segunda-feira, 27 de maio de 2013

MEU AMIGO MANUEL

Manuel, coreauense, agricultor, amigo meu, tem uma excentricidade que, ao menos, é capaz de chamar a atenção de qualquer um de nós; na sala de sua casa, há um buraco (coberto) de mais ou menos 1,5m de profundidade e uns 2m de largura, segundo conta, reservado para seu corpo jazer após a morte, desde que devidamente salgado e desidratado, essa seria a forma de garantir alguma espécie de eternidade. Manuel diz não acreditar nem em Deus, muito menos em vida após a morte, identificando-se por ateu e disposto, inclusive, a pregar o ateísmo e se associar a outros ateus para isso (já viu contradição maior?).

Mas ele gosta de tudo o que é bizarro, às vistas de nossos costumes; já frequentou uma diversidade de cerimônias religiosas, místicas, e quanto mais estranho melhor. Outro dia, apresentei-lhe La Santa Muerte, uma figura do México que retrata uma caveira em vestes de santa, venerada no Dia dos Mortos, tradição pagã daquelas bandas; o homem se apaixonou e até hoje me cobra a revelação de uma foto dela para colocar em sua sala de estar.

Diverte-se ao ser considerado estranho, é como uma conquista de atenção. Nada mais puramente humano. Manuel é um humano, um bicho que nem qualquer bicho desses de calça (ou saia) que andam por aí, carregando consigo sua história na maleta da memória, e lá no fundo um poço, obscuro, feito do resto, dos medos, angústias, incertezas, como eu e você, a diferença está no ponto que se vê. Manuel ensina com seu sorriso, também excêntrico – não é um tipo de gargalhada que apaziguaria meu sono numa noite escura, digamos assim; ao rir da miséria humana e do seu medo, retrata o louvor por poder tê-la e se agarra a essa miséria cotidiana, ao lixo do lixo que somos; e somos um lixo tão diferente, a sobra de tudo o que há, e justamente por isso dói ser humano, um ser que sobra e que tenta constantemente se preencher com algum sentido, mas nunca se preenche. Retratou seu vazio cotidiano, vazio nosso, em sua sala, e todo dia se lembra dele, e zomba.

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