segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

SE TE QUERES MATAR - FERNANDO PESSOA

A poesia, em tom de prosa, que aflige almas de mortais como todos nós.

PRECE CRIANÇA

A criança que, ajoelhada,
Faz sua prece ao Céu-Derradeiro,
Mesmo estando sobre o chão prostrada,
Cresce à altura do sol de janeiro.

SONETO DE ATORDOAMENTO


Caiam, estrelas, sobre minha rede
Na noite calma que me atordoa!
Consuma a casa, fira-me e doa
A pele, a carne. Mate-me a sede
De guerra e grito, e de que a parede
Leve com a queda a paz que não mais soa 
Nas telhas minhas; que o vento moa
Temores tantos, que te peço: - Crede!

São bem maiores do que aparentam
Ao externo observador.
Não sou bom moço, eis um sofredor

Destes comuns que aí se aguentam:
Engolem choro e sublimam dor;
Com risos falsos engatam o furor.

domingo, 29 de dezembro de 2013

3º SONETO À MINHA SENHORA


Que eu te quero - bem-te-quero sei;
Ao lado meu - aconchego e abrigo.
Somente a nós - eu, você - contigo,
O amor terreno que aqui procurei.

Faço-te versos, com os quais já sonhei;
Se os escrevo é por lhes ser amigo,
Jamais um dono, porque não consigo
Cantar do peito a flor que plantei.

E o romantismo que n’ora me enlaço
Clama por ti e se esbalda no traço
Que escorre ao rio deste meu papel.

Em cor blasfema, a paixão que faço,
Esquenta o frio, do inverno renasço.
Quero-te amante e eu seu menestrel!

sábado, 28 de dezembro de 2013

O ACHADO DO MÊS

O achado do mês
foi um resto de sorriso
no fundo do pote -
o mais doce e concentrado
e um tanto amargo
que provei.
Raspei-o todo
e comi
e vomitei depois...

SE POR ORA JÁ PASSOU

Não adianta
a fuga tanta
do dia enfim
em que dois
de nós a sós
fizeram mais
do que hoje,
e se amaram
como que se
nada daqui
pesasse;
foi-se além,
e não importa
se por ora
já passou.
Vivi.

A CAIXA PRETA CELESTE

A caixa preta celeste
Abre-se no arco-íris
E revela
Quiçá
A aura tênue
De colorir
E de minguar
Que corta a vida
Em pedaços miúdos
E rega com choro
A semente
De um amanhã
Colcha de retalhos.

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

INDECISÃO

Carrego
Um teimoso luto
Do que não perdi
Ainda

Que se aprofunda
Na ocasião
De escolher

É a parte amarga
Do doce extremo
Da liberdade

Nem sempre soube
O que minha vontade
Iria querer

Mas segui...

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

ESTRANHA EXCENTRICIDADE

Estranha excentricidade
A do que sonha acordado
Vê no real o possível
Em sabê-lo inacabado
Não se limita ao agora
Nem à dor que o apavora
Nem ao medo de errar
O excêntrico desvairado
Este que se põe a andar
No trilhar de seu amor
Pelo que quer vir-fazer
É um poeta de si mesmo
Que se põe em seu querer
A lutar...

ONDE ESTÁ O MENINO JESUS?

Neste Natal,
o menino Jesus
cheira cola na rua!
Sim!
Ele está todo sujo e maltrapilho.
Os transeuntes o olham,
cospem nele,
ou simplesmente ignoram -
isto nos poucos nos quais falta coragem para cuspir.

Neste Natal,
o menino Jesus,
aquele que nasceu numa manjedoura,
nasceu de novo na rua,
no submundo mais pútrido,
onde se desumaniza os filhos da Criação,
veio em meio às injustiças...
E viu nelas o seu lugar de estar-e-agir.

E o menino Jesus chora,
agora mais do que nunca,
chora pela mãe que apanha do pai,
pelo irmão que perdeu para o tráfico,
chora pelo primo aprisionado,
chora pelo lago que mataram com o esgoto,
e pelo pássaro engaiolado.
Chora, o menino Jesus, pelas injustiças,
chora pelo que fizeram
sem saber que era ele
O Filho de Deus que ali estava...
e agora, no Natal,
pensam, coitados,
que ele está na mesa farta de ambição,
mas não...
Não é lá que ele está,
Cristo fez opção pelos rejeitados.

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O VÁCUO

Nada mais incompreensível
Que o vácuo
E sua inexistência
Em cujo vórtice
O sentido se extermina
E a dor nos estraçalha
O ar escapa

O vácuo
O silêncio mais perfeito
Muito mais que rarefeito
É a sublime criação
Que destrói
E junta os pedaços
Para renovar

Pena que nos apeguemos
À passageira matéria
E prendamos nossos pés ao chão

Pena que o silêncio seja renegado
Mas invada quando surge a solidão

O desespero é a tônica indigesta
De um homem que quer se entender
Mas no final de tudo
O começo do avesso
O mundo diz: te ofereço,
Viva a tua condição!
...de finitude, pobreza e mortalidade.

Aí depois
Depois do vácuo
Depois do fechar das vistas
Não-sei.

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

SIGNIFICAR

Significar -
Puro ato humano
Que se dá nas coisas,
Que se dá no plano
De nós mesmos
Com nosso corpo
E além dele.

O que seria dum sorriso
Não fosse o significado?
Um mero mostrar de dentes...

O que seria dum coração?
Tão somente carne...

O que seria das lágrimas?
Pobres água e sal derramados...

E assim se ia.

Não fosse o significado,
Nada no mundo
Teria sentido por si,
Nem nossa própria vida,
Que é feita de projeções,
Ilusões e sonhos.

Sem eles, estamos mortos.

Há tantos mortos por aí.

Por bem que significamos!
E nos imprimimos no mundo
A nosso bel-prazer.
E somos o sonho que temos!

terça-feira, 17 de dezembro de 2013

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

TAL À CRIANÇA

Queria eu inocente
tal à criança:
em seu sorriso,
em sua plena condição
de incompletude
por estar-no-mundo.

Queria eu sincero
tal à criança:
no olhar poético 
por sobre as coisas
e irmão 
por sobre os homens.

Queria,
tanto queria,
que, por fim,
atrevi-me a tentar
ver um relâmpago 
como um grito,
a chuva como um choro,
o vento como um assobio,
a lua como uma irmã,
o rio como um espírito,
a morte como um caminho
e a vida como um sopro,
um sopro quente e ávido
por mudança.

CRONOS E A BOCARRA

Cronos, de Goya.
O sino toca à igreja.
O coração se debate.
Remói-se em digestão
o que se ama,
e morde-se 
à exaustação
a porcelana 
da pele jovial
de Ana Josefa –
a menina que se julgou santa.

E o tempo
corrói e quebra
com um abraço
e um beijo frio,
ácido,
os dentes do sorriso
franco e meigo
da beleza pura
da caveira.

ABRAÇO DE DESPEDIDA


Foi bom tê-lo conosco
Por estas noites
Em que nos encontramos
E conversamos
E aprendemos
E (por que não dizer?)
Amamos
Sem saber
Que amamos
Somente pelo fato 
De nos ter aguentado
De rirmos uns dos outros
E ter nos permitido aqui estar.

Por que não dizer que amamos
Enquanto aqui estivemos?

Se não tivéssemos nos amado
Nada disso significaria 
A amizade que nasceu.

Prefiro pensar que amamos
E guardar no âmago de minhas lembranças
Que aqui estive
E que estar aqui
E partir
Foi bom.

domingo, 15 de dezembro de 2013

ORAÇÃO NA RUA

Nasce sol
e traz a paz,
que quero atrás
de ti correr.
Morre medo,
corre já!
Daqui pra lá,
de onde não sei.

Frases soltas
de oração,
silenciosa,
lamentosa,
que temi
proferir
na cama -
onde se ama
muito mais
que aqui,
na rua
e no ocaso
de olhares
neutros.

sábado, 14 de dezembro de 2013

MEIO SONETO DE ANGÚSTIA

Fitei os meus pés e nada vi
Que não o negror da fria bonança
Dos pesadelos de frágil criança,
Que tanto tentei e não esqueci.

As pernas tremeram; a fala fugiu.
Nem sei sequer como o descrevo:
Silêncio faminto e o seu relevo,
Que fere a alma como um fuzil.

CONTRA-MIM

Arredonda o verbo que proferiu
No início calmo de teus amores
Corta os espinhos que são das flores
A faca fina de um medo febril.

Nada, rasteja no musgo tão fresco
Do bosque escuro da meia maldade
Do esquecer-se da tua verdade
Viver sem rumo um canto burlesco.

E o novo começo que sai do discurso
Faz-se a via, dobra em contramão
Gira em torno de um redemoinho.

E tonto peleja na forma em curso
Por entender o que faz coração
E aprisiona-se em seu próprio ninho.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

Vi(r)Vemos?

