terça-feira, 12 de março de 2013

A DUBADEIRA*


O homem saiu de casa antes das seis da matina. Enxada, machado e foice no ombro, facão e peixeira no cós e sonhos e ideias na cabeça. Pôs muito mato abaixo. Até onze e meia. Cortou capim, encheu os cambitos, socou bem e tangeu o jegue até a casinhola. As três reses magras já esperavam o refrigério.
  Comeram tudo, insaciavelmente! E ficaram com cara de quem queria mais. O homem também comeu seu baião-de-dois enriquecido com toucinho e raspa de rapadura. Depois bebeu muita água. Após isso deitou-se meia hora. Levantou-se num pulo, pegou toda tralha de novo e sumiu na vareda! Trabalhou e trabalhou! Até ficar com desenhos de sol e sal nos ombros. O sol e sal da dignidade! Cinco e meia da tarde ele parou... pra começar. Puxou o jegue de novo e encheu os ganchos de madeira de capim-de-planta. Rumou pra casa com as entranhas embolando-se. O gado estava na porteira, com cara de quem queria devorar o mundo! E devorou o pouco que o homem havia trazido. Em pouco tempo.
 O valente homem entrou em casa. A mulher estava arriada, junto ao pilão. Como ele também estava uns cacos, desabou também. Chamego? Nem pensar! Foi dormir, pensando: amanhã terei que acordar cedo, para começar tudo de novo! Terei nova dubadeira! Até quando?

 * Dubadeira - trabalheira

João Teles - no Coreausiará

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