sexta-feira, 31 de maio de 2013

LÁPIS VELHO

Comprou o lápis ao moleque.
Deu-o ao desenhar o caderno.
Com as letras tortas dele,
Traçou os primeiros planos.

Esboçou mil aventuras a mais.
Arquitetou seus sedentos gestos.
No papel, hoje todo amarelado,
Fez-se, foi-se, nasceu-se.

E agora olho seus traços
Com saudade...

INVEJA

Jogou a pedra por primeiro
Mas não foi ele certeiro.
Jogasse, dantes, acima.
Volta a pedra, prima ela
Pela cabeça do juiz.
O mesmo do dedo podre,
Da arruaça em casa, inveja...
Cada choro de ciúmes
À horta alheia, estrumes.
Não te temo, olhar fugaz,
Não lhe fujo, vai-se, vais...
Foge ao longínquo!
Esqueça-se de mim
E me faz mais um favor:
Não te perturbes!
Nem te cobres!
Aos fortes, as pedras,
Aos fracos, plumas,
Plumas negras de urubu.
Não te diminuas,
Invejando tanto assim.

DICA MUSICAL - BADI ASSAD


A quem cabe destaque hoje aqui é a paulista, cantora de Jazz, Badi Assad, cantando as belezas das noites de São João, que já se aproximam.

DERRUBADO O "PUXADINHO" DA CAPELA DE ARAQUÉM

Já se tornaram escombros as paredes do anexo construído à Capela de Santo Antônio de Pádua, de Araquém - Coreaú - CE. Agora, resta uma boa reforma.

NOVIDADE NOS FESTEJOS DE SANTO ANTÔNIO DE PÁDUA, DE ARAQUÉM

Nesse ano, em Araquém, os tradicionais festejos de Santo Antônio de Pádua terão um diferencial; contaremos com apresentações das escolas locais e barracas temáticas, dentre elas a de leitura. Nosso trabalho está cotado para ter vez por lá. Estamos organizando algumas poesias especiais para expor de forma dinâmica, a convite da organização. Também haverá espaço para mais produções coreauenses. Excelente ideia (não pela parte que me toca, mas pelo todo)!

PERMACULTURA COREAÚ - SEMEANDO SUSTENTABILIDADE

Trabalho feito, família feliz.
Mais um trabalho de Permacultura, sempre na militância. Dessa vez foi na casa do irmão Prof. Zezinho, de Araquém, sábado (25-05-2013), onde construímos um círculo de bananeiras para o aproveitamento de água (cinza) das pias e ralos. Devagarinho, como o trabalho do rouxinol, nossas iniciativas vão ganhando amplitude.

Se deseja também replicar iniciativas sustentáveis em sua casa, entre em contato conosco pelo e-mail: beneditogr@hotmail.com Mais informações sobre o círculo de bananeiras, acesse Permacultura Coreaú, ou ainda aqui.

CAPELA DE ARAQUÉM PODERÁ TER SUAS CARACTERÍSTICAS ORIGINAIS PRESERVADAS

O anexo erguido na Capela de Santo Antônio de Pádua, que modificou sua visão traseira, será derrubado, restabelecendo as características originais da edificação. A ideia da Paróquia, quando do início das obras, seria, supostamente, de adicionar uma sacristia à estrutura original, o que causou polêmica no distrito, entre os que colaboraram (com dinheiro) e os que encararam a novidade como uma deterioração do que é um dos patrimônios histórico-arquitetônicos mais notórios de Coreaú; a construção da igreja data do séc. XVIII.

Um ponto que não deve ser desconsiderado é o caráter desastroso do "puxadinho", que mobilizou contribuições (em vão) de fieis e em momento algum se preocupou com a preservação do patrimônio. A praça que outrora foi verde e florida também tem a perspectiva de revitalização. Nossos parabéns à Paróquia e à Prefeitura!