Há dias que a gente senta e conversa
E em roda repensa o que a vida tem
O que traz de novo neste vaivém
Que com risos conta, escreve e versa.

E dos instantes que cá dividimos
Resta a pergunta: o que vai ficar?
Se algo há que dure neste caminhar
O que me importa é saber que rimos.

E o tempo e o vento não podem soprar
Para tão longe que não o alcancemos
O amor fraterno que juntos vivemos.

Pois este mesmo vive em seu lugar
O peito, a fala e o que esquecemos
E a saudade do que ora não temos.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

HEROÍSMO E COVARDIA

por que o aplaudiram em sua cruz?
por que anseiam por heróis que se matam?
enquanto observam
e se admiram de sua coragem

a covardia povoa tantos corações
e se espalha feito verme
disfarçada

a covardia semeia tantas omissões
à espera de um herói
e à espreita do que sabe não vir
senão com sua ação

a covardia é torcedora
sabe ela bem o que lhe impede
e pede às ilusões por mártires
que lhe livrem da responsabilidade

aplaudem
rezam
torcem
quedam-se em seus receios
e se esquecem de ser humanos.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

ENQUANTO PUDER FALAR QUE TE AMO

rogo aos dias
e agonias que tenho
longe de ti
que não me afastem mais

rogo ao nada
que em mim se entranha
ante a distância
que diga adeus
ao tê-la visto

rogo a mim
nas tristezas cotidianas
que pensar em ti apague
uma tantinho qualquer
de minha pequenez

rogo
profunda e insistentemente
num clamor tão mais clemente
ao tempo e seu passar
que a tenha comigo
enquanto aqui estiver
enquanto aqui passear
enquanto puder falar que te amo.

domingo, 17 de novembro de 2013

A MORTE DO POETA

Morre o poeta na cama tranquilo,
Com o livro ao colo e a vela ao lado.
O papel escrito e inacabado...
Viram a morte e não leram aquilo.

Sumiu-se ali o derradeiro verso
Que escrevera em sua solidão.
A vida finda, marca a alusão
Ao home em nada totalmente imerso.

O que ficara no papel marcado
Foi-se, com tinta e suor escrito:
O esforço mister de traçar bendito.

E o poeta, do tempo enfadado,
Declarou-se assim em uma das linhas:
- Esta é só uma das agruras minhas!

sexta-feira, 15 de novembro de 2013

O COLORIDO DA ROUPA DE AGORA


Joguei aos baldes tinta colorida
No preto e branco que me encobria
Um novo homem se assim fazia
Do chão de cinzas que surgiu a vida.

Larguei a velha roupa carcomida
Que sujeitava toda a alegria
Desesperança que me consumia
E enfim agora se deu por vencida.

Que partas sem deixar saudade
Leves, ó cinza de mediocridade
O infértil solo que contaminou.

O escuro foge ao ver a claridade
O bom se impõe sobre a maldade
E o tempo ainda não me apagou.

SONETO DO AMANHÃ

Cantes agora o que amanhã virá
O fogo forte que o futuro enseja
E lutes firme pelo que deseja
Mais vale a face do que inda será.

Ante a aurora que está por raiar
O novo grita por sua peleja
Abra teus olhos e acorde e veja
Que nada muda se o sonho acabar.

E soltes toda a tua energia
Contra a corrente da vil tirania
Que cala a vida e te faz parar.

E saibas tu do maior inimigo
É o pobre medo que anda contigo
Ele é o primeiro que vais enfrentar.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

AFIRMA-TE, NEGAÇÃO

a terra que me recobriu à noite,
eu já a sou desde o amanhecer.
o trecho já vencido faz doer.
a tua história é teu pior açoite.

e nada que mostres te conta mais
que as cicatrizes que ora carrega.
teu externar sorriso não te nega
o que não te permanece atrás.

nega o que tu foste? tu o serás!
nega o que tu queres? vais querer!
e quanto mais negares mais vais ter.

afirma-te e tenhas qualquer paz!
afirma-te, ó vã contradição!
afirma-te constante sim e não!

Sobral, 12.11.13

UM QUALQUER

José, um tipo qualquer
Dos que estão por aí
Em esquinas e bares
Morreu noite dessas

Morreu José, morreu
Morreu José, já foi
Morreu José, faria falta
Não fosse um mero
Um simples e qualquer

Nem disse adeus
Nem ninguém sabe
Se mesmo morreu

A quem interessa?
Nem mais a José.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

SONETO DOS CÉUS (E) DE TUA BOCA

tocarei em ti em meus poemas
e estarás no sonho mais feliz
o tracejar disforme que prediz
dor, distância, amor, dilemas.

e tocarei, enfim, além, a pele
e de nós, o suor escorrerá
com teu gosto, o rosto sorrirá
nosso amor à dor repele.

poemas que vêm dos céus de Lá
amares, há mares a velejar
venha-me, ó inspiração pungente!

poemas dos céus de tua boca
de velejar à vontade rouca
nas ondas de um mar tão quente.

08.11.13

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

N'ARTE

versos perdidos
falsos pedidos
que fiz
em palavras
que joguei
como poeira
aos céus

blasfêmia n’arte

À SOMBRA DA MANGUEIRA

Sentei-me à sombra da mangueira
Lá podia a vida inteira
Ver passar por minha frente
O rumor vindo do vento
Soando entre as folhagens
Miragens de um tempo ido
O frescor que me encobria
Fazia-me esquecer
A dor que por tanto doer
Fez sumir em quem doía
O marejar de meus olhares
O sobraçar de minh’aura
Era eu, o vento, as folhas
O cheiro, o claro, ninguém.

07.11.13

terça-feira, 5 de novembro de 2013

SOU A POESIA NÃO ESCRITA

Sou a poesia que escrevo
E dedico à morte
Com a sorte
De um que, decerto
Não sabe a palavra que é.

Sou a mentira contada poesia
Os cantares de ufania
De alguém, qualquer
Um ninguém
Cantando o que não é.

Sou o verso de minhas notas
Faço-me ponto e linha
Conto causos e anedotas
Rio, choro e me debruço
Sobre meu desejo de ser.

Sou a voz que clama
O espelho na lama
O sopro na chama
O grito na cama
Sou o que ama
Mais do que diz
Mais do que quer.

Sou poesia não escrita
E o que já (d)escrevi
Desconstruo.

Sobral, 05.11.13

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

ROUXINOL


rouxinol
banhado de orvalho
chama à varanda
a brisa fria
que virá
pula, o rouxinol
de galho em galho
canta e se arrepia
espoja-se
é alegria
é ternura
é candura

sou rouxinol com ele
na maestria
de um dia simples
de uma morte tênue.

HORA ERRADA

A flor que murchou
A folha caiu
A água ondulou
O dia saiu
A vista mudou
O homem não viu
Que o dia se foi
Não deu, já partiu
E o tempo
Nem disse:
Adeus!
Nem se despediu
E foi sem deixar
Pra trás
Sinal qualquer
Que queira saber
O que o homem quer
Com tanto correr

Foi-se o tempo
Do dia que não nasceu
Foi-se o tempo
Do que já perdeu
O que virá
Não diz mais nada
Porque a hora errada
Passou por ti.

SEGUNDO SUSSURRO DESCOMPROMISSADO

Sussurrou Aurora no meu triste ouvido
Que a paz se nutre como na canção
Que a paz é plena se no coração
A esperança firma seu tinido.

Aurora, que dançou e foi-se ao vento
Aurora, que guia o meu caminhar
Rompe as entranhas desse sofrimento
Faz nova a roupa com o seu fiar.

De dia fresco que enfim se achega
Que espanta a vã, vil e pelega
Covardia de se aventurar.

Ao dia a noite vem e o completa
E minha alegria, a predileta
É sonhar, sonhar, sonhar.

domingo, 3 de novembro de 2013

CHOVE O SERTÃO...

a chuva que caiu lá fora
lavou-me por dentro
despiu-me do receio
de outrora
quando salpicava no telhado
e ao fazer subir seu aroma
no terreiro
eu, por inteiro
suspirei
despedi-me
ao horizonte acinzentado
ante carnaubais
que me levassem pra longe
estando aqui.

AMARRE-ME À CANÇÃO

faz canção pra mim
e me encanta
nos dedilhares
e nas palavras
nos agudos
e nos graves
e em cada pausa
e em cada nota

faz canção pra mim
canta pra mim o que tu sentes
sem medir
sem limitar
sem correr
sem parar
só cantes
envolva-me
com tua alma

faz canção pra mim
ó vida compositora!
faz canção pra mim
e me amarre com as cordas
de teu violão.

03.11.13

POESIA DE INTIMIDADE

Tão divino foi te ver por perto
Que as rolinhas que cantavam ao fundo
Pareciam bem mais vivas... e girava o mundo
Como que se agora eu o tivesse descoberto.

