domingo, 31 de março de 2013

PRESENTE DE PÁSCOA AOS LEITORES

Você que acompanha essa humilde coluna pode concorrer agora a um exemplar de nossa primeira obra em parceria com o companheiro blogueiro Eliton Meneses: Veredas Sinuosas - poesia e prosa. Basta enviar um e-mail, até hoje meia-noite, para o seguinte endereço, solicitando participação: beneditogr@hotmail.com

Após o sorteio, entramos em contato para entregar o presente. Sempre grato aos que nos acompanham! Feliz Páscoa! Paz e luz!

À ROSA

Rosa ferida,
Não chores.
Encorpe tuas pétalas,
Jamais os espinhos;
Que o mundo lhe fez pra amar,
Viver, dançar, sorrir...
E mesmo que chores,
Que seja pra regar
Tua ternura,
E crescer tua graça,
Por aqui,
Por onde passar.

sexta-feira, 29 de março de 2013

DOMÉSTICA, ENTRE OS BENEFÍCIOS DA LEI E OS PERCALÇOS DA VIDA

Na tarde de 27 de março de 2013, fomos surpreendidos por algo histórico para o Brasil, quando aconteceu a aprovação por unanimidade no Senado Federal do projeto de lei que regulamenta as relações trabalhistas dos serviços domésticos. Podemos considerar um grande avanço para um país que se afirma como Estado democrático.

Na aprovação da referida lei, vemos um reparo histórico para uma ocupação colocada à margem da sociedade, até muito recente não reconhecida profissão. Por isso, quando não se podia definir a profissão de uma mulher, sobretudo no meio rural, dizia-se e ainda se diz ser doméstica. Assim, ocorre o registro para declarar profissão, requerer o título de leitor, casamento civil. Atualmente, isso tem provocado muita contradição entre ser ou não ser doméstica, principalmente para as que desejam requerer como segurada especial da previdência, para o beneficio de aposentadoria ou licença maternidade.

O Brasil tem sido benevolente, a partir da Constituição de 1988, onde muitas conquistas e direitos decorrem de um Estado que vivencia sua experiência de democracia. No entanto, a sociedade brasileira convive com estrutura dominante de resquício feudal, uma elite que pouco ou nada faz para reduzir as desigualdades sociais, considera que tudo é responsabilidade do Estado, do governo; temos uma educação que privilegia os privilegiados, a exemplo dos que estudam nas universidades públicas brasileiras em cursos de grande relevo, ainda temos uma das maiores carga tributárias, que muito cobra e pouco retorna a sociedade.

O processo de dominação das domésticas tem origem no Brasil escravocrata, fortalecido pela estrutura fundiária e pela não universalização da educação. Então, somos um país de leis avançadas, mas a legislação enfrenta muitos obstáculos para se tornar realidade, como a baixa funcionalidade dos aparelhos técnicos, jurídicos, burocráticos e até éticos. Com isso, temos pouquíssimo controle, fiscalização no exercício da lei.

Portanto, para que exista funcionalidade da lei de beneficio às domésticas, vários elementos precisam funcionar, pois temos exemplos de legislação importante que não consegue responder os desafios, uma vez que a abertura para a ilegalidade é muito maior. A referida lei é de um impacto social enorme, no entanto a estrutura pública precisa ser mais eficiente, com aplicação de vários mecanismos que facilitem a aplicabilidade, do contrário estaremos apenas fortalecendo a informalidade das empregadas domésticas que agora passa a ser ilegal.

Nessa mensagem, quero homenagear um grupo de seres humanos muito importantes na sociedade brasileira, uma posição ocupada na sua grande maioria por mulheres. Nossa gratidão, respeito àquelas: que de forma prática, misteriosa e no anonimato cuidam de todos, dos teus, dos nossos filhos; escutam todos os segredos, mas não falam nada, a primeira chegar, a última a sair do trabalho, recebem os menores salários, a ausência de horas extras; cuidam dos meninos como mãe, tia e avó e às vezes enfrentam a invasão de valores éticos e morais, a acusação e vivência do assédio sexual. A lei das empregadas domésticas é apenas mais um motivo de luta pelos direitos e a necessidade de se tornar realidade.

Benedito Lourenço
Graduado em Filosofia, presidente da Fundação CIS (Coreaú-CE)

quinta-feira, 28 de março de 2013

MAIS DE 11 VOLTAS AO REDOR DO MUNDO

De domingo a domingo, todos os dias do ano, com exceção somente da sexta-feira santa e eleições, Gerardo Gomes Rodrigues, 50, que atende simplesmente por Gerardo Padeiro, acorda às 3h da manhã e se prepara para vencer mais uma vez a estrada. Mora na pequena cidade de Coreaú (CE) e vende pães há 18 anos na vizinha Moraújo (CE), distante cerca de 10 km de sua residência. 

Não existe tempo ruim; faça chuva ou sol, doente ou sadio, a velha bicicleta bagageira o aguarda no frio da madrugada. Demanda coragem ganhar a vida. 

O caminho já faz parte dele. Conhece cada trecho de olho fechado. Foi lá que já foi assaltado, pegou fino de carreta, conheceu mil formas de a bicicleta dar prego e fazê-lo ter que empurrá-la até onde desse... 

Chegando ao destino, todos o conhecem, de ponta a ponta da cidade. Para alguns, um sofredor, para outros, no entanto, um lutador, gente simples que peleja diuturnamente por sua dignidade. Para se ter uma noção, somando-se o chão já pedalado, seria suficiente para mais de 11 voltas ao redor do mundo.

Levando pão para toda uma cidade é que tem conseguido trazê-lo para sua casa. Hoje, orgulha-se de dizer que seu filho não terá que sofrer o mesmo; através do SiSU, em 2011, conseguiu ser aprovado em Psicologia na Universidade Federal do Ceará (UFC) - campus de Sobral.

Um brasileiro, com sangue sertanejo, como tantos, que ergue sua vida ao custo de suor e da resistência. Desistir? Só quando as pernas não mais aguentarem...

terça-feira, 19 de março de 2013

ABRUPTAMENTE, DOAR-ME...


Enamorei-me com a ideia de te ter,
Em meus braços um dia a mais,
E o quadrado do quadrado de meu amor,
Esse sim será teu, no apogeu de nossos anais.

Aprendi a dizer-te assim:
Abraça-me, abraça-me!
Faz parte de mim.

ÁGAPE

Encare o céu imenso, repleto de estrelas!
Quem és tu?

Encare o poder da natureza, as cachoeiras!

Quem és tu?

Encare a grandeza do mundo e tua pequenez!
Quem és tu?

Encare a eternidade e teus poucos dias!
Quem és tu?

Encare teu irmão, veja as agonias!
Quem és tu?