CINEMA ITINERANTE EM COREAÚ?

Há iniciativas simples, que exigem poucos recursos, porém fazem uma diferença medonha. As ruas de Coreaú, das comunidades rurais e distritos, à noite, ficam um desânimo só, nenhuma alternativa cultural, só as conversas de calçada e a TV. A exibição de cinema itinerante se mostra como uma ação muito válida, que dá para fazer com um telão, data-show e caixas de som, equipamentos hoje fáceis de conseguir e que as prefeituras dispõem, por menor que seja o município.

A gestão anterior de Coreaú ainda começou a esboçar um trabalho assemelhado a isso, só que acabou puramente como marketing, que não vingou.

Em breve, bateremos a porta  da Secretaria de Cultura com uma proposta de parceria entre Sociedade Civil e Poder Público para tentar dar um pouco mais de vida às nossas comunidades, com a ajuda da arte. Esperamos ser bem recebidos; bons ventos nos levam, os da esperança.

COREAUENSES NA CENA CULTURAL DE SOBRAL - CINE FALB RANGEL

Em Sobral-CE, a Casa de Cultura (vinculada à gestão municipal) tem dentre seus equipamentos o Cine Falb Rangel, que semanalmente exibe filmes brasileiros, às quintas-feiras, às 19h00, de forma gratuita. Tal iniciativa merece nosso louvor, e pode ser, com certeza, imitada à vontade pelos outros municípios da região, inclusive nossa terrinha. Poucos aqui sabem disso, mas temos hoje duas coreauenses que estão por lá na labuta, Fátima Regina - de Araquém, graduada em Ciências Sociais - e Ana Selma Aguiar - de Aroeiras, graduada em História. O que é bom é para ser divulgado e replicado!

NAVEGANTES - DESBRAVANDO O PRAZER DE LER

Tenho acompanhado a Biblioteca Pública Municipal de Coreaú e percebido o quão parada se encontra, depois de anos sem alguma iniciativa que chame a atenção da população, sobretudo dos jovens e crianças, para acessarem os livros e frequentarem o local. Pensando nisso, conjuntamente com a coordenação atual da Biblioteca, em breve se dará implantação do projeto "Navegantes - desbravando prazer de ler", que contará com a realização de oficinas, nas quais trabalharemos contação de histórias, trabalhos de desenvolvimento da criatividade, fabricação de fanzine, rodas de leitura e dinâmicas grupais, tentando desvelar o prazer de ler nos participantes.

Se as coisas por si não mudam, a gente tem que se mexer para mudá-las.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

MEU AMIGO MANUEL

Manuel, coreauense, agricultor, amigo meu, tem uma excentricidade que, ao menos, é capaz de chamar a atenção de qualquer um de nós; na sala de sua casa, há um buraco (coberto) de mais ou menos 1,5m de profundidade e uns 2m de largura, segundo conta, reservado para seu corpo jazer após a morte, desde que devidamente salgado e desidratado, essa seria a forma de garantir alguma espécie de eternidade. Manuel diz não acreditar nem em Deus, muito menos em vida após a morte, identificando-se por ateu e disposto, inclusive, a pregar o ateísmo e se associar a outros ateus para isso (já viu contradição maior?).

Mas ele gosta de tudo o que é bizarro, às vistas de nossos costumes; já frequentou uma diversidade de cerimônias religiosas, místicas, e quanto mais estranho melhor. Outro dia, apresentei-lhe La Santa Muerte, uma figura do México que retrata uma caveira em vestes de santa, venerada no Dia dos Mortos, tradição pagã daquelas bandas; o homem se apaixonou e até hoje me cobra a revelação de uma foto dela para colocar em sua sala de estar.