Tão divino foi o instante em que estivemos
Presos um ao outro, e um ao outro completos
Sendo o calor que nos unia, em instantes prediletos
Uma chama que se consumia sem contudo se acabar.

03.11.13

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

AMOR ETÉREO

em que me seja a medida do amor
em tal grau sincera
em tantos momentos repentina
em tal intento severa
que me devore a mim mesmo
mastigando as entranhas de cada sentir

à busca do que nos une
mais que a pele

em que me seja a medida do amor
que contigo partilho
que, contigo, inteiro
um simples parafrasear
do ritmo de todas as coisas
e da harmonia que não vejo
mas há

e que nos consuma
num amor etéreo
para o qual medida
não pode bastar

01.11.13

terça-feira, 8 de outubro de 2013

POUCO PARA UM MINUTO


um minuto
não cabe
no relógio
nem no tilintar
d’água na fonte
não cabe
no silêncio
da manhã
nem no dia
que não veio
não cabe
o minuto
no homem
com sua vida
e as ilusões
não o vemos
nem sabemos
que o minuto
não cabe na vida
e a vida
num minuto
é grande
tão grande
que não cabe
não se sabe
a que veio
o Sr. Tempo.

TORNEI-ME PAI

No teu choro mais primeiro
Vi o sopro derradeiro
Da angústia que vivia
Tive nítida a impressão
De que se tratava então
De um filho que nascia
Corri todo atordoado
Para chegar ao teu lado
Naquela maternidade
Tua mãe contigo em mãos
Exausta em serenidade
Quase não acreditei.

Tornei-me pai!

domingo, 6 de outubro de 2013

COMPRE O SEU LIVRO E SABOREIE UM POUCO DE NOSSA ARTE LOCAL


Acaba de sair do prelo a 1.ª edição do livro Veredas Sinuosas Poesia e Prosa), produzido em coautoria por Benedito Rodrigues e Eliton Meneses. Lançado, antes, em caráter experimental, na editora virtual Blurb, o livro agora, revisto e ampliado, foi impresso em editora convencional (Sobral Gráfica e Editora), com a merecida inscrição no ISBN.  

Trata-se do primeiro livro lançado sob a chancela da Academia Palmense de Letras (APL), formado por uma coletânea de textos que retratam, em verso e prosa, vicissitudes do cotidiano, histórias familiares, a militância social e as inquietudes pessoais dos autores, além de outros aspectos da vida e da cultura, especialmente a das terras coreauenses.   

O livro conta com cerca de 170 páginas, em edição esmerada, e pode ser adquirido pelo valor de R$ 15,00 (quinze reais). Para adquiri-lo, é só enviar e-mail para os autores: fcoeliton@ibest.com.br (Eliton) ou beneditogr@hotmail.com (Benedito); ou, se preferir, ligar para (88) 9214-9130 (Benedito) ou para (85) 9679-7283 (Eliton). 

RECOMENDAÇÕES A UM COMPANHEIRO

Cante em versos prosas que esquecestes.
Fale em lágrimas as tristes dores.
Teça na poesia seus louvores
Às flores que no caminhar perdestes.

Sorva o mel vermelho que vivestes.
Largue ao céu os seus andores,
E saberás de longínquos rumores
Que soltarás aquilo que prendestes.

No entanto, afirmo-te, sincero,
Que de tudo em conta que te quero,
Há pouco ou mesmo nada de valor.

E, teimoso, resoluto, ainda espero
Não será o medo vil e o sofrer mero
Que romperão o teu andar de lutador.

segunda-feira, 30 de setembro de 2013

I CONCURSO LITERÁRIO DE COREAÚ

Estão abertas as inscrições para o I Concurso Literário de Coreaú, promovido pela Academia Palmense de Letras (APL). Serão premiados nesta edição os três primeiros colocados inscritos em cada uma das duas categorias - prosa e poesia -; os demais participantes receberão declaração de participação. 

O objetivo é premiar textos inéditos nas categorias PROSA e POESIA, valorizando e dando visibilidade, assim, à produção textual do município. Podem se inscrever candidatos residentes ou nascidos em Coreaú, que nutram algum vínculo familiar ou social reconhecido com o município.

Conheça o edital e se inscreva na aba I Concurso Literário de Coreaú, do blogue da APL.

segunda-feira, 23 de setembro de 2013

DIÁLOGO SOLITÁRIO DE AUTO-CONSOLAÇÃO

- Não chores. Não te lastimes!

- Por quê? Por que insistes em me consolar?

- Ora, pois esta dor que te invade deve ser amordaçada.

- E quem garante que mordaças a impedem de gritar?!

- Penso que sim. É o que se faz ou se tenta: barrar.

- Barre os teus! Beleza em palavras talvez não seja suficiente para conter minha irrupção repentina de revolta ante as regras da vida.

- E que vida queres que não seja em palavras?

ENGASGADO

Engasgado. Um copo d’água não bastaria para fazer descer o incontido desejo de surrar a parede. A mão é que não resistira dar conta. Adolfo pensava em Edilberto, em Ana, em Raquel e em Erismar. Eles nem se lembravam dele. Ele, a ruminar a dor e frustração, comuns toda vez que nutrisse expectativas. Adolfo, pequeno, não queria odiar. O ódio fazia-lhe lembrar, e tornava próximo, quem mais queria distante. Via espelhado no ódio aos outros o ódio a si mesmo; um tanto estanque, foi seu sentimento ao desviar de atenção e seguir se culpando por seguir amando quem tanto odiava. Conflitos.
Passou rápido, heim?!
Ainda acreditastes no tempo?

domingo, 22 de setembro de 2013

ILUSTRADO SOFRIMENTO

Folha ilustrada
Que fora rasgada
E soltou-se ao vento
O intento de quem a rasgou
E ao nada então jogou:
Eternizar o sofrimento
Não se sabe dos desenhos
Do seu conteúdo ou forma
Contudo, dor que amorna
A vida, esfriou-se com o ar
Que a levou.

FALADA

E fales que fales
Quão tanto me negues
E entregues males.

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

CONTA A LENDA DE ALÉM

a pobreza
extrema
emagrece mais que as carnes

a tibieza
suprema
não se vê clara nas faces

a falsidade
não se expressa
em palavras

até por quê
as palavras
são tão poucas
e as pessoas
tão roucas
de sentir
e em seu agir
são guiadas
por palavras
indecifráveis
palavras
malvadas
inefáveis
palavras
paladares
que degustam
o vazio
por detrás
da alma
e a bagunça
por detrás
da calma
não sou tão turbulento
só me alimento
da fome que me abala
e me embala
em aventuras
que não escrevo
nem leio
nem sabem
além-túmulo

domingo, 1 de setembro de 2013

ALUMIAÇÃO EM VILANCETE

Não me faço de rogado,
Pensando ser como o ar;
Não sou livre tanto cá.

De uns lados andarilho,
Preso no laço dos medos;
Liberto-me com os dedos,
Tecendo em versos o trilho;
Neles caibo e me ilho
Refugiado a sonhar,
Pensando ser como ar.

Contudo, a profundidade
Do sono que é viver,
É mais que o verbo escrever.
Pra falar bem a verdade,
Nada achei de potestade
Que me viesse a guiar;
Não sou livre tanto cá.

Fiz de mim o maior guia,
Mas me veio a frustração:
Se me guio na canção
O verso se estropia.
A canção é que alumia
Por si só o seu andar.
Não sou o dono a cantar.

CINCO PRIMEIROS HAICAIS

i.
Acorda-se o sol.
Faz-se uma nova manhã.
Eu leio o lençol.


ii.
Nada com nada
Do que tanto discursara
Vale mais que estrada.


iii.
Não faço canção.
Não componho melodias.
Risco o coração.


iv.
Métrica e sentido
Voz, vida e pulsação
Esse é meu rugido.


v.
Choros incontidos
A corda tênue rompeu-se
Risos divididos.

sábado, 31 de agosto de 2013

2º SONETO À MINHA SENHORA

Por nada que me digas deterei
O amor que por ti tanto cultivo;
Estando em seu ensejo já cativo,
Em tua doce boca me alumbrei.

E na distância que construo, sei,
É tua lembrança que me mantém vivo;
Os traços de um sentir altivo
Que, em tantos tempos, precisei.

Mas ouça, cá, o que lhe mando
Através deste tão vão poema:
Serás sempre, tu, meu maior tema.

E mesmo na distância construída,
Nas brigas infantis de nossa vida,
Seguirei além dos versos te amando.

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

QUESTIONAMENTOS SOBRE OS RUMOS DA EDUCAÇÃO DE COREAÚ

Os números devem servir às nossas práticas pedagógicas ou nossas práticas pedagógicas devem ser escravas dos números? Eis uma questão fundamental nesse momento que Coreaú vive, de mudança no modelo gerencial. 