Verás que és pequeno,...
Tão pequeno quanto o grão de areia,...
Bem menor do que pensas ser.

Como crescer?
Cresças com os outros.
Sereis em irmandade,
Sincera solidariedade,
Tanto mais quanto queiras.

A arrogância é cegueira.
Ágape reduz a fronteira
Entre ti e o devir.

(pintura de Érico Santos)

LOURO LEMBRADOR


Velho louro do remoto lugar,
Aquele mesmo onde tu
Tanto insistiu pra voltar,
Soltou-me uma nova outro dia,
De repente, falou de Sofia,
A moleca que lhe perdeu.

Sucedeu-se então, no reino,
Uma nova alusão ao termo relembrar,
Contudo, não procure a ermo.
Bem que tu cogitaste, em vão,
Pegar o trem, rumo à paixão,
Pra um terreno já antigo,
Meu amigo, já se foi hora,
Já era, não dá, foi embora,
O louro ainda falou: - casar.
Aí doeu, bem mais.

(pintura de Alfredo Volpi)

PECULIAR

Espinhou-se com a flor que colhia,
Nem por isso a deixou de colher.
O sangue que escorreu do dedo
Era claro, voou do vento a mercê,
E respingou justamente na rosa,...
Tão pomposa era ela,
Nem deu pra ver.

Na serra fresca a este período,
Dava-se uma brisa suave,
Semelhante às vestes das mulheres,
Leves como plumas d’ave.
Mesmo o suor do cansaço
Não bastava para lhes ferir a beleza,
Que o momento lhes enchia
De sincera e evidente sutileza.

Nestes sonhares,
Reminiscências,
Renascimentos de tempos idos,
Vejo as imagens,
E me apercebo,
Há lembranças de tempos
Há muito vividos.

Onde estive?
São-me tão peculiares...

(pintura de Érico Santos)

FALANDO NA CHUVINHA LÁ FORA...

IMPROVISANDO...

Faceira, piscou pra mim,
Enquanto eu passava,
Tranquilo, me sentindo ao saber
Ser notado por ela.

Ixe!
Tropecei e cai...
Que vexame!
Pensar rápido!
Seguir!

Ajuntei ao lado a folha do aguapé,
Sacudi a poeira e a entreguei.
Sorriu pra mim...

De resto, a estória fica por conta da imaginação.

1ª CARTA AO FILHO

Meu caro filho,

Ainda fico a me perguntar se já caiu a ficha de que serei teu pai. A resposta é evidente, e vem a reboque da enchente de mudanças que o anúncio de tua vinda já tem provocado em nossas vidas. Sempre defendi: os melhores presentes são os de surpresa. A gente tem de se organizar para recebê-los, cuidar do terreno que irá fazê-los frutificar.

Mal aguento esperar a tua chegada, nosso primeiro encontro, em que poderei matar a curiosidade sobre como tu és, fitar teus primeiros sorrisos, engatinhares, passos, palavras... Desejo que sejamos, acima de tudo, companheiros nessa terra insensível, para nela semear algo novo e com ela evoluirmos, aprendendo com tudo o que a vida nos puder oferecer. Não tenho quase nada para ensinar, mas podemos construir algo grande juntos.

Há muito para ser feito, filho, porém tudo nos será dado, assim como você, a seu tempo. O que importa, acima de tudo, é que já te amamos, e te amaremos mais, enquanto houver porvir.

Que você venha até nós, pequeno pedaço da graça de Deus, e nos traga sua luz!

De seu pai.

segunda-feira, 18 de março de 2013

MARCAS

Rugas,
Quantas há de vir?
E quanto legarão?
Será que valerão?
O que será de mim?

Vai-vem,
Não contes com os dias,
Que não te sejam,
E cada calo,
Menor que esteja,
Valerá.
Ou não...
Dependerá.

A escola é infinda.

ADJETIVANDO

Confuso,
Perdeu-se num tempo incerto.

Incoerente,
Prometeu-se demais, nem lembrou.

Carcomido,
As ilusões, de todo não foram tolas.

Deprimido,
O choro não foi em vão,...

Renascido,
Permitiu-se, perdoou-se, preenchido...

LIVRO AUSENTE

Estante vazia:
Cheia de saudosismo
Do livro empoeirado,
Que dantes a habitava.

E naquele livro havia
Uma estória contada,
Folheada pelo menino.

Abriu-a certa vez,
A mando do pai,
Tossiu e leu, aprendeu...

Um livro que não volta mais.
Ao que não se foi,
Ficou, ali, com o menino...

PROQUÊ ROMANTISMO TAMBÉM VALE

Tanto romantismo jogado ao relento,
Tanto discurso sem prática,
Muito menos comprometimento,
Porque, se o amor nos faz humanos,
Ame qualquer um, ao menos por um momento.
Mas saibas que amar é dar-se,...
Trazer pra si o outro e ser com ele(a),
Muito mais – solidariedade,
Coisa de qualquer idade, ou tempo.

QUAL A PISTA

Miro e pasmo:
Tanto caos
Nos arrabaldes desde o cosmo...!
Tudo posso se no passo
Que me faço me arremesse
E me impulsione na meta
Trans-atleta duma pista nova.

A pista está no inefável,
No futuro,
No ar...
Sei lá!
É como se estivesse...

BANHO DE CHUVA

O trovão amedronta, mas anuncia.
O escurecer é estranho, logo de dia.
Prefacia-se nova anunciação.
O moleque se estica na meia-porta;
O outro já sobe na janela;
Mãos nas fontes,
Todos à espera...
Há de chegar: chuva farta.

Zoada nas telhas, gostosa frieza.
Logo engrossa, escorre pelas biqueiras.
A animação se segue.
É menino de um lado pro outro...
De bicicleta, a pé, de qualquer jeito...
Até velho não se segura e vai correr.
Grito, mangação, empurrão,
Sobretudo, muita lama...
Pra sujeira, ninguém liga.
O que importa é a vida.

Fios mágicos,
Presentes,
Animo no sangue,
De nossa gente.
Que ressuscita
Ao saber da morte
Da Seca.

E de braços abertos,
Só resta agradecer.
Fica a sensação
De ter vivido aquilo antes,
Doutra forma,
Noutro ser;
Sente-se Deus.

domingo, 17 de março de 2013

CAMINHEIROS NÓS, SERTANEJOS À ESPERA DE CHUVA

O sol já se escondia por detrás da nuvens e o sertanejo, magro e pobre, entoava seu canto:

Vede!
Olha como a terra está verde!
Não há mais lugar para a sede.
Não neste meu torrão.
Não neste meu torrão.
Não!

A vida encanta a gente que canta a alegria de nela aprender, passear e correr. Caminheiros nós, façamos a esperança, no grito e no louvor. Cada dia é mais.