Diverte-se ao ser considerado estranho, é como uma conquista de atenção. Nada mais puramente humano. Manuel é um humano, um bicho que nem qualquer bicho desses de calça (ou saia) que andam por aí, carregando consigo sua história na maleta da memória, e lá no fundo um poço, obscuro, feito do resto, dos medos, angústias, incertezas, como eu e você, a diferença está no ponto que se vê. Manuel ensina com seu sorriso, também excêntrico – não é um tipo de gargalhada que apaziguaria meu sono numa noite escura, digamos assim; ao rir da miséria humana e do seu medo, retrata o louvor por poder tê-la e se agarra a essa miséria cotidiana, ao lixo do lixo que somos; e somos um lixo tão diferente, a sobra de tudo o que há, e justamente por isso dói ser humano, um ser que sobra e que tenta constantemente se preencher com algum sentido, mas nunca se preenche. Retratou seu vazio cotidiano, vazio nosso, em sua sala, e todo dia se lembra dele, e zomba.

sábado, 25 de maio de 2013

SERÁ UMA DECEPÇÃO BRASILEIRA?

O Brasil vive uma onda de violência insuportável. A mídia brasileira atribui esse caos ao envolvimento de adolescentes que se sentem protegidos pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). E, para conter esta tensão social, a saída seria a redução da maioridade. Bem, se esta é a verdadeira solução não sei... Porém, penso que existem outras alternativas que não esta. Gostaria de fazer um questionamento: Para reduzir a violência brasileira, teríamos que reduzir a maioridade dos nossos jovens...? E para acabar com a corrupção seria necessário o que?

No fim de semana passado, estava eu em um Pesque e Pague, quando dois senhores próximos conversavam sobre a onda de corrupção existente em nosso país. A indignação era tamanha, pois tinham depositado toda sua esperança no ex-presidente. Pelo visto, “ele” não é diferente dos seus antecessores.

A corrupção brasileira é mais danosa, a meu ver, do que a violência existente. Ela (corrupção) violenta a nação inteira. Recursos que seriam destinados na educação, saúde e infraestrutura básica da população são desviados para políticos manterem o seu apogeu de riquezas ilícitas.

No caso Mensalão, ainda existem muitas coisas a serem esclarecidas. Uma delas seria o envolvimento do ex-presidente. Pergunta: O que existe de tão “escabroso” neste caso que o conteúdo da caixa preta não foi todo revelado? Se o ex-presidente não tem nada a esconder por que não abre mão do seu sigilo bancário? Teria ele coragem de uma acareação “teti-a-teti”  com Marcos Valério? Enquanto a poeira que foi jogada para baixo do tapete não for removida o povo brasileiro não mudará de opinião a respeito do ex-presidente, que ainda aparece como “o cara”... Mas será que ele é mesmo "o cara"?

Carlos Teles

Deste blogue:
Tirando os "poréns", algumas conquistas foram muito válidas desses dez anos, e são inegáveis. "O cara" levantou a auto-estima dos brasileiros.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

SINA DE CAIM

O corpo comporta a história
Em cada palmo e inervação.
Já fui e sou puramente corpo,
Pele, osso, carne e coração.

Minha história não comporta,
Entretanto, o corpo que quer.
De que sou, sim, par’além,
Resta a mim correr à fé.

Como em versos não caibo,
Meu desejo não cabe em mim.
Angústia sorve o sono.
Triste sina de Caim.

Mas se morrer,
E não for nada,
Fui enquanto cai,
Cai ao começo.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

AOS QUE ME QUEREM EM TERRA

Há quem diga que devo me calar, aquietar e cruzar os braços, porque sou um reles filho de trabalhador, estudante, que nem casa para colocar a família tem. Eu respondo com o futuro.

POBREZAS

Pobres, verdadeiramente pobres, são os que não têm tempo para perder tempo.

Pobres, verdadeiramente pobres, são os que não têm silêncio e nem podem comprá-lo.

Pobres, verdadeiramente pobres, são os que têm pernas e se esqueceram de andar, como asas de galinhas, que se esqueceram de voar.