Procuro o lugar aonde se encontra a magia da educação na frieza e inércia dos gráficos, em ações policialescas de fiscalização das escolas, em ver gestores e educadores lotados no trabalho com papéis com “x” marcados e não com o olho no olho dos alunos e professores, não por quererem, evidentemente, mas por ser essa a demanda, a ordem, por resultado a qualquer custo; não vejo a magia aí. Escravizados pelos números, vive-se em função deles, a coisa mais temida por uma escola são eles, e o foco de todas as ações é a consecução da expectativa acerca deles. Onde está a atitude reflexiva no meio de toda essa torrente?

Não quero ser leviano na crítica, se é que isso é realmente uma crítica, mas me preocupo, seriamente. Conseguiremos realmente fazer da educação algo libertador em nossa região, reduzindo-nos a práticas de visão estreita? Nossos professores se sentirão motivados a dar o melhor de si através da punição e rigidez ou através do verdadeiro incentivo e suporte? Onde estará o meio termo? Viveremos em função de gabaritos? O seguimento irrestrito a um modelo massificador e capitalista de educação comporta mudança? Que mudança? Alguns questionamentos, humildes, de alguém que passou a vida estudantil toda na escola pública, e que quer bem mais para ela. Faço das perguntas sugestões, com todo respeito.

QUANDO O TEMPO FOR INSIGNIFICANTE

Mais adiante haverá uma porta
Rumo a qual tu deverás seguir
Tateia à luz que inebria o sentir
Daquelas da manhã que reconforta.

Absorto involto absolutamente
Farás por fim mais uma caminhada
Alma pobre e por fim já acabada
Sem o invólucro deprimente.

Haverá nesse dia profundo calar
Haverá nesse dia o que não houve
Haverá nesse dia o choro mais solto.

Tal alma ali soubera o que lhe aprouve
Livre ao abraçar o ar mais revolto
Sem que as palavras vissem a bastar.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

TERRA DAS POESIAS PERDIDAS

Há um lugar secreto,
Recôndito e indiscriminado,
Para onde vão todas as poesias
Feitas e perdidas.

Lá estão misturadas,
Dispostas ao longo de suas grandes colinas
As poesias melosas repletas de rimas com “ão”
Paixão, coração, e tantas outras.

Dispostas ao redor do seu firmamento,
As poesias de sonho e de lamento,
Repletas do pessimismo humano,
Mas também aquelas que extrapolam,
E como extrapolam!
A imaginação para inventar loucuras
De mundos possíveis em razão
E de mundos possíveis em ação!

Também nesse mundo, há poesias infantis
Os tracejados tremidos dos primeiros poetas
Ou dos poetas principiantes,
Quando inda afinavam as pontas dos lápis,
Há as poesias cheias de métrica e de zelo,
Há as poesias desleixadas, feitas de qualquer jeito
E sem qualquer perícia,
Há as poesias nobres,
Há vidas em poesias,
Há pessoas naquelas letras
E pessoas naquela terra em suas poesias.

Essa terra perdida que não existe para além desse poema
É uma terra de saudosos,
De saudade e de perda,
Quantos poemas não vimos?
Que, embora existindo, não estão nessa terra?
Quantos poetas não conhecemos?
Quantos gênios estão por detrás de suas colinas?
Quantos perderam a poesia por julgá-la loucura ou coisa banal?
Não sei, só nesse poema.
Um poema que fala de uma terra que não existe,
Mas que bem poderia existir para guardar tantas gentes,
Em tantos poemas
E tantos sentimentos,
Em tantas letras
E tanto momentos,
Em vão.

CONTANDO

A canção passada
Cantava causos
Que esqueci.

A canção da estrada
Calcava histórias
Que cometi.

A perdida vida
De um andante
Sem destino.

A mordida vida
De um amante
Em desatino.

Cantei
Cansei
Contei
Andei
Vivi!

domingo, 25 de agosto de 2013

LIVRE COMO UM ABRAÇO AO AR

Livre como um abraço ao ar
Quero me sentir assim
Uma vez mais
Teimar.

Arbitrário como uma comparação
Serei meu verso
Serei grito
Canção.

Tudo num só nó
Que se entrança em palavras
Serei aquilo que escrevo
Serei aquilo que temo
E aquilo, claro, que me esqueci.

Tudo num só nó
Serei o que pedistes que fosse
E nem serei tanto o que quis
Mas serei, serei algo
Mesmo quando nada me consumi.

Serei mais que meu medo do nada.
Ao menos espero...

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

E AÍ, MIGUEL?

E aí, Miguel?
Não foi tu o menestrel
Que pensei ser
Não me guiastes
Não te vi
Tu não estiveste além
Do que não esperei
Tu não foste mais
Que um sonho
Numa noite de medo
Quando me escondi
Debaixo dos lençóis
Julgando fugir do mundo
Tu não foste Miguel
Definitivamente
Será mesmo que tu existes?
Ou deixas de existir quando preciso?
Onde estão os anjos
Que cantei em orações com minha mãe?
Tamanha assim é sua invisibilidade?
Ou tamanha assim é minha ignorância?
Por que a imaginação teima em querer-te?
Pouco sei
Mas continuo a recorrer a ti
Mais que ao lençol
Mais que ao choro
Mais que ao terror de ficar só
Se tu não existires, Miguel?
E aí, Miguel?
O que será de mim?

domingo, 18 de agosto de 2013

FALANDO DO QUE GOSTO

Não sei tocar acordes
Nem sei muito cantar
Sou um tanto desafinado
Mas ouso aqui versejar
E nos versos eu me mostro
Como nunca me mostrei
Retratando a nossa sina
Que em tal me atirei
Nesses versos
Que lhe digo
São singelos
Lhe expresso tudo o que
Quis lhe contar
Nesses versos
Mal traçados
Sem ter tanta coesão
Extravaso
Toda tanta emoção
Sincera
O que em gritos
Faltou-me a garganta
Adianta inda tentar
Expor cá nessas linhas
O que vida
Dom de quem vive
Sofrer de quem não quer
Medo de quem não percebe
Ilusão de quem ama
Desgosto de quem odeia
Minha sina
É viver e querer viver mais
Sempre do que a vida dá.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

IRRISÓRIO

O riso mais falso que já vi...
Não me contive e dele ri.
Ri de sua asneira e mísera arrogância.
Ri de vê-lo pensar-se como significante.
Ri de mim mesmo espelhado em seus olhos.
Ri disfarçando o chorar, porque não percebo:
A diferença entre comédia e drama.
Às vezes, nada é muito diferente.
Às vezes rio, e ignoro o alheio riso.
Mas ambos somos ridículos.
Fingindo.

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

SIMPLESMENTE POESIA

Poesia é brincar com palavras
Por que não?
A maior poesia
É a história
Riscada no chão
E pegada do menino
Descalço e desnudo
De ambição
E pudor de ser gente!
Sabe aquelas poesias de banho de chuva?

CARNAUBAIS


Solto nos carnaubais
Fui sabiá
E também moleque
Feito índio
Corri
Estrepei-me
Sorri
Vivi com a alegria
Dos galos de campina
E soube do passar do tempo
Como a poeira que esconde
As carnaúbas
E mantém
Silenciosa
Aquele zoar saudoso
De palhas entre palhas
Frescor entre a sequidão
E a paz do sertanejo
Que tem na natureza
Seu abrigo
E nas carnaúbas
Irmãs.

Serei
Então morto
Um dia
Uma carnaúba anciã
Estalando por sobre o sol
Vermelho
Nas tardes do tempo que não virá.

domingo, 4 de agosto de 2013

SONETO DA BLASFEMA POESIA

Burburinha às noites n’ouvido o vento,
O me que as canções já predispuseram:
Ora, os teares d’inspiração zeram.
Ao que insisto posto a cantar, tento!

Jazendo a fonte, não há-la mais, invento.
É que a mordaça e que o “não!” laceram.
Vou com a língua, como brincar; disseram:
Que não te cales, que vai e tentes: tento!

De tal forma, ileso, venho aos poemas.
Busco num louco por correspondência.
E nego a essa vã vidinha muda.

Largo aos padres a minha decência.
E abarco a letra, que treme sisuda.
E sei que posso mais no papel: blasfemas!

PRIMEIRO SONETO À MINHA SENHORA

Quantas manhãs, ó senhora, terei
Para entregar-me, apascentado, a ti?
Outrora, na distância me abati.
Sem a tua formosura, chorei.

Eis que, hoje, tu estás ao meu lado,
Nova vida – vida juntos, nascente;
Tenho-te como do Acaso um presente,
E beijar-te me faz entusiasmado.

Inda que os dias nos venham a pesar,
Saiba que não será a pobre rotina
Que barrará ao sincero sentimento.

Lembres sempre, ó minha menina
Não te entregues, peço-te, ao lamento,
Curta comigo as dobras desse andar.