ENSAIO DE UM CÃO E A VIDA

Adalberto, ao abrir a porta da casa na manhã fria daquele inverno (passara a noite chuviscando), deu-se com a presença de um novo visitante, que se tremia todinho, sem mal ter forças para latir.

- Donde viera aquele cachorrinho? –pensou Adalberto – Uma coisa é certa, está passando bastante frio! Não posso deixá-lo aqui.

Chamou Isabel, sua esposa. Isabel largou os pratos que lavava, enxugou as mãos e correu.

- Veja. Temos um novo hóspede agora... Talvez Maria Rita goste dele.

Dito e feito, quando Maria Rita acordou, indo atrás de sua mãe para lhe dar um café, viu ao canto, surpresa, aquela bolinha de pelos (já enxuta).

- Mãe, que coisinha é essa aqui?

- Ora, Maria Rita, é seu mais novo bichinho de estimação.

- Não acredito! Noossa, que bom! Nem imaginava que teria algo assim me esperando de manhã. Ele tem nome?

- Ainda não. Batize-o, já que é seu.

- Hummm... Acho que como ele cinzentinho, e com umas bolinhas pretas aqui e acolá, lembrou-me baião. Que você acha, mãe, Baião, para nome de cachorro?

- Inusitado! O cachorro é seu... Você que sabe.

- Então, vai ficar Baião mesmo. Viu, cachorrinho? De agora em diante, chamar-se-á Baião, e será meu fiel escudeiro nas brincadeiras do quintal e noutros campos mais de batalha.

- Agora que batizou o cachorro, guerrilheira, venha tomar seu café. Depois você pode começar a treinar seu fiel escudeiro para as “aventuras”...

Maria Rita animara-se com aquela novidade. Nunca tinha pussuído um cachorro. Via na TV crianças brincarem com eles e pensava se com ela seria legal também daquele jeito. Só que aquele ainda era muito frágil. Novinho, pequeno, delicado... Para ser um verdadeiro guerrilheiro e correr com ela, dando suporte na retaguarda durante as expedições ao quintal da mãe e da vovó Nita, teria de aprender a ser esperto e crescer para ficar robusto. Quem sabe ele não ficasse grande o suficiente para se tornar, por vezes, até cavalo de Maria Rita? Como os cachorros têm quatro patas, eles podem correr bem mais rápido que nós (que temos somente duas) e ela poderia, assim, fugir muito mais facilmente de alguma possível emboscada, montada em seu escudeiro grande e forte. Entretanto, isso era só sonho, por ora, e até Maria Rita – sonhadora de plantão, e nada mais natural – sabia que teria muito trabalho pela frente, ao cuidar do presentinho que caíra no alpendre de sua casa naquela manhã.

Os dias passaram naquelas férias de verão. Baião crescia rápido. Maria Rita temia que pouco tempo não coubesse mais na casa, que era baixa. Se continuasse em tal ritmo passaria da altura de seu pai (um gigante) cedinho. No entanto, sua mãe Isabel explicou que ele não cresceria para sempre; haveria de parar quando estive mais ou menos de sua altura. Um alívio para Maria Rita... Menos uma preocupação para aquela cabecinha, que nem sabia direito o significado dessa palavra tão complicada: invenção dos adultos, sempre preocupados com algo.

Baião endureceu as perninhas. Mal percebera e já corria pela casa, vez ou outra deixando um presentinho para a mãe dela limpar. Maria Rita corria com a mão no nariz:

- Mãe, de novo! O Baião “coisou” a sala toda. Que horror! Cachorro feio!

- Maria Rita, você tem de ensiná-lo a fazer lá fora.

Ele aprendeu. E nem demorou... Maria Rita, mesmo em ritmo menor que ele, crescia e ia aprendendo coisas novas nas expedições. Seu escudeiro já a acompanhava; e quando era para sair nelas, parece que se animava mais que sua líder. Com ele, Maria pôde descobrir que no quintal de sua avó havia um enorme formigueiro, e que não era legal mexer com formigas, pois mordiam. Ficava abismada com o trabalho delas. Como, pequeninas, conseguiam juntar tanta terra? E seu pai lhe contou que por dentro havia túneis e túneis, muito compridos, e entrecruzados, que eles faziam para morar; disse também que elas tinham rainha, soldados, operários, que nem os adultos. Maria ouvia atenta e quando foi expiar nas vezes seguintes, prestava ainda mais atenção, e imaginava como devia ser crescer com milhares de irmãos, assim como as formigas. O cachorro, calado que nem ela, parecia partilhar da estupefação. Aquele cachorro tinha sido feito para Maria Rita.

Mais aventuras vieram. Maria Rita aprendeu a subir em pé de goiaba, para comer fruta fresca, e viu como era muito mais gostosa assim. Pena que cachorro não coma fruta. Ele bem que tentou. Lá no pé de goiaba um dia surgiu outra novidade, um ninho de passarinho. Maria Rita (sempre com seu escudeiro) ia lá sempre que conseguia e se escondia atrás de uma moita para assistir a mãe passarinho que trazia gravetos para montar a casinha; Baião sempre dava um jeito de estragar o esconderijo, coçando-se e espantando a observada. Depois de construído o monumento, subiu na goiabeira e, para sua surpresa, Maria Rita encontrou dois ovinhos, branquinhos, lindos. Soube que daqueles ovinhos sairiam novos passarinhos, que colocariam novos ovinhos, que trariam mais pássaros, que colocariam mais ovinhos, e assim se daria para sempre.

- Será que eu também nasci de ovinho? – pensou Maria Rita não só uma vez.

- Não, filha, nasceu de ovinho não. Eu sou nem galinha! – explicou Isabel à filha.

- E como eu vim parar aqui, então?

- Quando você for maior, a mãe conta, tá bem?

Maria Rita ficou maior e recebeu a explicação, tanto da mãe quanto da escola. Infelizmente, aquilo não bastava para ela. Contavam-lhe o “como”, mas mal esboçavam o porquê. Sua mãe ainda contara de uma Papai do Céu, que aprenderia a amar, porém tudo era muito vago.

As expedições continuaram durante anos. Baião, que não ficara realmente do tamanho da casa, nem sequer do tamanho de Maria Rita, acompanhou-a sempre. Ela partilhava suas reflexões com Baião. O cão permanecia absorto, com a língua de fora, arfando, e ouvindo atentamente. Era um confidente, um amigo fiel, um protetor, um brincalhão.

Baião foi um bom amigo, sempre. Assim como acompanhou Maria Rita nas primeiras descobertas pueris, no fascínio daqueles tempos, esteve com ela na arrogância da adolescência. Latiu, impaciente com as discussões dela com seus pais, pois queria ir para as festinhas com as amigas e eles achavam cedo demais para isso. Estava ao lado dela no seu primeiro namorico, não muito frutuoso (por sinal), o rapaz feriu as ilusões de Maria Rita. Baião esteve lá com ela também quando o choro ensinou, e aprendeu com ela, mais muito mais ela aprendeu com ele (taciturno e paciente).