Pobres, verdadeiramente pobres, são os que comem lixo e pagam por ele como se fosse comida.

Pobres, verdadeiramente pobres, são os que têm o direito de respirar merda, como se fosse ar, sem pagar nada por ela.

Pobres, verdadeiramente pobres, são os que não têm liberdade senão para escolher entre um e outro canal de televisão.

Pobres, verdadeiramente pobres, são os que vivem dramas passionais com as máquinas.

Pobres, verdadeiramente pobres, são os que sempre são muitos e sempre estão sós.

Pobres, verdadeiramente pobres, são os que não sabem que são pobres.


Eduardo Galeano, in De Pernas pro Ar: a escola do Mundo ao avesso.

LER PRA QUE?

Resposta à pergunta "como podemos fazer as crianças gostarem de ler?", simples, lendo com elas. Meu pai é semianalfabeto, mas tinha uns dois livrinhos lá em casa que continham histórias e ele por si é um contador, por isso criei gosto. Contar e ler histórias com nossas crianças já é um incentivo e tanto para que leiam, não há reforço melhor que o prazer de ler.

RECOMEPENSA OU PUNIÇÃO?

Tenho aprendido que fazer as pessoas perceberem o que ganham com determinadas práticas é muito mais lucrativo e engenhoso que puni-las para que não façam o que nos desagrada, isto é, ensinar e premiar o certo produz efeitos mais desejáveis, muito mais, que punir o errado. Se queres recuperar algum deliquente, ajude-o a perceber o que de fato pode ganhar praticando coisas que não o crime, como por exemplo, com o exercício de uma arte, pode ganhar reconhecimento, ser tratado como gente e ainda se sustentar; são vários os exemplos, e via de regra, esse raciocínio de aplica em todas as situações que envolvem seres humanos: trânsito (em que as leis são feitas para serem burladas), escola, casa, trabalho, e até na política. Obrigado pelo apoio teórico, Análise do Comportamento.

sábado, 18 de maio de 2013

A VIDA É UM TEATRO?

Acordei hoje me fazendo uma pergunta: Somos protagonistas de uma grande peça teatral? O corre-corre da vida nos leva a estar sempre representando. A obrigação de “atuar” nos leva geralmente a agirmos contra nossos princípios.  No entanto, existem, também, aqueles que não atuam: Agem exatamente da forma como são...

Existem vários tipos de “peças teatrais cotidianas”. Entretanto uma me chama mais atenção: A representação política dos nossos representantes - O assunto não poderia ser outro – Senão vejamos: No próximo ano teremos eleições. Os atores já estão com seus roteiros em mão para subir no palco e representar... A esta altura os acordos existentes da campanha anterior estão perdendo sua validade e começa-se a costurarem-se futuras coligações e acordos... Em tempo: os lugares já marcados na mesa do banquete precisam e devem ser assegurados.

Assim é a vida do povo brasileiro. Manter-se na plateia aplaudindo nossos falsos representantes. Desempenhamos o papel de “Bobo da Corte”. E, falando em Corte, gostaria de perguntar aos nobres blogueiros: Quem é o “cocheiro” desta “carroça” chamada Brasil? Ou será que existem dois? Ou ainda “dois cocheiros e uma ajudante” para trocar o pneu?

Brasil mostra a tua cara! E não esta que está estampada na mídia! Os seus filhos estão morrendo de sede nos sertões enquanto se compra 16 carros blindados para proteger os turistas atraídos pela Copa do Mundo de Futebol. O maior troféu que o povo brasileiro poderia ganhar seria o dos seus filhos educados e saudáveis com qualidade nas prestações dos serviços estatais.

Reiterando o assunto teatral gostaria que “estes atores” fossem mais respeitosos com suas plateias... Que a corrupção cedesse lugar à gratidão de terem sido escolhidos (eleitos). Findando minha participação, deixo aqui uma indagação aos sucupiranos: somos atores ou plateia nesta peça teatral? 