PATATIVA DO ASSARÉ

















O grande Patativa
Da poesia popular
Ao leitor qualquer cativa
Falando de seu lugar
Devo a ele o respeito
Bate vivo cá no peito
O sangue de um sertanejo
Que chega se emociona
Quando chega verso à tona
Desse mestre, um lampejo.

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

PANDORA

São tantos outros
Dentro de mim
E tantos outros
No meio de fora
Muito embora
Tema-me mais
Que qualquer outro
Que me arvora
Na intimidade
Na verdade sei
É mais do outro
Do que pensei
E dou no outro
A dor que amei
Pandora.

ÀS VEZES


Às vezes assusto
Às vezes encanto
Às vezes sou riso
Às vezes sou pranto
Às vezes me dói
Às vezes a dor
Sou eu que dou
Pros outros.

terça-feira, 30 de julho de 2013

MASCARADO

Pintura de Mário Gruber.
Quantas máscaras lhe restam?

Ao passar pelo espelho, cubra-se
Pra não ver o que não é
Pra não temer ser o que não pode.

Olhe-se e note
Máscaras o encobrem...

Ou queres encobrir-se de si?
Já não basta escapar dos outros?
Não escapas nem de ti mesmo!
Perdes tempo!
Perdes vida!
Resta nada atrás
Das máscaras
Fuja das máscaras 
Que o encobrem
Do que há em ti
De menos mal.

PERDERA A HONRA E O QUE NÃO TEVE

Palhaço bêbado, de Francisco Eduardo.
Nada demais
Nem de menos
Somente o que não veio
E nem virá, pelo que sei
Mas esperei por ela
E não me correspondera
Sem eira, beira, dane-se!
Revoltei-me pela negação
Ao que tanto orei pedindo
Mendigo de Deus!
Ajoelhei-me, então, ao álcool
Até o brega me agradou
Ridicularizei-me nas calçadas
A lama podre me afundou
Perdi-me 
Com a perda do que não tive
E, já agora, nunca mais terei
Pois quis ter mais
Medindo-me pelo menos
Pelo mais me desequilibrei
Só a lama em que jazo
É onde me equilibro
Com a ausência de ar
Nem mais
Nem menos.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

NÃO TE NEGUES!

Pintura de Almada Negreiros.
Não te afogues!
Salva-vidas são poucos;
E não sei se consigo mergulhar.

Não te enfades!
Que a dura jornada só fez começar;
Tempestades hão de vir.

Sobretudo, não te negues!
Quero-te afirmação, indolente!
Quero-te um furacão, envolvente!
Nada mais que um “não” negado.
E um “sim” reforçado pela coragem!
Quer mais?
Não te negues!
Só negue a quem faz o medo
E ao que o medo te fez.

sábado, 27 de julho de 2013

RIMAS POBRES, MAS SINCERAS

como poetizar o amor sem ser clichê?
porque clichês pra ti não queria dar
quis procurar algo incomum de nós
que só nós a sós poderíamos falar
entretanto tal poesia não bastaria
vez que tudo que falaria faltaria
pra expressar...

pobre língua
que me limita
sem parar
a restrição
sempre corrói
como me dói
deus-mudo!

e mesmo essa angústia já é clichê
cheguei até a desistir de me meter
a falar de amor em rimas pobres
uma poesia é tão pouco pra ti.

FALA MATA

Matou-me
a palavra proferida
matou-me
um dedo na ferida
matou-me 
o que não se fez
perdeu-se a vez
de somente calar
matei-me
ao ouvi-la
a palavra
não dita
matei-me
querendo-a
perdida
matei-me
matando-me
por dentro
sem falar.

sexta-feira, 26 de julho de 2013

QUERER CRIAR

A fonte da inspiração 
Não é de mundo paralelo
A manjedoura do que é belo
Não vem de qualquer nascente
Essa força mui envolvente
Que nos mexe a emoção
Tem em toda sua extensão
O que a conduz sutilmente.

Um impulso de criação
O homem que o alimenta
Quanto mais cria, aumenta
Um rio se amplia em jorrar
Parte e escorre sem parar
Rumo à temporal perfeição
Não se esvai em sua ação
Eterno é o querer criar.

quinta-feira, 25 de julho de 2013

TEIMOSOS

por querer-te
tanto hoje quanto ontem
ou mais
expresso nestes versos
a saudade que
mesmo perto
você me faz...

e sou sincero
ao dizer assim
queria mais de ti
de nós, enfim
companheiros.

mas saiba também
com os erros
crescemos tanto
só porque a teimosia
quase quebrou
o nosso encanto.

eu não admito
de jeito ou maneira
permitir à asneira
de temer findar
que nos guie
o que liberto é o grito:
vem comigo!
quero-te comigo!
até não poder mais
teimar.

quarta-feira, 24 de julho de 2013

AMOR DOÍDO

Pintura de Jorron.
“olá!” inesperado 
ao pé d’ouvido
arrepio contido
frio na barriga
primeira conversa
trocas de olhar
ah, bem que será
mais que simples
amizade.

pra falar verdade
eu nem queria mais
enfim, aconteceu
e hoje...
só colho os frutos
desse amor que doeu.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

MARIA BELA, DÁ TRELA E REZA

Igreja bate o sino
É hora de rezar
Vai Maria Bela
Corre para lá
Que tem Joca
Na esquina
E ele vai te olhar
Vai, minha menina
Parte sem pensar
Mesmo que não queiras
Algo vai ganhar
Faz promessa
Ao Santo Antônio.

O POETA E O CHORO

o poeta
contou-me em verso
que o universo
inteiro está
no olhar da criança
no riso de amor
contou-me que a morte
não é só a dor
não há
por que chorar.

o poeta
enxerido que só
pôs num pergaminho
o preceito-mor
de um cafuné
e escreveu finamente
as curvas de uma mulher.

o poeta
me ousou falar
o que o Arquiteto escondeu
obrou o firmamento
e o sentimento
a nós concedeu
eis que na brincadeira
se faz verdadeira
a nossa esperança
o poeta traduz
com todo seu jeito
a criança
que há
por que chorar?
não! não!

o poeta
que chora
só chora em versos
e nem se vê chorar
o poeta
mais chora
que canta
o poeta
mais vive
a lamentar
é que a dor seja tanta
a vida o espanta
e o riso é pouco
faz-se de louco
e vai versejar
o verso é mais forte
que o simples chorar.

e só o poeta
que sabe
que a graça
está em chorar
e canta e louva
a arte de amar
e a dor de perder
aquilo que amou
tendo consigo
o chão onde andou
não chores mais!
e se chorar
que seja em versos!

AS CALÇADAS

Se as calçadas do interior falassem...
As histórias que por ali passam
As famílias que por ali se reúnem...
Um templo da temporalidade.

A calçada da casa de meus avós
Que já mudou tanto
Tem livros e livros ditados
Ela sabe de cor contar todos
Sabe de quando Manuel traiu Zeferina
Da queda que Joaquim levou da moto
Até das antigas paródias de eleição.

Naquela calçada
Já me sentei
Deitei
Armaram tucuns
Brincamos de carrinho
Amolou-se foice
Secou-se o feijão
Caiu Nonato bêbado
Sentou Netinho com a namorada.

Naquela calçada
De cimento frio
E quente aos meios-dias
Já chorou Mariana pela morte de João
E já chacotearam com os vizinhos
Mas também colocaram a imagem de devoção.

Recordo-me
Quando mais pequeno era
Que a calçada foi reformada
E vi seus pedaços antigos
Ao chão jogados
Tingidos de vermelho
Desgastados
Era como ler um livro
Contaram-me aqueles pedaços
Histórias mil.

Quantos livros mais não estão em tantas calçadas?
... A procura de alguém que os leia.

ALGO FICOU

Galo cantou na janela
Anunciou o irmão-sol
Olhei bem os olhos dela
A minha amada donzela
Enrolada em lençol.

E cada manhã daquelas novas
Parecia rodeada de um quê novo
Eterno e precioso momento absorto
Eu e ela, um só, a olhar a brisa passar...

Passaram-se os dias
Nossa jovialidade foi-se com eles
Contudo, algo ficou...

domingo, 21 de julho de 2013

CONTRADITO

Bem dizia um velho que achei jogado na calçada da igreja duma sé qualquer:
Morrerei com a dignidade dos pés descalços e da longa barba branca.
Não me adianta, ora mais, viver para o que os outros vão pensar.
Sendo louco, alienado, pouco importa dar esclarecimentos à vaidade.

Mas meu amigo não concreto tinha uma única vaidade, embora não admitisse:
A de olhar seus próprios pés incessantemente, sujos e rachados.
O que nos outros gerava asco, dele era orgulho, símbolo da abnegação da vida perdida.
Queria ser tão diferente e tão melhor, que sair da lógica alheia era o caminho certo.