Chegou um dia em que Maria Rita se arrumava para sair de casa rumo à escola. Sempre Baião a acompanhava até as proximidades de lá, sem precisar chamá-lo. Naquele dia não. Maria Rita caminhou. Passou a porta, o alpendre, a calçada, o calçamento inicial da rua... Cadê Baião? Não se sabe. Ao perguntar por ele para a mãe, recebeu a resposta de que não se sabia. Ninguém sabia, nem vizinhos, nem seu pai, sua avó. Ninguém absolutamente. Maria Rita se preocupou, entretanto nutriu a esperança de que mais cedo ou mais tarde ele reapareceria. Passou-se um mês e Maria Rita ainda se lembrava dele, e nada dele reaparecer.

Maria Rita preferiu acreditar que para Baião não bastava mais ser escudeiro, agora ele mesmo seria o líder de sua própria aventura, escrita por ele. Já daquela idade, era bom ele se libertar, aprender coisas novas num mundo que Maria não oferecia. Dessa viagem pros dias de hoje, Baião continua pelo mundo, sabe-se lá qual. Maria Rita? Lembra-se dele ainda, hoje já mulher, pois eles eram unido bastante. A memória não é mais a mesma nem a tristeza também. Um viajante se foi, tão logo quanto veio, e Maria Rita descobriria depois, com o passar dos anos que lhes foram ofertados (sabe-se lá por quem direito) que isso era uma constante, bem dolorosa: os viajantes chegam do nada, e para o nada tornam, repentinamente, sem dar satisfação. Se é que mesmo o nada. Creio que não. Mas aprendeu também nos balaços de cauda de Baião e no brilho de seu olhar, que o que vale na viagem é o aprendizado que se produz, e nos produz como somos: viajantes etéreos e eternos (enquanto dure e após).

sexta-feira, 15 de março de 2013

DISCIPLINAR DA IDADE

O chinelo largado,
De tiras de couro,
Já tão calejado,
Lá solto...

Bengala à cabeceira,
Chapéu de palha,
Faca peixeira,
Bainha enfeitada.

Cedo matina,
Levanta calmo,
Escarra, conversa,
Balança-se e reza.
“A bença!”
“Deus te dê paz!”

O velho arquejar,
Papo solto,
Irreverente...
Altas gaitadas...

Olhar tão seguro,
Ternura no siso.
A ampulheta ensinou
Todo e mais...

Disciplinar...

quinta-feira, 14 de março de 2013

PIPA VAI

A pipa pipocada de cores
Esvoaçou no céu, tranquila.
Escutei rumores de seu paradeiro,
Nas terras distantes doutra vila.

Levou com ela mensagens,
De paz, acordo, infantil sonhar,
Dum menino que nem eu,
Atrepou sua esperança no ar.

Eu, com efeito, observo o céu,
Ante a vida daquela simples pipa,
E ouso me ver em seu lugar...
Um dia talvez...

(pintura de João Werner)

RENOVAÇÃO

Renovação sem perdas... Não há!
Acaso já vistes algo se erguer sem mudar?
Renunciei, não poucas vezes
O que outrora já tanto valeu.
O tempo partiu, e no ardil,
Nem a memória susteve...
Corroeu!

E o remorso?
Esse troço?!
Esse sim!
Corroa, tempo!
Renove-o!
Renuncio
Até o fim!

Em que algo nunca mais será o que foi, já sendo.

HEDIONDO DESDÉM

Desdenhou?
Já passou o trem...
E não dá,
Não cabe mais ninguém.
Se tu queres,
Ainda sim,
Repensar,
Olha lá:
Pedras e porcos
Olhos tortos,
Nada mais!

E tu, o que faz?
O jeito,
Indefinido,
É ir!
Te restam ainda,
Quiçá, agora,
Possibilidades reais,
De velejar,
Vento afora!

Pra onde vai?
Só Deus...
Que não desdenha,
Nem age com desfarçatez...

FAZENDO-ME CÁ AGORA

Uma gota se espraia no fino terreno da tal emoção.
Noção ampliada,... não faz mais sentido a mera razão.
As pedras se debatem na tênue lagoa,
Corre o tempo, o vento me destoa!

Vem, poeira!
Tu que és o que sou...
Mostra-me,
Assim serena,
Pra onde vou,
Andando cá.

O destino espera,
Fazendo-o já!
E fui-me
Nem tão só!

CONVERSA DE ALPENDRE

Zé, estava deitado na sua velha e companheira fianga, quando seu vizinho de cerca, o Cazuza, passa e arenga: Zé, tu não cansa de estar deitado nesta pobre rede? Zé responde: É melhor estar deitado no meu alpendre do que me incomodar com a vida dos outros... Calma, Zé. Só estou proseando contigo!…E, Continuando a prosa....Zé como está o churrasco? Que churrasco? Só se for churrasco com carne de calango! Pois nesta situação (de seca terrível) carne só se for nos rabos deles... Até suas costelas estão aparecendo! Zé tu estás tão bruto hoje! Estou falando da escolha do Papa! Da fumaça saindo da chaminé! Até agora só se vê fumaça mesmo... Há!!! Cazuza, tu não sabe? O Papa já foi escolhido! Será um Argentino... Você está brincando! Já tem o Maradona e o Messe para eles tirarem sarro com os brasileiros...E, agora, também o Papa?!!! Zé, será que este também vai suportar as tramas ocultas existentes na Casa de São Pedro? Espero que sim, Cazuza. Temos que separar o trigo do joio. A igreja não prega a pedofila... Alguns representantes é que são pedófilos. Zé, você não acha que os padres deveriam poder casar? Claro! Concordo com você. O celibato tem que ser abolido! E não só o celibato, mas também, outros dogmas da Igreja Católica têm que ser revistos para o bem da existência dela. Zé, existe é uma comercialização da fé! E, Cazuza... Não é só na Igreja Católica não! O que se vê nos programas de televisão é a busca incessante de dinheiro pelos “Pastores” Evangélicos... Temos que ter em mente, que a Igreja somos todos nós! Só por sermos “seres humanos”, isso já nos credencia a sermos pecadores... E por estes pedados o homem de Nazaré foi crucificado... É Zé, a conversa está boa, mas vou procurar o que fazer. Se é que tem! Cazuza, quem procurar acha! Quando o problema tem solução, não devemos nos preocupar e quando não tem solução, só nos resta é ter paciência... E assim com a falta de chuva... Não adianta ficarmos preocupados... O jeito é deitar na fianga e esperar a chuva chegar...