Carlos Teles

COTIDIANAMENTE

Sobrevoei os altos
E baixos das curvas
De seu tempero
Conheci cada trejeito,
Mania. Passando inteiro
Dia com você e seus
Vocês demais aí.
Não me arrependi
Do que passei,
Perdi contigo o tempo
Mais bem perdido
De todo tempo que vi.

AUTORITARISMOS

Comandos e ordens,
Eu nego, renegado,
Já andei um bocado
Pra saber aonde ir.
Autoridade fálica,
Falha, falácia,
Nem general nem emir
Quero por aqui.
Só o caminho será
Minha voz, e o interdito,
Quando o abismo
Profundo, defrontar-me.
Aí sequer alarme,
Choro ou grito,
Vão me redimir.
Então, saberei,
Resignado e calmo,
A voz a seguir.
Intuitivo, talvez...

DIÁRIO DE PERDAS

O mundo acabou quando nasci.
A proteção expirou quando chorei.
A alegria se descortinou quando sorri.
A ti inteiro inteiramente teu me dei.
Mas hesitei, resmungando, tremelique,
Por que me tiraste, oh vida?!
Restou a lamúria de acompanhar
A lembrança do começo e a esperança
Do fim chegar, o mais cedo possível.
Pois no começo é onde verdadeiramente,
Indubitável e positivamente, estive.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

A VIDA

Deitado sobre a grama,
Sinto uma leve brisa tocar o meu rosto
Enquanto admiro o show de luzes que antecedem o crepúsculo,
Percebendo a essência da vida a correr por este campo.

Os pássaros sobrevoam as árvores quase adormecidas,
Que apenas movimentam algumas folhas,
Em um claro estado de entorpecimento.
Eu, a fitá-los neste momento de vasta quietude,
Sinto-me tomado pela vida e a alegria.

Contemplando esta paisagem paradisíaca,
Sinto-me embriagado pelo aroma da vida,
Estando deitado sobre este campo,
Fico a cismar sobre o que é a vida,
Sentindo-me feliz por encontrar o verdadeiro sentido da minha existência.

Kelvis Albuquerque

DO QUE BASTA ALGUÉM

Do que me basta,
Se não me basto,
A abastada poesia
Se minha agonia,
Inconsequente,
Não a preencher?
Do que me basta,
Se não me basto,
Inventar estórias
Para me defender?
Do que me basta,
Se não me basto,
Pintar o moleque,
Que passa na rua,
Assobiar ao nada,
Se a maior obra
É a obra nua?
Do que me basta,
Se não me basto,
Escrever e pensar,
Se o tédio é ímpar,
E faz-me corroer?
Do que me basta,
Se não me basto,
Desiludir e desistir?
Quero mais é viver!
Do que me basta,
Se não me basto,
Fugir dos sonhos?
Saio dos escombros,
Abraço alguém,
Peguei-o(a) na mão,
Para correr,
Um pouco até...
Onde os pés
E as vistas
Não alcançassem,
E nos bastamos.

quarta-feira, 15 de maio de 2013

GANHA-SE, PERDE-SE

Um velho amigo,
Cansadas suas carnes
De tanta luta,
Manteve no olhar
Sui generis serenidade.
Queria eu àquela idade
Ousando sonhar
Tanto.
Vi seu pranto.
Profetizei-me:
A vida nos toma,
De pouco em pouco,
Tudo e todos,
E ele, amigo,
Reconfortado,
Tranquilo,
Saltitou no vale,
Quando a crista
Já se tinha ido.
Deu-me esperança,
Até enquanto pôde.
E depois.

