domingo, 30 de junho de 2013

TENTAR SER PAI

Quando você vê a face de um pedaço seu, um filho, a admiração não cabe em mil crônicas. Já vi dizerem que a mãe se sente como tal a partir do momento em que sabe estar grávida, mas o homem só vai ter noção da grandiosidade desse sentimento ao encarar aquele fruto de amor, milagre da vida, chorando, pequeno e delicado, ainda vermelho pelo esforço da nascença. Nesse dia, em que o vi, e de lá até hoje, a vida não foi a mesma, nem será. A existência é mistério indescritível, revolto de mistérios, que qualquer filosofia possa desvendar, nem a pobreza de fundamentalismos, de falsas crenças e falsas verdades. E, enquanto encaro a chegada de mais um navegante nessa existência, outros tantos se vão, e no ciclo da vida em que a renovação é lei suprema, a linha tênue que nos separa mostra-se, claramente, no parto, no choro, na dor e no alívio. O tempo escorre, conhecemos cada vez mais gentes, mais situações, e o aprendizado duro e meandrado nos permite continuar aqui mais um tempo, até que precisemos dar nosso salto qualitativo, revolucionário, rumo ao negror do desconhecido, que me parece bem mais apraz ao olhar a inocência e paz de quem dele acaba de chegar, e ao sentir que, duma hora para a outra, bagunçando-me por inteiro, tal como inda permaneço, ganhei o dom de tentar ser pai.

DE ALGUM CANTO, VENHAM!

cá da terra
mando mensagem
estamos em apuros
já faz tempo
negociaram-nos
e venderam barato
o relógio, o agora
é o nosso senhor
por nosso penhor
ouçam-nos
mandem numa nuvem
de algum canto
ou canto algum
um raio que destrua
a fugacidade
da tamanha sombra
de nosso medo
pautado na temporalidade
e angústia de não mais
alcançar nos dias
a eternidade.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

NUS

Num romance
Na profunda escuridão
Envolvi-me com mim mesmo
Foi girar de um furacão
E na escuridão que vi
Isso mesmo, eu vi, afirmo
Vi melhor que nada mais
Nada mais quero comigo
Quero ser um homem nu
Simples nu
Feio nu
Um nu
Só nu
Nu, eu, você, comigo
Sem capas
Sem cascas
Sem cápsulas
Só nós
Sós
Como somos
Mortevida
Tudo junto
Em síntese
Infinita.

ROBOTIZANDO

Somos mecânicos, infelizmente.
Cotidianamente mecânicos.
Nos gestos, nos “olás!”...
No “bom dia!” forçado...
No “bom dia!” não dado...
No “oi, tudo bem?”,
Que não quer resposta.
Somos mecânicos no trabalho.
Querem até mecanizar o amor!
Domar o homem e seus desejos.
Matar o homem, tornando-o um robô.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

PENSANDO A VIDA (CORDEL)

1.
Traço versos nessa hora
Pra tratar de assunto sério
Que incomoda minha alma
E faz-se grande mistério
É a vida e suas faces
Sendo a arte seu critério.
2.
Esse mundo não é nosso
Aqui viemos cair
Sabe-se lá de onde
Mas o certo é partir
Rumo ao Desconhecido
Não temos como fugir.
3.
Bem diria um filósofo
A vida tem seu começo
Tem seu meio e seu fim
Tem também o seu avesso
Que é a vida mal vivida
Que vai contra o seu preço.
4.
Essa vida que vos falo
Que se nega por si só
Nasce quando o sujeito
Se esquece que é do pó
Quer viver como imortal
Ah! Esse merece dó!
5.
Pois vejam todos vocês
Sábio foi sãol Francisco
Que amava a irmã Morte
Não via nela um risco
No máximo, uma passagem
No olhar de nós, um cisco.
6.
Viveu ele entre os pobres
Praticou o verbo amar
Soube que com esse verbo
Tudo poderia mudar
Fez pra si um bom sentido
Pra sua vida andar.
7.
Isso todos nós queremos
Um sentido pra viver
Um rumo que oriente
Nas dores que vamos ter
E a fé é a arma mestra
Sabendo bem a sorver.
8.
Se as pessoas refletissem
O que fazem nesse chão
Porque é que estão aqui
Qual é a maior missão
Talvez chegassem a ver
Quão pequenas elas são.
9.
E vendo essa pequenez
Que se põe à nossa frente
Ficaria bem mais nítida
A besteira que é a gente
Brigar e se intrigar
Que coisa mais deprimente!
10.
E digo mais por aqui
Se o povo percebesse
Que a morte está por vir
Teria mais interesse
Em conter a nossa língua
Pra que não se corrompesse. 
11.
Eis que a língua é malvada
A palavra fere mais
Que o tapa e o chute
Inclusive, ela é capaz
De romper com o sentido
E com toda a nossa paz.
12.
Com o choro derramado
Na vida de muito irmão
Sofrendo as angústias
De se ver no fim do vão
Vi a vida professora
E a dor como lição.
13.
Vi ainda a irmã Morte
Noutro lado da moeda
Não há vida sem tê-la
É como subir sem queda
Pra todo alto há o baixo
Mas o rio não se veda.
14.
Toda água sempre corre
Pra imensidão do mar
Do mesmo modo a gente
Um dia há de tornar
Antes cabe aprender
Com o que a vida dá.
15.
Esse grande presente
Que nos foi a criação
Sempre será mistério
Pra nossa compreensão
Entretanto, bom mesmo
É sentir cada porção!
16.
E encerro aqui minha fala
Muitos versos hão de vir
Porém, sei, nenhum deles
Chegará a traduzir
A riqueza dessa terra
Desse sofrido porvir.