Carlos Teles

terça-feira, 12 de março de 2013

A DUBADEIRA*


O homem saiu de casa antes das seis da matina. Enxada, machado e foice no ombro, facão e peixeira no cós e sonhos e ideias na cabeça. Pôs muito mato abaixo. Até onze e meia. Cortou capim, encheu os cambitos, socou bem e tangeu o jegue até a casinhola. As três reses magras já esperavam o refrigério.
  Comeram tudo, insaciavelmente! E ficaram com cara de quem queria mais. O homem também comeu seu baião-de-dois enriquecido com toucinho e raspa de rapadura. Depois bebeu muita água. Após isso deitou-se meia hora. Levantou-se num pulo, pegou toda tralha de novo e sumiu na vareda! Trabalhou e trabalhou! Até ficar com desenhos de sol e sal nos ombros. O sol e sal da dignidade! Cinco e meia da tarde ele parou... pra começar. Puxou o jegue de novo e encheu os ganchos de madeira de capim-de-planta. Rumou pra casa com as entranhas embolando-se. O gado estava na porteira, com cara de quem queria devorar o mundo! E devorou o pouco que o homem havia trazido. Em pouco tempo.
 O valente homem entrou em casa. A mulher estava arriada, junto ao pilão. Como ele também estava uns cacos, desabou também. Chamego? Nem pensar! Foi dormir, pensando: amanhã terei que acordar cedo, para começar tudo de novo! Terei nova dubadeira! Até quando?

 * Dubadeira - trabalheira

João Teles - no Coreausiará

segunda-feira, 11 de março de 2013

UM DESABAFO!

HELP, HELP, HELP! ESTAMOS EM GUERRA!

"Cheguei há pouco do meu plantão no Frotinha. Nunca vi tanta violência! Todo jovem que quiser ter uma arma de fogo tem. Cada plantão é pior que o outro. Cansei de ver tantos jovens morrendo, tantas vidas se indo. Cansei de ver tantas mães gritando desesperadas ao ver o filho ou filha morto(a). Tive vontade hoje de deixar o plantão e ir embora para viver sozinho no alto de uma montanha. Estou pensando seriamente em deixar a medicina, ou mudar de especialidade! Chegamos ao fundo do poço! Não quero mais ser cirurgião de emergência. É de instante em instante chegando ou paciente grave, vítima de acidente de moto, ou paciente também grave com várias balas no corpo. Já gritei muito, às vezes, reconheço que falo demais, sou chato, mas ninguém faz nada. Cadê as autoridades do nosso País? A impunidade continua! Pessoas que deveriam garantir segurança, aumentam a insegurança; não tem políticas públicas voltadas para saúde e nem para a educação; as injustiças sociais aumentam; a força do dinheiro continua cada vez valendo mais que os verdadeiros valores universais; as pessoas continuam competindo por coisas inúteis; os fins continuam justificando os meios (como dizia Maquiavel, há 500 anos); a mentira vale mais que a verdade e a vida continua nada valendo. Hoje à tarde nós (os três cirurgiões da equipe) operamos um jovem de 20 anos com 4 tiros no corpo, que também já tinha sido operado por ter sofrido agressão por arma de fogo, há pouco tempo. Tem uma frase famosa que diz que quando os pais passam a enterrar os filhos, é porque estamos vivendo em uma guerra. Cansei de toda semana ver jovens vítimas da violência morrer sem nada ser feito e a sociedade só sabe falar, comentar e nada de prático faz. Vivemos na 13ª cidade mais violenta do mundo! É só ver os jornais da semana que passou. São Paulo tem quase 5 vezes a população de Fortaleza e uma violência bem menor! Em janeiro último foram 163 homicídios em Fortaleza contra 109 de São Paulo. Já nos acostumamos com a violência e parece que estamos vivendo em plena paz. A partir de hoje vou repensar minha vida e se conseguir fazer alguma coisa diferente vou desistir de ser médico. Cansei, cansei, cansei! Estes FDP que deveriam fazer alguma coisa para diminuir a violência e promover a paz, nada fazem. Tenho 3 filhos e não sei como garantir segurança para eles. Nossos jovens estão morrendo e só nos resta apelar para Deus. Desculpem mais uma vez o desabafo! MAS A VIDA NÃO VALE MAIS NADA."

 (José Maria Pontes, médico, petista, presidente do Sindicato dos Médicos e ex-dirigente do UJF)

COREAÚ: SAÍDAS SINTOMÁTICAS

Uma gestão no modelo (não posso dizer cópia, que ofende) de Sobral na Educação tem topado em pedras em Coreaú. Explicação: de baixo pra cima não dá! A saída de pessoas estratégicas é sintoma do aviso prévio da nova secretária, segundo o que os professores afirmam, não se iria demitir ninguém, mas haveria quem pedisse demissão! De fato, a lista tem crescido e muito rapidamente... de desistências e de reclamações. Os que saem, entretanto, exoneram a prefeita de responsabilidade.

O estilo linha dura bate de frente com a morosidade rotineira das gestões anteriores, porém fico cá com meus botões a pensar melindrosamente... O que ocorre que não sabemos? As cobranças são muitas e rápidas, e a estratégia mais adequada a ser adotada num momento desses não é de culpabilização dos educadores, mas de incentivo para que se empenhem. Depois de atrasos salariais, os professores ficaram com o débito no comércio local, passaram por um aperto que só quem vivenciou sabe dizer o que é. E mais, sejamos francos, pra se cobrar o que se cobra em Sobral, dê-se o mesmo que eles em incentivos. Nos cargos de confiança, nota-se, a "seleção natural" será contundente, tomara que justa e eficáz.

Dizer que a gestora não tem nada a ver dá a entender das duas uma: ou trata-se de desavenças pessoais entre os sujeitos envolvidos ou existe receio de criticar a gestora. Bem se sabe das reminiscência das chagas de arrogância abertas faz tempo. Queríamos, nós coreauenses, que isso ficasse pro passado e que a gestão represente mudança, mas não daquelas feitas com trator. Assim como eu pessoalmente quero ver essa mudança na Agricultura e Ação Social, ao que a política barrou. Mas não vou fuçar onde não devo por ora, senão vão dizer que sou da turma do contra.