FUGIDO

Escondeu-se nalgumas poesias
Nos discursos homéricos
No cancioneiro erudito
Escondeu-se nas obras filosóficas
No resplendor acadêmico
Nos títulos e honrarias
Escondeu-se no vão dos elogios
Nas escadarias egóicas
Nos andares de ouro
Escondeu-se em sua própria imagem
No fim das contas um tolo
De si não se escondeu o medo
E nada restou

segunda-feira, 13 de maio de 2013

TUAS LÁGRIMAS, MINHA GRATIDÃO


Chorou por mim... Tantas vezes que já nem me lembro. É porque filho cresce, esquece e se vai, mas nunca sai do coração solidário e maternal de mulher. Não qualquer uma, a que esteve comigo mesmo antes de saber-me gente; pegou-me em seus braços e me apresentou esse duro mundo, sorrindo, serena e terna, enquanto eu estranhava, desconsolado, a perda do conforto precedente; apresentou-me duras lições; sofremos, juntos, privações várias; tirou de sua boca, não poucas vezes, a comida que me sustentou, e me deu o maior alimento: a segurança e o alento de seu calor fraterno.

Mesmo metido a poeta, mãe, nenhum de meus versos, por bonitos que sejam, conseguiria alcançar o valor e a beleza dos mais simples gestos de entrega sua, generosamente, em prol de minha existência. Lembro, à época pequenino, olhar em sua barriga a cicatriz da cesariana que me permitiu nascer e você me contando, sempre com os olhos marejando, das tentativas malsucedidas de gerar os que seriam meus irmãos mais velhos. Fui fruto do amor, da promessa (a si mesmo e à fé) e do medo, medo de perder-me para a fome e para os perigos da vida.

Já mais grandinho, vi-a ser abatida pela tristeza, afundada numa depressão que lhe fez perder, temporariamente, o gosto pela vida. Lá estive, e presenciei, mesmo fragilizada, rogar por mim, estar ao meu lado, cuidar-me, devotadamente. Amor de mãe, esse sim, não tem medidas e pude provar, sendo um pedacinho seu na terra, seu sabor, repleto de vida, expressão divina na terra da força que nos conduz todos a existir.

Nem sei como agradecer, tampouco saberei. Só posso lhe dizer, hoje aqui, que devo a você ser o que sou e o que conquistei. Se, sendo filho de trabalhadores pobres, estudei e persisti, foi em grande medida por que tinha ao lado uma mãe a me dar forças e me conter em euforias tantas. Se sou capaz de amar, é porque tive quem me desse a saber o significado desse sentimento e o mostrasse da forma mas sincera e pura a mim. Amo-lhe, assim como você me ensinou, com a intensidade recíproca de um filho. Sou-lhe grato pela vida que me doou. Parabéns por mais esse dia em homenagem à sua missão, Antônia Nezinha Gomes.

(publicado originalmente no O Povo: http://bit.ly/12vzI8z)

POR MEDO

Não dormi,
Com um medo insistente,
De que não acordasse,
Morresse,
E perdesse você sorridente.

Não dormi,
Com um chorar renitente,
Por perder a sua fala,
Ir-me sem mala,
Calasse-me definitivamente.

Não dormi,
Por uma semana inteira,
Até não resistir mais,
Veio o sono e me levou.

Três dias depois voltei.
E vi que perdi uma semana...
Trocando você pelo medo.

ADULTOS E CRIANÇAS

Adultos são crianças
Castradas pela morte;
Desnorteado, constatei.
Por horas, parei,
Fitei tal fatal corte.
O preço da vida
Alto tão me parece.
Sucumbi numa prece
Delituosa.
E segui,
Depois,
Esquecido,
Mais forte,
Até ela,
Criança.

E ELI ERA

Toda poesia já parece repetida.
Todo o verso se desencantou.
Os sentidos escorreram ontem
No gole de uísque que Eli vomitou.

Toda canção tem a mesma batida.
Todo carro o mesmo batido motor.
O choro foi ao esgoto pela pia;
Foi-se a certeza, nunca mais voltou.