Loucos negam as ilusões dessa vida.

PEDIDO AO FILHO

Filho meu
Não serás hebreu em terra alheia
Posto que em tua veia
Escorre o sangue de resistência
Daqueles que deram a vida pela vida
E viveram intensamente a dura partida
Dos seus.

DEDILHADOS

Rosto enrugado,
Velha rede de tucum,
Olho cego,
Corpo adoentado,
Passo o dia na varanda,
Tão entediado;
Intruso chega
Vira e revira a bagunça
Dessa vida só resta o cansaço
E uma viola
(Des)afinada a meu jeito.
Adentro-me em acordes.
Notas que minhas notas são ritmadas?
É o ritmo que me mantém vivo
Até quando os dedos pontilharem...

PRENUNCIO

Exponho-me na melodia
E que a minha alegria lhe contagie
Porque quero viver.
Venha e de braços abertos
Cante um novo hino
Que se faça saber:
Eis que agora,
Uma nova aurora se anuncia;
Onde em cada dia
A paz vai haver
Na esperança
Que guia a andança
Junto ao bom querer.

Prenuncio...
O tempo dirá
Ou as pedras.

sábado, 20 de julho de 2013

AMIGOS, IRMÃOS DE SINA

Iremos brindar inda quantos reencontros?
Se soubesse, essa pergunta não me abateria.
Nas noites de insônia, consumi-me em receios:
Até quando a vida generosa me seria?
Não obstante tal constatação da finitude,
Abri-me para amar-te, amar-te mais que o fim.
Pois que de tua amizade há de ficar,
Tesa, a candura que resiste ao cupim.
Grato ao tempo que a ti me deste.

Amigos, irmãos de sina.

quinta-feira, 11 de julho de 2013

POBRES VERSOS DE INSÔNIA

Insistir em descrições é vão
Quando o fluir passa por entre as narinas
E se esvai tão forte e ininterruptamente
É o vento ébrio que apaga as lamparinas
Obriga-me, tal impostor, a ceder e curvar
Minhas ambições às limitações temporais
As mesmas que me consomem sem sentir.

Mas insisto, insisto sem pensar
Que a vida, essa curva sinuosa de uma fita
Não avilta o nadador que em abraçadas avança
O teimoso algo alcança, nem que a morte ao final
E se a irmã-última vier fria, tragando alma e penar
Pensarei mais no raio que alumia esse nobre pelejar
E terei sentido, qualquer, para viver e sorver verbos
Sem medo, sem receio de me desamarrar.

quarta-feira, 10 de julho de 2013

PERGUNTAS AO NADA

Por que toda poesia me faz lembrar a morte?
Por que toda canção agora tem um repetido mote?
Por que me escondo do nada, mas ele não me larga?
Por que no largo de meus medos, amedronto-me comigo mesmo?
Por que, olhando em seus olhos, vejo o espelho de minhas angústias?
Por que, pisando em abrolhos, a caminhada morre com os passos?
Por que a respiração susta o choro reprimido?
Por que meu corpo não entende, estando agora eu estendido?
Por que minhas mãos não alcançam a imensidão do Céu?
Por que as palavras não bastam nesse limitado papel?
Por que o malgrado dos gestos alheios me prende?
Por que me surpreende a traição de Abel?
Por que caio e o chão não me dá sustento para levantar?
Por que pergunto, pergunto e pergunto, mas há pouco para encontrar?
Por que não sei, mas insisto tanto, exitoso, em teimar?

IGNOMÍNIA

Pensava-me tão sábio.
Sequer sabia, contudo,
Que o absoluto me furava,
Trespassava ferinamente
Minha alma de andante.

Pensava-me tão sábio.
Julgava-me livre;
Que as escolhas dadas
Eram todas, quase, minhas;
Mas não escolhi viver.

Pensava-me tão sábio.
E não pensava
Nalgum dia vir sofrer;
E que a dor ensinaria,
Mais que tudo, que não sei.

Pensava-me tão sábio.
E fui tolo ao me enganar...
Todos os dias passaram
E julguei que iriam durar.
Foi tão pouco e eu também.

CONFIDÊNCIA DIVINAL

Quero lhe falar
De todo o meu grito
Das coisas que vivi
No nosso vão conflito
Quero lhe contar
Os segredos que guardei
Quero espalhar
Toda flor que eu pisei.

E quero muito mais
Muito mais que tudo
Calar-me e fazer-me
Um pobre, um mudo
Daqueles que andam perdidos
Sem voz pelas calçadas
Os poetas verdadeiros
Que vivem as madrugadas.

Quero lhe pedir
Desesperadamente
Guia o meu devir
N’alvorada envolvente
Dos passos do medroso
Que ousou cantar
Um dia sim
Na passarela das Andradas
Ao sino de marfim
E olhou a lua
Ergueu as mãos
Curvou-se ao chão
E ali caiu
Não soube
Não soube
Que destino lhe partiu.

E eu mesmo quero partir
Para não sei bem aonde
Só sei, quero pedir
Retira-me a um monte
E que lá ore
Pelos que não quiseram
Nem quererão
Mexer-se mais.

DIÁRIO DE UM DIA SÓ

Só nesse dia
Sozinho como o futuro que não virá
Chorei amiúde por te não ter no meu lugar.

Só nesse dia
Cabreiro por pisar no firmamento
Por um momento, pensei alcançar.

Só nesse dia
Perdido dia de pensamentos soltos
Pulei suspiros e soprei-os aos outros ares

Só nesse dia
Único, inconteste, maldito dia só,
Minha cabeça, refletindo, pensou-se pó.

Só nesse dia
Que se passou numa eternidade
Cada minuto e angústia trazem toneladas de desamparo.

Só nesse dia
Quando estive ao lado do desconhecido
Vi que a estreita fenda que nos separa inexiste.

Só nesse dia
Dia que não passou para além dos sonhos
Esqueci-me que morria, esqueci-me que vivia e não vivi (pouco).

BASTARDO

Terras, escutem meu grito!
Que agora eu vou cantar
Eu venho do pó e do chão
Eu venho do lado de lá.

Eu sou mais que a terra
Eu sou mais que o ar
Criei-me do nada
Sou filho do que virá.

Eu sou filho do sangue
Viajante de outro lugar
Um fruto perdido da relva
Menino perdido sem lar.

Eu sou filho do canto
De poesia sem fim
Do poeta que se findou
Ficou ele cá em mim.

Eu sou filho das leis
Apagadas na pedra de outrora
Sou filho da passagem
Só o tempo é que me devora.

Bastardo,
Bastardo,
Sozinho no mundo afora.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

MEU POBRE OPRESSOR

Zum-zum
Fumaça
Calor
Suor
Farda
Mordaça
Da fome
Calada
Corre-corre
Não para
Aperreio
Desemprego
Porta escancarada
Se não quer
Tem quem queira
Faça o que não der
Force
Agarre
Não arrede o pé
Da fábrica
O patrão
Quer lucrar
Com seu
Medíocre
Sangue.

VAMOS À REVOLUÇÃO!

Os soldados estão a postos,
Prontos para continuarem lutando,
Em uma guerra na qual muito sangue já foi jorrado,
Onde muitas batalhas já foram vencidas,
Porém, o inimigo ainda não foi derrotado.

As ruas colorem-se de verde e amarelo,
Inúmeros guerreiros tomam as praças, becos e estradas,
os grandes labirintos já não têm mais saída,
a vitória será decretada.

Os gladiadores nacionais não temem nem fraquejam,
utilizam-se de instrumentos que não ferem e não matam
Assim como os gênios do passado,
Usam-se dessas armas para repintarem nossa bandeira,
e reescreverem a nossa história!

Kélvis Albuquerque

SEJA MINHA CORAGEM

Falo em versos
O que em sussurros
Falta-me de coragem
Falo em gestos
O que em apegos
Falta-me de ação
Falo em calafrios
O que em olhares
Falta-me tanto a sua mão
E mesmo nessa poesia do medo
Da insegurança de alguém assim
Penso sempre em seu calor
Quero tê-la para mim
Embalá-la em meu abraço
Senti-la em respiração
Fugir desse mau mormaço
Da amarga solidão

Seja minha coragem.

domingo, 30 de junho de 2013

TENTAR SER PAI

Quando você vê a face de um pedaço seu, um filho, a admiração não cabe em mil crônicas. Já vi dizerem que a mãe se sente como tal a partir do momento em que sabe estar grávida, mas o homem só vai ter noção da grandiosidade desse sentimento ao encarar aquele fruto de amor, milagre da vida, chorando, pequeno e delicado, ainda vermelho pelo esforço da nascença. Nesse dia, em que o vi, e de lá até hoje, a vida não foi a mesma, nem será. A existência é mistério indescritível, revolto de mistérios, que qualquer filosofia possa desvendar, nem a pobreza de fundamentalismos, de falsas crenças e falsas verdades. E, enquanto encaro a chegada de mais um navegante nessa existência, outros tantos se vão, e no ciclo da vida em que a renovação é lei suprema, a linha tênue que nos separa mostra-se, claramente, no parto, no choro, na dor e no alívio. O tempo escorre, conhecemos cada vez mais gentes, mais situações, e o aprendizado duro e meandrado nos permite continuar aqui mais um tempo, até que precisemos dar nosso salto qualitativo, revolucionário, rumo ao negror do desconhecido, que me parece bem mais apraz ao olhar a inocência e paz de quem dele acaba de chegar, e ao sentir que, duma hora para a outra, bagunçando-me por inteiro, tal como inda permaneço, ganhei o dom de tentar ser pai.