"O tempo é pai da verdade", já asseveravam os sábios antepassados! ...e só torço pelo melhor.

domingo, 10 de março de 2013

TÃO SOMENTE GRATO

A areia escorre na ampulheta e a seguro, trêmulo, entre as minhas mãos. Não sei se medo... Cada grão que escorre e se debate com seus semelhantes parece tinir o ar que falta. E não sei! O mais angustiante é que não sei,... não sei de quase nada. E o que sei, seja lá o que for, verdadeiramente, não vale tanto quanto queria eu que valesse, porque não são poucos os instantes em que me apercebo: pequeno, frágil, soberbo! Numa finitude absurdamente incompreensível, o único sentimento que faz algum sentido é o de gratidão por poder viver algo. E sou-te grato, Deus, onde quer que você esteja; ouvindo-me ou não!

sexta-feira, 8 de março de 2013

BALANÇANDO A CUIA

Zé Bedeu deitado em sua fianga no alpendre: “Com a boca escancarada cheia de dente esperando a morte chegar” - como dizia Raul Seixas. Isto por não ter nada a fazer, por falta de chuva. Zé não é uma pessoa letrada, mas é bastante antenado aos acontecimentos políticos, graças à TV parabólica que chegou e ligou o penadubence ao resto do mundo. Dona Zefa, sua esposa, tem, em um dos seus afazeres domésticos, a tarefa de alimentar as galinhas que andam freneticamente pelo terreiro à procura de algo para comer. Nessa hora, basta chegar com a cuia de milho e balançá-la que todas as galinhas correm para perto dela... Zé vendo esta cena gritou: Cazuza vem cá! Quero te mostrar uma coisa! (Cazuza é seu vizinho e parceiro de parabólica.) Cazuza resmungando levanta-se da fianga e atende ao chamado. O que queres homem? Me deixa dormir... Estava sonhando com chuva e plantação! Zé emendou: Vem cá preguiçoso! Vem ver tua comadre Zefa dando comida às galinhas! Veja Cazuza, basta ela balançar a cuia de milho que todas as galinhas correm para comer. Cazuza exclamou: Zé, tu acordou-me só para ver a comadre dando milho às galinhas? E Zé, responde: Lógico que não! “Espia”... Lembra quando estávamos assistindo o jornal e o repórter falou que o vice-líder da Assembleia agora era outro? Aquele mesmo que anteriormente fazia oposição na tribuna? Ah Sim... Zé, agora captei a sua mensagem! Assim como acontece com as galinhas, acontece no meio político! Basta “se balançar a cuia” que “as galinhas” vêm correndo... Tu já pensou Zé, se este “milho da cuia” fosse destinado para solucionar os nossos problemas estruturais aqui na zona rural? Com certeza não estaríamos padecendo como agora... Então, Cazuza, de uma vez por todas, aprende a escolher os teus representantes! Somente assim, acabará o “balanço da cuia” na chamada às galinhas, no meio político.

Carlos Teles

terça-feira, 5 de março de 2013

SOBRE O ESPETÁCULO DA ELEIÇÃO DA ADECA, EM ARAQUÉM

O bom senso já é o bastante, senão vejamos!

Chega o tempo de renovar a diretoria da associação comunitária que gerencia recursos financeiros recolhidos do povo pra manutenção do serviço de distribuição de água em Araquém, a Adeca. É necessária uma eleição. Porquanto, divulga-se a data; chega o dia e a eleição é adiada. Motivo? O povo não compareceu. Por que será? Não há aí a evidência de descrédito perante o aspecto inerte da entidade? Contudo, ainda se está num nível compreensível...

A segunda data chega e novamente o povo vai votar. Enfrenta o sol escaldante da tarde de domingo e fica esperando quase uma hora; enquanto isso, a impaciência cresce. O horário divulgado foi 15h00. E o tempo corre... 15h15, 15h30, 15h45... Nada! O tesoureiro sumiu. Alguém sabe pra onde ele foi? Ninguém. Estranho! O povo pasma.

Não demora e o espetáculo se inicia. “Interessados com o bem comum” chegam do nada, espalhando gritos e conselhos (de graça!)... Que lindo! Começa o bafafá mais desorganizado possível; o presidente, acuado, não sabe mais o que fazer com tanta pressão. Daí já se sabe o resultado... Conseguiram o que queriam: eleição adiada pela segunda vez. E o povo? Passando como besta! Ou estou enganado? Alguém deve esclarecimentos (e bem claros).

Neste próximo domingo (10/03), será a terceira (quiçá definitiva) chance. Acerca disso, peço vênia pra só mais algumas cutucadas.

O estilo de eleição da diretoria de uma entidade é definido pelo seu estatuto. Pode ser secreto e individual, por exemplo, como nas eleições para prefeito e vereador; aí se utilizará de urnas, chapas, comissão eleitoral, etc. Também dá pra ser por aclamação. O quer dizer isso? Reúnem-se os associados, em assembleia geral (o que se pretendia fazer), apresentam-se as chapas (dando vez para que defendam suas propostas), e elege-se pelo contraste visual dos presentes, seja levantando as mãos, o corpo, um crachá, enfim... Repito, quem dita isso é o estatuto. Geralmente, e creio que seja esse o caso da Adeca, com fins de praticidade e porque nem sempre há duas chapas, a eleição é realizada na assembleia, em regime de aclamação. Era isso que deveria ter acontecido! E mais, não é preciso que o presidente, vice-presidente, tesoureiro ou o diabo a quatro (com o perdão da expressão) esteja presente para que ocorra eleição qualquer. Quem faz a eleição é o povo, isto é, os associados! Faz eleição, redige-se a ata, os presentes assinam. Pronto! Deu-se a transição. Tão simples!

E atento para mais. Será que o povo de Araquém sabe da quantidade de benefícios que uma associação como essa poderia trazer à comunidade, desde que tivesse o compromisso e a capacidade técnica de gerenciar os recursos e parcerias que pode adquirir em prol da coletividade? Mas, como eu sou intruso nesta discussão, por ora não vou mais me meter. Que, ao final, algo possa mudar pra melhor!

CONSIDERAÇÕES SOBRE A IMPORTANTE CONTRIBUIÇÃO DO PROFESSOR ZÉ MARIA AO ENSINO, À EDUCAÇÃO E À CONSCIENTIZAÇÃO POLÍTICA, FILOSÓFICA E IDEOLÓGICA

Bom, aproveitando o ensejo do professor Antônio Marcos (Marcos Souza) que pontuou em seus bem fundamentados e proveitosos textos publicados nas redes sociais sobre o professor Zé Maria, eu também, que devo em muito minha formação ao Zé Maria, vou tecer algumas considerações sobre a importância politico/social/educacional deste grande personagem que já é parte integrante da história da educação de Coreaú. E sem desmerecer todos os bons professores que tive, o considero o melhor. Falarei sobre ele, seu caráter e sua competência, seus alunos emancipados politicamente, seus admiradores e seus invejosos, afinal nenhum professor obteve tanta admiração e respeito como ele.