E Eli era.
Perdeu-se na imensa morte.
Tenho a impressão
Que se jogou.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

INVEJA

Galileu
Ontem se perdeu
Tolo retardado
Todo enrolado
Olhando o nada
Que presepada!
Ah, vontade!
De queimar a luneta!
Descobriu outro planeta?
Perde tempo
Sonhando...
Melhor seria ganhar dinheiro!

LEDO NEGO

O telefone tocou
Não atendi
Tendi a negar
Renitente
Tudo o que perdi
E perdi o que tinha
Tentando
Matando a mim

O CHORO

Chorou,
Que escorreu
Pelo nariz
E pingou 
Bem
No meu pé.
A gota
Mais pesada
Que já vi.
Um mar
Naquela gota,
Encharcou
Minha coragem.
Pedi passagem
E parti.

(pintura de Tavares)

AFONIA

Um dia eu acordei e esqueci as letras,
Esqueci como que se falava,
Esqueci como que se entendia,
Esqueci como que se lembrava,
Esqueci como que se aprendia,
E, por um momento,
Esqueci também
Como que se existia.
E foi como se olhasse ao redor,
E dos olhos para dentro nada houvesse,
Qualquer ninguém para contar o que via,
Contudo não me desesperei, nem gozei...
Nem vi passar, nem sentei,
Sei lá onde fui parar!
Que bom que, agora, estou aqui,
Falando e inventando.

quinta-feira, 9 de maio de 2013

SUA ESCOLHA

Sua função é o que?
Sua razão, cadê?
Exótica ou moderna,
O futuro lhe reserva,
A sina do mundo,
Num ponto iracundo,
A escolha a fazer...
Tomara que o tempo dê.

Afinal,
Quantas árvores,
Esperanças, sonhos,
Irá plantar
Antes de seu neto
Procriar...?

Corre!
Vai lá ver!

DOIDO

Fitas avulsas
Soltaram-se ao céu,
Todas multicores,
Somam-se aos odores
De flores, abelhas e mel...

É festival.
Gente muita reunida.
Eu, à grama, jogado,
Olhando, vesgo, ao lado...
Só recordo a vida infinda.

E todo mundo me vê,
E finge que não,
É doido ou ladrão,
Ao léu largado.
Não me faço de rogado.
Nem os sei!

ELA E O POETA E ALGUÉM MAIS

Sorris, timidamente,
Enquanto escrevo,
E percebo que estás
Bem longe de mim
Quando estás assim:
Aérea e contente.
Lembro-me daqueles
Antigos jardins...
E temo,
Temo tanto
O tempo e o nada,
Enquanto você,
Impressionada,
Sequer me vê...
E jamais sei
Pra onde vai;
Deve ser longe...
Não me abandones
Nesses poemas fatais...

E canso dos versos,
Longe fui eu, demais.

(pintura de Roger De La Fresnaye)

PONTO VERDE

Um ponto verde
Na terra, o que é?
Uma alga fugida da maré?
A grama que trouxe em meu pé?
Ou a tenho em meu olho?
Escolho acreditar que está no chão...
É criação
Do
Nada.

PRECEITO

O preceito maior
Conto-lhe em segredo
Não se prenda ao arremedo
Da vida que querem lhe vender
Larga essa TV!

A todo lado Facebook,
Frases, discursos vãos,
Tudo, amiúde, o que vai valer?
Não vai se mexer?

E o banco esquenta,
Até esfriar...
Com o gelado medo,
Congelado sem amor,
Fica vendo a vida ir,
Todo a se lamentar...

PRETO E BRANCO

Preto e branco
Sento ao banco
Tento, toco, espio
Vida passa num fio

Preto ou branco
Sente o solavanco?
Já me arrepio
Andas tão arredio!

Preto no branco
Fiquei meio manco
Quero nenhum pio
Já tão novo já é tio?

Nem cor mais há...
Só lembranças soltas...

