiseram
Nem quererão
Mexer-se mais.

DIÁRIO DE UM DIA SÓ

Só nesse dia
Sozinho como o futuro que não virá
Chorei amiúde por te não ter no meu lugar.

Só nesse dia
Cabreiro por pisar no firmamento
Por um momento, pensei alcançar.

Só nesse dia
Perdido dia de pensamentos soltos
Pulei suspiros e soprei-os aos outros ares

Só nesse dia
Único, inconteste, maldito dia só,
Minha cabeça, refletindo, pensou-se pó.

Só nesse dia
Que se passou numa eternidade
Cada minuto e angústia trazem toneladas de desamparo.

Só nesse dia
Quando estive ao lado do desconhecido
Vi que a estreita fenda que nos separa inexiste.

Só nesse dia
Dia que não passou para além dos sonhos
Esqueci-me que morria, esqueci-me que vivia e não vivi (pouco).

BASTARDO

Terras, escutem meu grito!
Que agora eu vou cantar
Eu venho do pó e do chão
Eu venho do lado de lá.

Eu sou mais que a terra
Eu sou mais que o ar
Criei-me do nada
Sou filho do que virá.

Eu sou filho do sangue
Viajante de outro lugar
Um fruto perdido da relva
Menino perdido sem lar.

Eu sou filho do canto
De poesia sem fim
Do poeta que se findou
Ficou ele cá em mim.

Eu sou filho das leis
Apagadas na pedra de outrora
Sou filho da passagem
Só o tempo é que me devora.

Bastardo,
Bastardo,
Sozinho no mundo afora.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

MEU POBRE OPRESSOR

Zum-zum
Fumaça
Calor
Suor
Farda
Mordaça
Da fome
Calada
Corre-corre
Não para
Aperreio
Desemprego
Porta escancarada
Se não quer
Tem quem queira
Faça o que não der
Force
Agarre
Não arrede o pé
Da fábrica
O patrão
Quer lucrar
Com seu
Medíocre
Sangue.

VAMOS À REVOLUÇÃO!

Os soldados estão a postos,
Prontos para continuarem lutando,
Em uma guerra na qual muito sangue já foi jorrado,
Onde muitas batalhas já foram vencidas,
Porém, o inimigo ainda não foi derrotado.

As ruas colorem-se de verde e amarelo,
Inúmeros guerreiros tomam as praças, becos e estradas,
os grandes labirintos já não têm mais saída,
a vitória será decretada.

Os gladiadores nacionais não temem nem fraquejam,
utilizam-se de instrumentos que não ferem e não matam
Assim como os gênios do passado,
Usam-se dessas armas para repintarem nossa bandeira,
e reescreverem a nossa história!

Kélvis Albuquerque

SEJA MINHA CORAGEM

Falo em versos
O que em sussurros
Falta-me de coragem
Falo em gestos
O que em apegos
Falta-me de ação
Falo em calafrios
O que em olhares
Falta-me tanto a sua mão
E mesmo nessa poesia do medo
Da insegurança de alguém assim
Penso sempre em seu calor
Quero tê-la para mim
Embalá-la em meu abraço
Senti-la em respiração
Fugir desse mau mormaço
Da amarga solidão

Seja minha coragem.