segunda-feira, 18 de junho de 2018

Desencanto

Para quem vive numa eterna noite
O brilho às vezes é ofuscamento
O sonho calmo, só mais um momento
Anunciando o golpe do açoite.

A ironia reina soberana
No livro fino da vida terrena
A fome é grande e a carne pequena
A riqueza adorna uma carcaça humana.

domingo, 3 de setembro de 2017

ÓRFÃO DE SONHOS

No silêncio da noite
O cobertor é meu confessionário
E os olhos fechados
As portas de um mundo aberto
Escuro e só meu
Repleto de fantasmas do passado
Os sonhos abandonados
Os desejos frustrados
A lição de casa de um amanhã que não veio.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Desencanto e morte

Autorretrato com a Morte Tocando Violino, de Arnold Böcklin.
Um canto novo não veio
Uma esperança que morreu
Foi-se o nobre devaneio
Para longe se perdeu
Foi-se um eu em meio ao tempo
Foi-se o ídolo e o templo
Acabou-se a ilusão
Foi-se o rumo, foi-se o chão
Veio a morte como foice
E podou meu coração.  

sábado, 29 de julho de 2017

EU MANDACARU

Pintura: Adriano Santori

A aridez do terreno em que brotei
Não logrou impedir meu crescimento.
Eu sou cacto verdoso e espinhento!

Mas além dos espinhos que forjei,
Sou por dentro a doçura apurada,
Sou poema que cresce pela estrada,
Sou o grito da vida que resiste,
Sou metáfora do povo que insiste
Em viver enfrentando o sofrimento.

Sou o sorriso teimoso do momento
Em que sonho ser mais do que agora!

Não é pouca a vileza do que enfrento.
E o mal deste mundo me devora...
É o amor que inexiste nas pessoas,
É a angústia que existe aqui dentro
Azedando o sabor das coisas boas...

Os meus versos atestam que estou vivo
E enquanto existir algum motivo
Para crer num amanhã ainda possível
Viverei. 

segunda-feira, 1 de maio de 2017

CANÇÃO DE UM ninguém

Eu sou um ninguém
No subúrbio do mundo
Cantando rouco
Desafinado
Pra outro ninguém ouvir
Esse discurso tolo
Mas afiado
Que corta a víscera
De quem sentir
Assim como eu
A ferida aberta
A porta fechada
A encruzilhada
A dor da partida
E a dor da chegada
Essa vontade de dizer não
Essa incerteza ao afirmar
O que desejo
A falta de jeito para sorrir
A vontade de soltar
O choro engasgado
De gritar algo que nem sei
Eu mesmo o que significa
Porque a angústia é a minha melhor amiga
E a solidão a certeza do fim.

SOBRE A MORTE DE BELCHIOR


Hoje o corpo não guarda mais a alma
De quem, vivo, transitou pela canção 
E se fez poema em carne e coração 
Como o pássaro que encanta sua prisão 
Fez a arte onde só havia trauma 
Semeou pergunta onde residia a calma 
E a sua dor veio como redenção 
Unindo o medo, a loucura e a razão 
Numa eterna e passageira contradição.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

CANÇÃO À LAVADEIRA


A lavadeira no rio lavou
Suas dores e mágoas largou
A corrente veio a dissipar
O que antes lhe fazia mal
Hoje está misturado com o sal
De mil choros lançados ao mar.

Cada cantiga cantada
Na beira de um rio a correr
É na verdade a caçada
De um sentido para se viver

Ai, quem dera eu fosse
Feito um rio que não tem represa
Ah, quem dera a angústia
Se afinasse à minha certeza

De que o fim, afinal, é o começo.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

CARTA SEM RESPOSTA

Olá! Como vai? Dá-me um momento…
E me fala como foi tua viagem.
Pois aqui, só me sobrou a estiagem,
Por perdê-la, um total padecimento.

Dá-me um “olá”, um sinal, algum contraste.
Eu te imploro que ateste que inda existe,
Porque aqui cada vez fico mais triste,
Convivendo com o buraco que deixaste.

Desespero é a palavra que desenha
O destino de quem não cede à saudade.
Essa vida não depende da vontade!

Ela é dura, insensível e desdenha
Desta lágrima indecente que escorre
Do poeta que escreve a quem morre.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

SOBRE A SAUDADE

A saudade
Este sentimento que dói por dentro
Visceral e demoradamente
É ao mesmo tempo
O consolo, a lembrança
A certeza de que levamos conosco
Como um pedaço de nós
Quem amamos.

PASSARINHO

Quero ser, quem sabe
Um passarinho:
O mais pequeno e frágil deles,
A passear por uma árvore qualquer,
Tornando-me dela sutil e breve detalhe…
Um passarinho dentre milhares de outros,
Passageiro, livre e descompromissado.
E ajeitar minhas penas sobre os galhos,
E dançar ao sabor do vento
E assobiar uma cantoria
Cujo destinatário poderia bem ser você.

segunda-feira, 9 de março de 2015

PERDOADO (GALOPE À BEIRA-MAR)


Cruzei oceanos nas lágrimas tuas;
Ferir-te me foi um pecado, porém
Ganhei, esforçado, o perdão sem desdém,
Depois de uns tempos de dores tão cruas…
Negando com medo, sorvendo das ruas
O amargo ardoso de angústia, a chorar,
Tragado nos goles de pinga no bar;
Não tive, entretanto, amigos nem nada
De bons, que ajudassem à minha empreitada,
Cantando remorsos na beira do mar.

Mas, saibas, depois de lavada minh'alma,
Chegou a coragem: pedi-te desculpa
Exausto, arrasado, tamanha era a culpa
Que me consumia. Ergui-me com calma
Pulei de alegria em ver que a palma
Da mão se abria, acolhendo-me a amar…
E disse: - Recebo, se a mim respeitar.
Pulei de espanto, com aquela bondade;
Daí em diante, mudei de verdade.
Fiz este poema, na beira do mar.

quarta-feira, 4 de março de 2015

ERRO VENCIDO

Na carta, nas letras que ela continha,
Viviam uns versos de ontem, eu sei,
Rasgados, perdidos, depostos da “lei”
Ferrenha, enfadonha, a senil ladainha:

“Não tentes. Não topes. Errar martiriza!”
Mas, penso e discordo: errar nos ensina,
Em ato e em dor, por ser nossa sina,
Que o aprendizado é a mais firme baliza.

Versinhos na carta, perante a tirana
Força restritora, feroz, que esgana…
Diziam lá cálidos, em tom decidido:

“O teu maior medo, ingênua arteira,
É mais miserável que a tua maneira
De rir adiante do erro vencido."