(pintura de Jeremie Iordanoff)

IEMANJÁ

Sujeito a todo defeito,
Lancei-me ao mar,
Sem sequer barco,
Com os braços a remar.
Pensei que lá me esperava,
Alva, prateada, Iemanjá.

Mas só vi água e sal
E não vi a ausência dela,
Só a ausência do ar...
Doei-me.

(pintura de Vanessa Lima)

CAMPANHA EM PROL DA MÍDIA LIVRE E ABERTA À PARTICIPAÇÃO E PLURALIDADE DO POVO BRASILEIRO

Em prol de uma mídia que respeite a soberania popular brasileira e esteja aberta a toda nossa pluralidade social e cultural, é que agora está circulando pelo Brasil folhas de coleta de assinatura para o envio do projeto de lei de iniciativa popular da campanha sobre o título: Para expressar a liberdade! Estou coletando assinaturas também, basta o número de seu título de eleitor e sua assinatura. Contribua você também.

Saiba mais no site oficial da campanha: http://www.paraexpressaraliberdade.org.br

YVY PORÃ PERMACULTURA - PAZES FEITAS COM A TERRA


Tive a grande honra de aprender com essas figuras o significado da ecologia vivenciada na prática cotidiana em sua radicalidade. Dentre nossos planos está o feitio de uma(s) unidade(s) demonstrativa(s) como essa em nossa região nestes anos vindouros, e difundir as técnicas e a ética permacultural, em comunhão com a Terra, por esse sertão afora. Confira essa grande iniciativa no vídeo acima. Conheça mais sobre permacultura no link: http://www.permear.org.br/

quarta-feira, 8 de maio de 2013

ANNA RATTO, NOVIDADES NA CENA MUSICAL BRASILEIRA

Com nome estranho, mais uma das jovens aparições da genuína música brasileira, Anna Ratto, desperta para a cena cultural nacional. Abaixo, interpretando uma música de Tom Zé. Quer mais? Acesse: http://www.annaratto.com.br/albums/anna-ratto/

EM BREVE, TALVEZ...


VISTA E PONTO

Meu ponto deu um nó
No seu. Já não sou só.
Minha voz se escurecera,
Mas depois se sucedera
De lhe amar...

Partilharei contigo
Nosso lar, nosso abrigo;
Admira-me teu sorriso,
Admito que preciso
De ti, ao luar.

Se vista comigo,
Vamos trilhar
Ponto a ponto,
De vista e mar.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

DESABAFO


Ah! Quer saber...?!

Só saia e se sacuda
Dessa preguiça caduca
Que lhe ensinaram!
O melhor só existirá
Se fizer de sua vontade:
Mudança, atitude
E sonho concreto!
Ou quer o deserto
Do medo e hipocrisia?!
Se a do outro não
For também sua a agonia,
Do que valerá estar
Inserido na redonda terra?
Do que valerão planos
E ambições tardias?
O acaso não lhe fez,
- anote! –
Pra andar sem norte,
Do deus-não-dará,
Invente sua trilha,
Boas companhias,
E uma boa razão pra trilhar!
E veja, bem à frente,
- anote novamente! –
Podem faltar trilhos,
E sozinho,
- que pena, Mané! –
O freio não anda,
Sequer um pé.
E aí?
Vai se segurar
Em seu bigode?

(pintura de Marilyn Manson)

quarta-feira, 1 de maio de 2013

DE AMIGO

Sussurrou-me ao ouvido
O vento uma canção
Contando da amizade
Que brotou em nosso chão.

Dizia-me:
Dá-lhe o recado.
Não murche,
Não entristeça.
Não há no mundo
Quem mereça
Abater-te e ferir.

Diga também sinceramente:
Sou-te irmão e estou contigo.
Se chorares e sofrerdes,
Saibas, tens ombro amigo.
Até que a vida, a vida plena,
Una-nos todos definitivamente.

Fiz as do vento minhas palavras.