DE ALGUM CANTO, VENHAM!

cá da terra
mando mensagem
estamos em apuros
já faz tempo
negociaram-nos
e venderam barato
o relógio, o agora
é o nosso senhor
por nosso penhor
ouçam-nos
mandem numa nuvem
de algum canto
ou canto algum
um raio que destrua
a fugacidade
da tamanha sombra
de nosso medo
pautado na temporalidade
e angústia de não mais
alcançar nos dias
a eternidade.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

NUS

Num romance
Na profunda escuridão
Envolvi-me com mim mesmo
Foi girar de um furacão
E na escuridão que vi
Isso mesmo, eu vi, afirmo
Vi melhor que nada mais
Nada mais quero comigo
Quero ser um homem nu
Simples nu
Feio nu
Um nu
Só nu
Nu, eu, você, comigo
Sem capas
Sem cascas
Sem cápsulas
Só nós
Sós
Como somos
Mortevida
Tudo junto
Em síntese
Infinita.

ROBOTIZANDO

Somos mecânicos, infelizmente.
Cotidianamente mecânicos.
Nos gestos, nos “olás!”...
No “bom dia!” forçado...
No “bom dia!” não dado...
No “oi, tudo bem?”,
Que não quer resposta.
Somos mecânicos no trabalho.
Querem até mecanizar o amor!
Domar o homem e seus desejos.
Matar o homem, tornando-o um robô.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

PENSANDO A VIDA (CORDEL)

1.
Traço versos nessa hora
Pra tratar de assunto sério
Que incomoda minha alma
E faz-se grande mistério
É a vida e suas faces
Sendo a arte seu critério.
2.
Esse mundo não é nosso
Aqui viemos cair
Sabe-se lá de onde
Mas o certo é partir
Rumo ao Desconhecido
Não temos como fugir.
3.
Bem diria um filósofo
A vida tem seu começo
Tem seu meio e seu fim
Tem também o seu avesso
Que é a vida mal vivida
Que vai contra o seu preço.
4.
Essa vida que vos falo
Que se nega por si só
Nasce quando o sujeito
Se esquece que é do pó
Quer viver como imortal
Ah! Esse merece dó!
5.
Pois vejam todos vocês
Sábio foi sãol Francisco
Que amava a irmã Morte
Não via nela um risco
No máximo, uma passagem
No olhar de nós, um cisco.
6.
Viveu ele entre os pobres
Praticou o verbo amar
Soube que com esse verbo
Tudo poderia mudar
Fez pra si um bom sentido
Pra sua vida andar.
7.
Isso todos nós queremos
Um sentido pra viver
Um rumo que oriente
Nas dores que vamos ter
E a fé é a arma mestra
Sabendo bem a sorver.
8.
Se as pessoas refletissem
O que fazem nesse chão
Porque é que estão aqui
Qual é a maior missão
Talvez chegassem a ver
Quão pequenas elas são.
9.
E vendo essa pequenez
Que se põe à nossa frente
Ficaria bem mais nítida
A besteira que é a gente
Brigar e se intrigar
Que coisa mais deprimente!
10.
E digo mais por aqui
Se o povo percebesse
Que a morte está por vir
Teria mais interesse
Em conter a nossa língua
Pra que não se corrompesse. 
11.
Eis que a língua é malvada
A palavra fere mais
Que o tapa e o chute
Inclusive, ela é capaz
De romper com o sentido
E com toda a nossa paz.
12.
Com o choro derramado
Na vida de muito irmão
Sofrendo as angústias
De se ver no fim do vão
Vi a vida professora
E a dor como lição.
13.
Vi ainda a irmã Morte
Noutro lado da moeda
Não há vida sem tê-la
É como subir sem queda
Pra todo alto há o baixo
Mas o rio não se veda.
14.
Toda água sempre corre
Pra imensidão do mar
Do mesmo modo a gente
Um dia há de tornar
Antes cabe aprender
Com o que a vida dá.
15.
Esse grande presente
Que nos foi a criação
Sempre será mistério
Pra nossa compreensão
Entretanto, bom mesmo
É sentir cada porção!
16.
E encerro aqui minha fala
Muitos versos hão de vir
Porém, sei, nenhum deles
Chegará a traduzir
A riqueza dessa terra
Desse sofrido porvir.

domingo, 2 de junho de 2013

AVANTE, JUVENTUDE! (CORDEL)

1.
A juventude é força
Vontade e esperança
Se usar bem sua energia
Lutando pela mudança
Se quebrar suas correntes
Mãos unidas em aliança.
2.
Mas nem tudo acontece
Como a gente prevê
Essa mesma juventude
Pode ficar à mercê
Do medo, sim, e refém
Nada assim pode crescer.
3.
Andando nesse mundão
De Deus e do povo pobre
Vejo muito tanta gente
Se vendendo pelo cobre
Por tudo quanto é metal
Se rendendo aos nobres.
4.
Um monte de injustiça
Aflige o pobre pensar
Sacode o meu coração
Faz a gente lamentar
Crianças largadas à rua
Famílias sem pão e lar.
5.
Ao mesmo tempo encaro
Gente com tudo em mão
Cheia de pompa e chique
Andando em seu bom carrão
Acumula e desperdiça
Desrespeita a Criação.
6.
Discurso bonito é fácil
Difícil mesmo é agir
O que tem de hipocrisia
No mundo não cabe aqui
Vários dos revoltados
Do sofá não vão sair!
7.
Em discurso até o Cão
Parece bom e envolvido
Com as causas sociais
Diz-se comprometido
Mas na prática peleja
Pra desunir, o fingido.
8.
Quanta gente por aí
Da política reclama
Mas na hora de votar
Joga o dito lá na lama
E se vende baratinho
Votando num sacana.
9.
Falam em corrupção
Que é coisa intolerável
Mas furar fila e enganar
No troco é notável
Parece que esse tipo
De coisa é saudável.
10.
E lembro mais a vocês
Nessa globalização
A negada tá informada
Fácil comunicação
Fácil ficar na net
Mas é preciso é ação!
11.
E voltando à juventude
Nosso público leitor
Sou jovem feito vocês
E, sei, sinto a dor
O mundo clama por paz
Justiça e mais amor!
12.
Vamos semear no mundo
Em cada pequeno gesto
Sonhos e planos comuns
Pra vencer o mal funesto
Lançar pela igualdade
Nosso grito de protesto!
13.
Um basta à hipocrisia
E ao tal do comodismo
Pra sair de casa e unir-se
Pra contornar o abismo
Que separa os irmãos
A ambição e o cinismo.
14.
Se cada um fizesse
Ao menos a sua parte
O certo é que o Mal
Iria parar em Marte
Mas não espere o outro
Dê exemplo em sua arte!
15.
E ei de ver no futuro
Nosso grande resultado
Da união o grande fruto
E viver um bom bocado
Cada um com seu direito
De sorrir e ser amado.
16.
Fico cá com esses versos
Que improviso com vocês
Sinceridade e carinho
Digo que aqui têm vez
Um abraço, paz e luz
Deus nos dá a solidez.

O ONTEM E O HOJE

Recentemente recebi um e-mail, onde o ex-presidente enaltecia o Programa Bolsa Família. No vídeo, ele criticava os seus opositores a respeito do benefício destinado à população. Chegou a chamá-los de ignorantes. Na sua visão este benefício não torna a população preguiçosa. Já em outro momento do vídeo ele (Lula) faz criticas duras a esse tipo de benefício. Pois esta “ajuda” estaria sendo usada como “moeda de troca” eleitoral.

Vejam amigos blogueiros: Temos dois Lulas. Um antes da “Faixa Presidencial” e outro palaciano. Quando sindicalista pregava ideias revolucionárias e o bom uso do erário público. Já sentado na mesa palaciana as coisas mudaram. Primeiro ato: Aquilo que era assistencialismo passou a ser o principal programa do seu governo - o Bolsa Família. A utilização do erário público como moeda de troca para a governabilidade do seu reinado... Que nos outros governos também havia desvios é fato! Mas nestes dez anos o que vemos é que esta prática foi institucionalizada.