Eu conheci o professor Zé Maria em 2004 quando foi estudar o ensino médio em Araquém. Quando chegamos lá, muitos me disseram que o mesmo era “carrasco”, talvez no sentido de rigoroso. Mas também um amigo me disse que ele (Zé Maria) tinha abandonado um emprego estável e de status no Fórum de Coreaú para se dedicar à educação, o que me fez olhar de modo diferente para ele. Estudávamos à época no anexo da Flora Teles que ficava ali perto do comercial Zé Totó, na atual casa do Vicente Bento. Depois nos mudamos, é certo. Como estudante vindo do interior, tímido e fazendo pouco caso do valor do estudo e da educação, era pouco inclinado para a importância crucial dos estudos. Bem, tinha motivos: vinha do Boqueirão, educação ruim, muitos professores despreparados e outros sem nenhum nível de politização perante os problemas essenciais da educação. Bem, mas também tinha muitos competentes e empenhados na causa da educação, se não eu não teria resistido e chegado lá.

Chegando lá, terminei o primeiro ano de forma mediana, mas terminei. Com as “puxadas de orelha”, as provocações no sentido de incentivar todos a participarem dos debates e das aulas feitas pelo professor Zé Maria, ter desenvoltura nas matérias dele (na época História, Filosofia e Geografia). Passando o tempo, vim a melhorar no segundo ano. Do segundo para o terceiro ano fiquei melhor, e no terceiro estava no nível elementar esperado para um aluno, que já poderia ser considerado um estudante.

Bom, mas acredito que a contribuição fundamental do professor Zé Maria para mim não foi no sentido de me acordar para a importância dos estudos. O foi em grande parte, é indubitável. Mas acho que eu tinha um pouco de inclinação para estudar, era um estudante mediano. O professor me acordou politicamente, para os problemas essenciais da política, da comunidade, da política partidária. Lembro que eu não sabia o que era uma CPI, não sabia o que era um partido político de esquerda ou um partido político de direita. Não sabia o que era grupos hegemônicos de poder e controle político e cultural. Não sabia escolher e analisar um candidato. Aprendi o que é colonização mental, controle de mentes e despertei do sono político em que estava submetido. Enfim, era um analfabeto político. A maior e mais nefasta forma de analfabetismo que considero, sendo que a segunda é o obscurantismo científico. Hoje conheço todos os partidos, pelo menos o que significam elementarmente, do número 10 (PRB) ao número 70 (PT do B)!

Aprendi ainda com o professor Zé Maria valores e princípios. Humildade, respeito pelas diferenças, fascínio e admiração pela diversidade cultural. Amor ao próximo, mesmo que distante, no sentido de ajudar quando precisar, e se distante, ficar na torcida pelo sucesso do meu semelhante. Aprendi uma coisa que admiro muito nele: a competência e como atualmente estou sendo professor, tento seguir o mesmo. Ou seja, o professor Zé Maria sempre chegava à sala de aula antecipadamente. E saia só no tempo de que a hora da aula terminava. Nunca faltou às aulas, nunca “enrolou” aula e sempre lecionou de forma bastante eloquente. Um dia eu e um amigo estávamos conversando e de forma descontraída perguntamos um ao outro se o professor Zé Maria não adoecia, uma vez que ele nunca faltara uma aula e nem chegara atrasado. Ensinou-nos a fundamentar e concatenar nossas ideias. Ensinou-nos a argumentar nossas posições políticas e respeitar as opiniões divergentes. Ensinou-nos a participar e nos engajar com as “coisas”. Mudar, e melhorar as coisas para todos.

Com o isso, o professor Zé Maria ganhou nossa admiração e respeito. Ganhou seguidores, é certo. Bom, a psicologia explica que quando admiramos uma pessoa nós nos espelhamos nela, obedecendo a um mecanismo do ego chamado identificação. E como “abriu” os olhos de muita gente, adquiriu uma gama de invejosos e recalcados que nunca atingiram o nível do professor Zé Maria, nem de longe e nem de perto! O Zé Maria politizou muita gente e daí que “todo homem que mostra o futuro enfrenta mil homens que olham e insistem em permanecer no passado”. Ou seja, não se pode ensinar a pensar politicamente. Pode-se ensinar matemática, ciências, português, mas não se deve ensinar política. Por que? Porque os mocinhos tornam-se vilões. As mascaras caem. Os peixuxas, que outrora eram amiguinhos dos peixes, que davam bom dia quando é de dia, boa noite quando é de noite, e se não é de dia e se não é noite, eles amavelmente dão maresia, mostram suas verdadeiras caras, seus jogos de interesse. Ou seja, os que estão jogando seus interesses acima dos valores, os que querem poder e prestigio.

O professor Zé Maria foi e é um grande pensador político, um grande conscientizador. Em suma, um grande emancipador! Ora mais eles seguem o Zé Maria!, dizem. Errado. Eu faço parte de agremiações sociais e políticas que o professor Zé Maria também é membro e não sei quantificar quantas vezes vi pessoas (muitos ex-alunos dele) discordarem acidamente do mesmo. Eu mesmo sempre tive dissidências com o mesmo e de forma respeitosa só tenho ganhado com isso. É prazeroso para mim discordar de um humanista, um homem de renascença como o Zé Maria. Aprende-se muito quando se faz isso. O professor Zé Maria é um Kant da vida, nos ensinou a pensar por si sós, sermos donos de nossos pensamentos e atitudes. E se defendemos pontos de vistas políticos, filosóficos e ideológicos é porque neles acreditamos piamente. E se o professor Zé Maria e outros também os defendem é por mera coincidência e não porque os seguimos. Se tem alguma pessoa que sigo nesta vida, esta pessoa deve ser com certeza o filósofo alemão Nietzsche a quem proferiu a frase: “deveis buscar o vosso inimigo e fazer a vossa guerra, a guerra pelos vossos pensamentos. E se o vosso pensamento sucumbir, a lealdade a sua convicção, contudo, deve cantar vitória”. E a assim o sigo...

Como não vivencio a escola Ruth Cristino, sua política educacional e sua política interna não tecerei comentários acerca dela, mas é certo que é um erro grosseiro o professor Zé Maria ficar fora de sala de aula. Fará falta para o crescimento politico-educacional dos alunos desta escola. Não terão, indubitavelmente, a consciência política que o mundo exige de todos nós estudantes. A vida pedirá que eles se posicionem politicamente e aí como se posicionarão se não tiverem formação política suficiente para tal?! Então a campanha “volta Zé!” é mais do que oportuna, é urgente!

Por fim, o texto do professor Marcos Souza foi muito feliz, porque “puxou” o debate sobre esse importante personagem de nossa educação, que é o notável professor Zé Maria. Mostrou que existem muitos admiradores de nosso professor e por isso, muitos invejosos e covardes anônimos que morrem de inveja e raiva do professor Zé Maria e que sabemos quem são. Acho que é assim que se deve escrever para as redes sociais, ou seja, problematizando, polemizando, trazendo o debate à torna, como costumo falar que é necessário se fazer.