domingo, 2 de junho de 2013

AVANTE, JUVENTUDE! (CORDEL)

1.
A juventude é força
Vontade e esperança
Se usar bem sua energia
Lutando pela mudança
Se quebrar suas correntes
Mãos unidas em aliança.
2.
Mas nem tudo acontece
Como a gente prevê
Essa mesma juventude
Pode ficar à mercê
Do medo, sim, e refém
Nada assim pode crescer.
3.
Andando nesse mundão
De Deus e do povo pobre
Vejo muito tanta gente
Se vendendo pelo cobre
Por tudo quanto é metal
Se rendendo aos nobres.
4.
Um monte de injustiça
Aflige o pobre pensar
Sacode o meu coração
Faz a gente lamentar
Crianças largadas à rua
Famílias sem pão e lar.
5.
Ao mesmo tempo encaro
Gente com tudo em mão
Cheia de pompa e chique
Andando em seu bom carrão
Acumula e desperdiça
Desrespeita a Criação.
6.
Discurso bonito é fácil
Difícil mesmo é agir
O que tem de hipocrisia
No mundo não cabe aqui
Vários dos revoltados
Do sofá não vão sair!
7.
Em discurso até o Cão
Parece bom e envolvido
Com as causas sociais
Diz-se comprometido
Mas na prática peleja
Pra desunir, o fingido.
8.
Quanta gente por aí
Da política reclama
Mas na hora de votar
Joga o dito lá na lama
E se vende baratinho
Votando num sacana.
9.
Falam em corrupção
Que é coisa intolerável
Mas furar fila e enganar
No troco é notável
Parece que esse tipo
De coisa é saudável.
10.
E lembro mais a vocês
Nessa globalização
A negada tá informada
Fácil comunicação
Fácil ficar na net
Mas é preciso é ação!
11.
E voltando à juventude
Nosso público leitor
Sou jovem feito vocês
E, sei, sinto a dor
O mundo clama por paz
Justiça e mais amor!
12.
Vamos semear no mundo
Em cada pequeno gesto
Sonhos e planos comuns
Pra vencer o mal funesto
Lançar pela igualdade
Nosso grito de protesto!
13.
Um basta à hipocrisia
E ao tal do comodismo
Pra sair de casa e unir-se
Pra contornar o abismo
Que separa os irmãos
A ambição e o cinismo.
14.
Se cada um fizesse
Ao menos a sua parte
O certo é que o Mal
Iria parar em Marte
Mas não espere o outro
Dê exemplo em sua arte!
15.
E ei de ver no futuro
Nosso grande resultado
Da união o grande fruto
E viver um bom bocado
Cada um com seu direito
De sorrir e ser amado.
16.
Fico cá com esses versos
Que improviso com vocês
Sinceridade e carinho
Digo que aqui têm vez
Um abraço, paz e luz
Deus nos dá a solidez.

O ONTEM E O HOJE

Recentemente recebi um e-mail, onde o ex-presidente enaltecia o Programa Bolsa Família. No vídeo, ele criticava os seus opositores a respeito do benefício destinado à população. Chegou a chamá-los de ignorantes. Na sua visão este benefício não torna a população preguiçosa. Já em outro momento do vídeo ele (Lula) faz criticas duras a esse tipo de benefício. Pois esta “ajuda” estaria sendo usada como “moeda de troca” eleitoral.