Já o Programa Bolsa Família ter sido o responsável pela mudança de classe na sociedade brasileira, tenho minhas dúvidas. E me embaso nisto por achar que o dinheiro recebido por cada família é muito pouco para proporcionar tal mudança. A importância que vejo são as condicionalidades que cada família tem que cumprir para manter-se no Programa. Tais como: Manter as crianças nas escolas, ter o cartão de vacinação em dia e fazer o acompanhamento de pré-natal. Vejo estas condicionalidades como uma obrigação familiar. Pergunto: Se houvesse uma campanha de conscientização séria acerca dos direitos e deveres das pessoas com sua família e sociedade não seria mais pedagógico e bastaria?

Semana passada houve um boato tratando do fim do Programa Bolsa Família. Foi um “Deus nos acuda”! Começando pela classe política. O Planalto tratou logo de desmentir e acusar a oposição. Este programa vai se perpetuar.

Voltando ao início da nossa participação, vejo que o ex-presidente, “enquanto sindicalista” tinha razão quando falava que este benefício é uma moeda de troca eleitoral. E hoje ele é o principal cabo eleitoral do Partido palaciano. O Que era ontem não é hoje. Os fins justificam os meios?!

Carlos Teles

sábado, 1 de junho de 2013

O VACILO DE JOSÉ

Agradecemos à colaboração de Prof. João Teles com a revisão técnica.


I.
Viveu José sua história
Em cada passo e agonia
Ele entrou numa furada
E quase que não saía.

II.
Era igual a qualquer um
Nem mais fraco, nem mais forte
E pagou pelas escolhas
Contou ele com a sorte.

III.
Mas não se enganem vocês
Da fossa que o conheceu
Sei, nem todo mundo escapa
Grande parte pereceu.

IV.
José viveu para as drogas
Curtiu enquanto podia
Só depois se apercebeu
Do quanto que se perdia

V.
Escapou, mas não foi fácil
Afinal, lá no começo
Prendeu-se ele julgando:
“São boas, eu as mereço!”

VI.
Tudo começou um dia
Com os amigos no quintal
Deram-lhe logo um cigarro
Disseram que era normal.

VII.
Tossiu, quase se engasgou
Coisa de primeiro trago
Sua mãe sequer sabia
Estava feito o estrago.

VIII.
Pensava ele: - Sou homem!
E homem fuma e bebe.
Meus amigos me aceitam
As meninas, logo em breve.

VIII.
Não custou, os tais amigos
Nas festinhas da cidade
Lhe empurraram muitos goles
De cerveja, à vontade.

VIII.
José, tonto e esquisito
Dançou mais e... livremente
Tomou gosto pela coisa
Se via todo contente.

IX.
Não custou, se acostumou
Co’aquela loira danada
Para ser festa da boa
Tinha que ter a gelada!

X.
Cerveja já era fraca
Precisava de algo mais
José rumou pro uísque
Vodka, rum e coisas tais.

XI.
Nas rodadas de bebida
Pra se fazer de machão
“Concurso de quem aguenta
Beber a maior porção”.

XII.
E andava em sua moto
Bêbado, em cada estripulia,
Ronco forte de motor,
Animado em correria.

XIII.
Andou levando umas quedas
E torcendo o antebraço
Se não fosse o capacete
Morreria nesse enlaço.

XIV.
Já o pobre do Marquinhos
Um amigo de garupa
Findou sua vida ali
Ao José restou a culpa.

XV.
No dia depois do enterro
Descontou lá na cachaça
Bebeu todas que cabiam
Caiu mesmo ali na praça.

XVI.
A esse tempo, na escola
Não lhe interessava nada
Os professores falando
Ele pensando a noitada.

XVII.
Lhe mostraram a novidade
Ele, curioso, aceitou
Um cigarro diferente
De tudo que já fumou.

XVIII.
Fez viagem a outro mundo
Viu tudo se misturar
Ficou livre, leve e solto
Parecia flutuar.

XIX.
Quis saber depois daquilo
O que ora lhe ocorrera
Soube pelos seus amigos
Da droga que o abatera.

XX.
Não foi cigarro qualquer
Foi algo bem mais potente
E depois de lhe dizerem
Maconha, era evidente.

XXI.
E mergulhou de cabeça
Naquela vida de louco
Álcool, porta de entrada
Toda droga, algo pouco.

XXII.
Misturaram algo mais,
Na maconha que fumava
A viagem ampliou-se,
E num instante passava.

XXIII.
Soube que era o tal crack
Bicho mais, muito mais forte
Mais gostosa era a viagem
Bem mais perto ele da morte.

XXIV.
Já não tinha mais controle
Dia e noite, noite e dia
Prendeu-se já no desejo
Que tanto lhe consumia.

XXV.
E se chegasse o dinheiro
Tinha seu destino certo
Comprava todo de crack
Não queria a mãe por perto.


XXVI.
Dizia: - Estou no controle
Continuo porque gosto
E quando quiser largar
Largo logo, digo, aposto!

XXVII.
Eis que se contradizia
Perdeu peso, fico feio
Perambulava ao relento
Não tinha nada de freio.

XXVIII.
Só conseguiu se livrar
Com muito custo e esforço
Assim que reconheceu
Ter chegado ao fim do poço.

XXIX.
Nos pais procurou ajuda
E nos postos de saúde
Voltou a assistir às aulas
Disso soube, quando pude.

XXX.
Vejam vocês essa história
Vivida em tantas casas
A droga é silenciosa
Só basta lhe deem asas.

XXXI.
Saiba que a dependência
Não está longe de você
Basta o primeiro passo
Para logo se perder.

XXXII.
Eu aqui deixo esse exemplo
Não entre nessa ROUBADA,
E se entrou, vá e corra
Pra ajuda, camarada!

CIDADE DO INTERIOR

I.
Josefina tece suas prosas
Com a mão fina na palha.
Tece também o chapéu,
Língua ferina, navalha.

II.
Joaquim, à bodega, bebe.
Dedica o gole ao santo,
Para quem tem devoção.
Esquece Maria e o pranto.

III.
Velha Isabel e a bengala,
Manca, gorda, põe a mão
Aos ouvidos e se informa
Das conversas do povão.

IV. 
Conversa se espalha ligeiro,
Noticiário de esquina corre,
E faz carnaval a mangoça,
Do cara caído do porre.

V.
Manuel por nada troca
Seu cigarro de pé duro.
Pose de macho, tosse.
À igreja, sabe o futuro.

VI.
Ana, beata, reza o terço.
Inseparável pano à testa.
Caridosa, zela a alheia vida,
Pára a reza ao ver Modesta.

VII.
A formosa Modesta desfila.
Passa e atenta a caboclada,
Impressionam as suas ancas
E a face bem corada.

VIII.
João, o pobre, nunca casou.
Não teve quem o quisesse.
Fede a cachaça e a fumo;
Em seu desaprumo padece.

IX.
Vendo João, Irmão Ricardo,
Faz que não vê, e desvia,
Converteu-se em Brasília
Ele, Carmem e Sofia.

X.
A cunhã da Rua de Baixo,
Leva a fila de meninos,
Todos de pais diversos.
Crescem ouvindo vis ferinos.

XI.
Nhã-Nhã só quer os livros
Espreita o mundo nas folhas.
Mal sai ela à calçada,
Teme tanto suas escolhas.

XII.
Já Félix é diferente,
Pelo menos tenta ser.
Foi ao Rio, voltou chique.
Em pouco volta ao sofrer.

XIII.
Farofa, a cadela, dorme,
À capela bem calada.
Ó, maior fiel não o há,
Sincera e reservada.

XIV.
Maicon quebrou a perna
Nas peladas vespertinas
Seria um novo Ronaldo,
No que conta às meninas.

XV.
Mariano mente um bocado.
Peixe de um metro, jura,
Achou no açude e deixou,
Mui longe, mui tortura.

XVI.
Lenita, a doente, lamenta.
Rabugenta, bem que queria,
Todos doentes quais ela,
Deus, à hora, não havia.

XVII.
Onira, com suas trouxas,
Louca, sempre de mudança,
Pronta ao fim dos tempos,
Pra encerrar a sua andança.

XVIII.
Espreguiça-se todo Jânio.
Falador, o homem sosneiro.
Se pensa em ir trabalhar,
Pronto, dói o corpo inteiro.

XIX
No bar se gaba Jean.
Todo valente, o mulato,
Diz ele, enfrenta onça,
Cobra e cabra gaiato.

XX.
Também no bar, Israel,
Torto, bem aparentado,
Com seu casaco molambo,
Dança, o chão é o tablado.

XXI.
Zezim, da Pedra Lascada,
Ávido que nem gavião,
Vereador do discurso alto.
Não se entende um tostão.

XXII.
Eu, forasteiro, me esqueço.
Na estranheza me envolvo,
Com as doidices da cidade,
Dum nem tão parado povo.