Valdecir Ximenes, sempre aluno do Professor Zé Maria e atualmente professor de Matemática no Ensino Fundamental II

DESILUSÃO DO ZÉ

Antes de o sol nascer, Zé Bedeu já olhava para a serra da Meruoca para saber se iria chover naquele dia... Como já era de se esperar, o sol surgiu e nada de nuvens carregadas. Tirou o chapéu de palha da cabeça, olhou para o céu e exclamou: Ô meu Deus, só você tem o poder divino... Para ti tudo é possível... Até ressuscitar o teu filho do leito da morte! Por isso te peço: Manda chuva para alegrar o coração deste “penadubense” sofrido de tanto esperar. Somente de ti espero alguma coisa... Os daqui só ficam nas promessas eleitorais.  Após a prece, Zé sentou-se à mesa para tomar o costumeiro café da manhã. Após o café, deitou-se na rede do alprendre de sua casa e continuou a navegar em seu mundo imaginário. Dona Zefa, já estava findando os afazeres matinais. E ao iniciar a última tarefa – varrer o alpendre - percebeu a tristeza do marido... Zé, levanta desta fianga e vai fazer alguma coisa, homem de Deus! Ao qual ele retrucou: Fazer o que, mulher? A chuva não vem e tudo depende dela! Então vai ligar para o Pedro para que ele feche a torneira dele e assim a água tenha força para chegar até a nossa casa! E continuando, reclamou: Não sei que obra foi essa que a água não chega para todos!.. Zé, por sua vez explica: Mulher, isso é coisa de obra pública! Tá, tá... Já sei da ladainha... Então vai pescar enquanto a água do açude não seca e os peixes não morrem! Resignado, Zé levantou-se da sua fianga e saiu em busca das iscas. Cazuza vendo Zé embaixo da mangueira cavando, satirizou: Ôxe Zé, está procurando botija?! Não curioso... Estou procurando é minhoca mesmo! Para pescar... Quer ir também? Tá, vamos. Já sentado na beira do açude sobre o sol escaldante (e se pegar peixe), Cazuza rompeu o silencio: Zé tu viu na televisão ontem à noite para onde está indo o nosso dinheiro? Vi! É... Enquanto os ratos se banqueteiam, nós padecemos neste fim de mundo! Vamos continuar a pescaria, já que nos resta somente isso... Lembra do que eu te disse no período da eleição? Dinheiro na mão e nós aqui no chão procurando o pão...

Carlos Teles

DOS LOUCOS

Tamanha loucura é a ideia de ignorar os loucos!
Ter certeza de que nada lhes acontece
De tentar em seus pensamentos soltos
Encontrar o que lhes impede, lhes entristece;

Ah! Se tantos loucos existissem!
Os infames e desonrosos normais
Sentiriam que se um dia um louco vissem
Estes seriam dos melhores e críveis sinais

Porque aos loucos pertence o vislumbrar do inexistente
E a certeza desinibida de saber
Aos normais, aconselho que sentem,
Porque por mais louco que seja afirmar
São os loucos que chegam realmente
Onde muitos julgam ser loucura chegar.

domingo, 3 de março de 2013

DEGRADAÇÃO DA RAÇA HUMANA

“Se as coisas são feitas para serem usadas e as pessoas para serem amadas, por que amamos as coisas e usamos as pessoas?”. Lendo esta frase no blog RM em foco, lembrei-me de uma cena muito triste que presenciei hoje. Uma senhora transitava em via pública e despida... O triste era que ninguém se dava conta de que ali estava um ser humano... Totalmente desprovido de qualquer afetividade dos transeuntes.  Hoje vivemos no mundo do supérfluo! A “moribunda andarina” com certeza tem uma triste história, mas não interessa a ninguém saber os motivos que a levou estar daquele jeito. Existem associações protetoras dos animas que vivem nas ruas. Estes animais são acolhidos e têm tradadas as suas enfermidades.  Não que eu seja contra. Apenas me pergunto o porquê desses moribundos também não terem a mesma atenção ou tratamento... Quantos seres humanos vivem feito zumbis perambulando sem uma atenção devida? A vida humana perdeu o seu valor! Estão ceifando a vida das pessoas assim como se matam moscas... Às vezes penso como será a vida da minha terceira geração. Se é que chegará a existir!  Ao findar minha participação, gostaria de indagar aos leitores do blog: O que podemos fazer para salvar a raça humana? Que Deus nos ajude e tenha piedade de nós.

Carlos Teles

LANÇA-TE!

Lançai as redes e vede!
Há sangue em suas malhas!
Há um povo com fome e sede
De justiça, igualdade e paz!

E o tu o que fazes?
Coça a barriga?
Olha o teto com tédio?
Acaso estás a passeio?

Que o grito alheio ecoe em teus sonhos!
Que a (com)paixão não seja mera palavra!
O verso, ora, se encarna em tuas veias!
E sacode, chama-te para a lavra,
A lavra de um novo termo,
De compromisso e união!

Vais!
Semeia esperança no revolto mar!
Profundo e violento...
Onde o lamento será trocado pelo sonhar!

(pintura de Aguiar, de Porto Alegre)

HAJA O QUE COMPRAZ

Ternura tua,
Cá nesta estadia,
A mais pura
Prova duma profecia:
- Invadirás o terreiro
Do olhar corriqueiro
Dum amigo e terás
Fio tênue,
Repentino,
Seguro...

Compraz amar!

(pintura de Selistre Machiaiollo)

NAVEGANTE TERRENO

A luta desafia:
Vai em frente,
Não olhe pra trás!
Posto que tua força
Não se estropia
Se a coragem é vivaz!

Ouse, siga!
A estrada segura
Não rende o destino
Que anseias!
É no mar,
Risco das sereias,
Que o marinheiro
Viaja amiúde,
Traz ouro ao cais.

Corra!
E na aventura terrena,
Deixe ao menos o rastro...
... de quem lutou,
Pra viver, fazer viver mais!

sábado, 2 de março de 2013

SENSAÇÃO!

Olha, serei franco!
O tempo me distingue
Desrefaz a todo instante,
Numa revolução
Diria, até, angustiante!

O que fica?
O entrelaço,
O bioma de alegria,
Que alguma semente nutre...;
Só não pergunte onde
Se esconde essa epifania!

Só intuo,
Sinto e sonho!

(pintura de Heidi Liebermann)

MÁXIMA LUNÁTICA

E a luz?
Faça dela sua máxima,
Seu caminho,
Sua guia.

E as trevas?
Ante a luz,
O que será delas,
Senão a agonia?

Abra os olhos!
Aviste bem!
Ao teu lado,
Bem pertinho,
A missão:
Amar!
Amar alguém!
Todo e qualquer...