Vejam amigos blogueiros: Temos dois Lulas. Um antes da “Faixa Presidencial” e outro palaciano. Quando sindicalista pregava ideias revolucionárias e o bom uso do erário público. Já sentado na mesa palaciana as coisas mudaram. Primeiro ato: Aquilo que era assistencialismo passou a ser o principal programa do seu governo - o Bolsa Família. A utilização do erário público como moeda de troca para a governabilidade do seu reinado... Que nos outros governos também havia desvios é fato! Mas nestes dez anos o que vemos é que esta prática foi institucionalizada.

Já o Programa Bolsa Família ter sido o responsável pela mudança de classe na sociedade brasileira, tenho minhas dúvidas. E me embaso nisto por achar que o dinheiro recebido por cada família é muito pouco para proporcionar tal mudança. A importância que vejo são as condicionalidades que cada família tem que cumprir para manter-se no Programa. Tais como: Manter as crianças nas escolas, ter o cartão de vacinação em dia e fazer o acompanhamento de pré-natal. Vejo estas condicionalidades como uma obrigação familiar. Pergunto: Se houvesse uma campanha de conscientização séria acerca dos direitos e deveres das pessoas com sua família e sociedade não seria mais pedagógico e bastaria?

Semana passada houve um boato tratando do fim do Programa Bolsa Família. Foi um “Deus nos acuda”! Começando pela classe política. O Planalto tratou logo de desmentir e acusar a oposição. Este programa vai se perpetuar.

Voltando ao início da nossa participação, vejo que o ex-presidente, “enquanto sindicalista” tinha razão quando falava que este benefício é uma moeda de troca eleitoral. E hoje ele é o principal cabo eleitoral do Partido palaciano. O Que era ontem não é hoje. Os fins justificam os meios?!

Carlos Teles

sábado, 1 de junho de 2013

O VACILO DE JOSÉ

Agradecemos à colaboração de Prof. João Teles com a revisão técnica.


