segunda-feira, 13 de maio de 2013

TUAS LÁGRIMAS, MINHA GRATIDÃO


Chorou por mim... Tantas vezes que já nem me lembro. É porque filho cresce, esquece e se vai, mas nunca sai do coração solidário e maternal de mulher. Não qualquer uma, a que esteve comigo mesmo antes de saber-me gente; pegou-me em seus braços e me apresentou esse duro mundo, sorrindo, serena e terna, enquanto eu estranhava, desconsolado, a perda do conforto precedente; apresentou-me duras lições; sofremos, juntos, privações várias; tirou de sua boca, não poucas vezes, a comida que me sustentou, e me deu o maior alimento: a segurança e o alento de seu calor fraterno.

Mesmo metido a poeta, mãe, nenhum de meus versos, por bonitos que sejam, conseguiria alcançar o valor e a beleza dos mais simples gestos de entrega sua, generosamente, em prol de minha existência. Lembro, à época pequenino, olhar em sua barriga a cicatriz da cesariana que me permitiu nascer e você me contando, sempre com os olhos marejando, das tentativas malsucedidas de gerar os que seriam meus irmãos mais velhos. Fui fruto do amor, da promessa (a si mesmo e à fé) e do medo, medo de perder-me para a fome e para os perigos da vida.

Já mais grandinho, vi-a ser abatida pela tristeza, afundada numa depressão que lhe fez perder, temporariamente, o gosto pela vida. Lá estive, e presenciei, mesmo fragilizada, rogar por mim, estar ao meu lado, cuidar-me, devotadamente. Amor de mãe, esse sim, não tem medidas e pude provar, sendo um pedacinho seu na terra, seu sabor, repleto de vida, expressão divina na terra da força que nos conduz todos a existir.

Nem sei como agradecer, tampouco saberei. Só posso lhe dizer, hoje aqui, que devo a você ser o que sou e o que conquistei. Se, sendo filho de trabalhadores pobres, estudei e persisti, foi em grande medida por que tinha ao lado uma mãe a me dar forças e me conter em euforias tantas. Se sou capaz de amar, é porque tive quem me desse a saber o significado desse sentimento e o mostrasse da forma mas sincera e pura a mim. Amo-lhe, assim como você me ensinou, com a intensidade recíproca de um filho. Sou-lhe grato pela vida que me doou. Parabéns por mais esse dia em homenagem à sua missão, Antônia Nezinha Gomes.

(publicado originalmente no O Povo: http://bit.ly/12vzI8z)

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