I.
Viveu José sua história
Em cada passo e agonia
Ele entrou numa furada
E quase que não saía.

II.
Era igual a qualquer um
Nem mais fraco, nem mais forte
E pagou pelas escolhas
Contou ele com a sorte.

III.
Mas não se enganem vocês
Da fossa que o conheceu
Sei, nem todo mundo escapa
Grande parte pereceu.

IV.
José viveu para as drogas
Curtiu enquanto podia
Só depois se apercebeu
Do quanto que se perdia

V.
Escapou, mas não foi fácil
Afinal, lá no começo
Prendeu-se ele julgando:
“São boas, eu as mereço!”

VI.
Tudo começou um dia
Com os amigos no quintal
Deram-lhe logo um cigarro
Disseram que era normal.

VII.
Tossiu, quase se engasgou
Coisa de primeiro trago
Sua mãe sequer sabia
Estava feito o estrago.

VIII.
Pensava ele: - Sou homem!
E homem fuma e bebe.
Meus amigos me aceitam
As meninas, logo em breve.

VIII.
Não custou, os tais amigos
Nas festinhas da cidade
Lhe empurraram muitos goles
De cerveja, à vontade.

VIII.
José, tonto e esquisito
Dançou mais e... livremente
Tomou gosto pela coisa
Se via todo contente.

IX.
Não custou, se acostumou
Co’aquela loira danada
Para ser festa da boa
Tinha que ter a gelada!

X.
Cerveja já era fraca
Precisava de algo mais
José rumou pro uísque
Vodka, rum e coisas tais.

XI.
Nas rodadas de bebida
Pra se fazer de machão
“Concurso de quem aguenta
Beber a maior porção”.

XII.
E andava em sua moto
Bêbado, em cada estripulia,
Ronco forte de motor,
Animado em correria.

XIII.
Andou levando umas quedas
E torcendo o antebraço
Se não fosse o capacete
Morreria nesse enlaço.

XIV.
Já o pobre do Marquinhos
Um amigo de garupa
Findou sua vida ali
Ao José restou a culpa.

XV.
No dia depois do enterro
Descontou lá na cachaça
Bebeu todas que cabiam
Caiu mesmo ali na praça.

XVI.
A esse tempo, na escola
Não lhe interessava nada
Os professores falando
Ele pensando a noitada.

XVII.
Lhe mostraram a novidade
Ele, curioso, aceitou
Um cigarro diferente
De tudo que já fumou.

XVIII.
Fez viagem a outro mundo
Viu tudo se misturar
Ficou livre, leve e solto
Parecia flutuar.

XIX.
Quis saber depois daquilo
O que ora lhe ocorrera
Soube pelos seus amigos
Da droga que o abatera.

XX.
Não foi cigarro qualquer
Foi algo bem mais potente
E depois de lhe dizerem
Maconha, era evidente.

XXI.
E mergulhou de cabeça
Naquela vida de louco
Álcool, porta de entrada
Toda droga, algo pouco.

XXII.
Misturaram algo mais,
Na maconha que fumava
A viagem ampliou-se,
E num instante passava.

XXIII.
Soube que era o tal crack
Bicho mais, muito mais forte
Mais gostosa era a viagem
Bem mais perto ele da morte.

XXIV.
Já não tinha mais controle
Dia e noite, noite e dia
Prendeu-se já no desejo
Que tanto lhe consumia.

XXV.
E se chegasse o dinheiro
Tinha seu destino certo
Comprava todo de crack
Não queria a mãe por perto.


XXVI.
Dizia: - Estou no controle
Continuo porque gosto
E quando quiser largar
Largo logo, digo, aposto!

XXVII.
Eis que se contradizia
Perdeu peso, fico feio
Perambulava ao relento
Não tinha nada de freio.

XXVIII.
Só conseguiu se livrar
Com muito custo e esforço
Assim que reconheceu
Ter chegado ao fim do poço.

XXIX.
Nos pais procurou ajuda
E nos postos de saúde
Voltou a assistir às aulas
Disso soube, quando pude.

XXX.
Vejam vocês essa história
Vivida em tantas casas
A droga é silenciosa
Só basta lhe deem asas.

XXXI.
Saiba que a dependência
Não está longe de você
Basta o primeiro passo
Para logo se perder.

XXXII.
Eu aqui deixo esse exemplo
Não entre nessa ROUBADA,
E se entrou, vá e corra
Pra ajuda, camarada!

CIDADE DO INTERIOR

I.
Josefina tece suas prosas
Com a mão fina na palha.
Tece também o chapéu,
Língua ferina, navalha.

II.
Joaquim, à bodega, bebe.
Dedica o gole ao santo,
Para quem tem devoção.
Esquece Maria e o pranto.

III.
Velha Isabel e a bengala,
Manca, gorda, põe a mão
Aos ouvidos e se informa
Das conversas do povão.

IV. 
Conversa se espalha ligeiro,
Noticiário de esquina corre,
E faz carnaval a mangoça,
Do cara caído do porre.

V.
Manuel por nada troca
Seu cigarro de pé duro.
Pose de macho, tosse.
À igreja, sabe o futuro.

VI.
Ana, beata, reza o terço.
Inseparável pano à testa.
Caridosa, zela a alheia vida,
Pára a reza ao ver Modesta.

VII.
A formosa Modesta desfila.
Passa e atenta a caboclada,
Impressionam as suas ancas
E a face bem corada.

VIII.
João, o pobre, nunca casou.
Não teve quem o quisesse.
Fede a cachaça e a fumo;
Em seu desaprumo padece.

IX.
Vendo João, Irmão Ricardo,
Faz que não vê, e desvia,
Converteu-se em Brasília
Ele, Carmem e Sofia.

X.
A cunhã da Rua de Baixo,
Leva a fila de meninos,
Todos de pais diversos.
Crescem ouvindo vis ferinos.

XI.
Nhã-Nhã só quer os livros
Espreita o mundo nas folhas.
Mal sai ela à calçada,
Teme tanto suas escolhas.

XII.
Já Félix é diferente,
Pelo menos tenta ser.
Foi ao Rio, voltou chique.
Em pouco volta ao sofrer.

XIII.
Farofa, a cadela, dorme,
À capela bem calada.
Ó, maior fiel não o há,
Sincera e reservada.

XIV.
Maicon quebrou a perna
Nas peladas vespertinas
Seria um novo Ronaldo,
No que conta às meninas.

XV.
Mariano mente um bocado.
Peixe de um metro, jura,
Achou no açude e deixou,
Mui longe, mui tortura.

XVI.
Lenita, a doente, lamenta.
Rabugenta, bem que queria,
Todos doentes quais ela,
Deus, à hora, não havia.

XVII.
Onira, com suas trouxas,
Louca, sempre de mudança,
Pronta ao fim dos tempos,
Pra encerrar a sua andança.

XVIII.
Espreguiça-se todo Jânio.
Falador, o homem sosneiro.
Se pensa em ir trabalhar,
Pronto, dói o corpo inteiro.

XIX
No bar se gaba Jean.
Todo valente, o mulato,
Diz ele, enfrenta onça,
Cobra e cabra gaiato.

XX.
Também no bar, Israel,
Torto, bem aparentado,
Com seu casaco molambo,
Dança, o chão é o tablado.

XXI.
Zezim, da Pedra Lascada,
Ávido que nem gavião,
Vereador do discurso alto.
Não se entende um tostão.

XXII.
Eu, forasteiro, me esqueço.
Na estranheza me envolvo,
Com as doidices da cidade,
Dum nem tão parado povo.